ASCENSÃO PLANETÁRIA

AMIGO LEITOR!!! Nossa missão aqui é apenas de divulgar a "Ascensão" do Planeta Terra e dos seres que nele habitam. Não temos a menor intenção de impor ou convencê-lo de qualquer assunto aqui tratado. Deixamos claro que não se trata de nenhuma seita ou religião e também não discriminamos ninguém, quer seja por raça, partido, opção sexual ou religiosa. A principal intenção é de informar, ao amigo leitor, sobre temas e assuntos que, em nossa opinião, entendo serem tão importantes e necessários, e que num futuro muito próximo, poderá lhe ser útil. Pedimos apenas que use seu discernimento o máximo que puder, meditando, analisando e, por que não dizer, questionando o que aqui vier a ler…. SEJAM TODOS MUITO BEM VINDOS E FIQUEM NA LUZ !!!

ARRET – O Passado do Planeta

Copyright © 2.001 porJ.A. DALCOL

Título Original: ARRET – O PASSADO DO PLANETA

Registrado na Fundação Biblioteca Nacional sob nº 224.272

ISBN nº 85-901892-1-X   

Código de barras nº 9788590189213

Edição eletrônica revisada e ampliada – Fevereiro de 2009

Editor: J. A. Dal Col

Editoração eletrônica: J. A. Dal Col

Revisão: Maria Solange D. V. DaI Col e Priscila D. V.  DaI Col

Capa: J. A. Dal Col, Tathiana D. V. DaI Col e Bruno do VaI Benes

OBSERVAÇÕES:

Os leitores e leitoras estão autorizados pelo autor a repassar cópias eletrônicas ou em papel para qualquer pessoa desde que não envolva cobrança ou favorecimento de qualquer espécie.

O principal objetivo é divulgar uma mensagem de esperança para o maior número de pessoas possível, antes da ocorrência do exame de seleção planetário, a “separação do joio e do trigo” prevista por Jesus e por inúmeros profetas, como São Malaquias, que a prediz para o momento seguinte à morte do Papa atual e eleição do último Papa, o Pedro Romano.

Qualquer comentário, crítica ou sugestão, bem como, o pedido de remessa, também gratuito, do segundo livro da trilogia, denominado ARRETO Passado do Planeta, poderá se rfeito diretamente ao autor, através do site e do email da Ecovila Vale Dourado, conforme orientações na última página deste livro.

Se você gostar deste livro, vai adorar ARRETO Passado do Planeta e vai se emocionar com o grande trabalho que os seres espaciais, os Anjos da Colheita, realizaram antes, durante e, especialmente, após do exame de seleção planetário.

Acreditamos que quem ler os dois livros não terá mais nenhum tipo de medo a respeito da transição planetária, também conhecida como exame de seleção, separação do Joio e do Trigo, ou como “fim do mundo” e final de ciclo.

Pelo contrário, acreditamos que passarão a desejar que esse grande evento ocorra o mais rápido possível e que logo floresça em nosso planeta a nova sociedade, conforme está descrito em ARRET – O Passado do Planeta, que algum tempo depois se transformará no modelo social descrito neste livro.

Para se urbanizar uma favela com moradias dignas, água tratada, rede de esgotos, ruas, praças e vários equipamentos para melhorar a qualidade de vida dos moradores, é necessário, antes, derrubar as edificações existentes, retirar os entulhos, regularizar o terreno e iniciar as construções em novas bases.

É isso que irá acontecer na Terra e não devemos temer nada que irá melhorar nossas vidas. Esse é o objetivo da divulgação gratuita desses livros.

AO MESTRE, COM CARINHO

J. A.  DAL  COL

A R R E T

O AMANHà DA  TERRA

O PASSADO DO PLANETA

ÍNDICE

DEDICATÓRIA

INTRODUÇÃO

O MODO DE VIDA ANTERIOR À GRANDE TRANSIÇÃO

Visão geral

Geografia, flora, faunaemeioambiente

Raças e preconceitos

Formas de governo

Relações internacionais

Justiça e controle social

Economia e distribuição de riquezas

Agricultura

Indústria

Saúde e Assistência Social

Educação e cultura

Transportes

Comunicações

Tecnologia

Urbanismo e habitações

Família, alimentação e vestuário

Esporteselazer

Religião

O APARECIMENTO DE OLINTHO

A profecia do Homem do Cavalo Branco

O país de Olintho antes da sua ascensão

A chegada de Olintho ao governo

As primeiras ações

Areformaagráriaeasagrovilas

Outras das principais realizações

OS INDÍCIOS DA GRANDE TRANSIÇÃO

O INÍCIO DOS ACONTECIMENTOS

A convocação e o treinamento de voluntários

A montagem dos núcleos de sobrevivência

Os resgates que antecederam agrande transição

O abrigo dos primeiros resgatados

AS AÇÕES DOS QUATRO ELEMENTOS DA NATUREZA

OS RESGATES E APOIOS AOS SOBREVIVENTES

Critérios utilizados

Os resgates ocorridos durante a grande transição

O abrigo dos sobreviventes e as novas operações

O apoio às pequenas cidades e agrupamentos rurais

A grande operação de resgate nos escombros

As atividades nos núcleos de sobrevivência

AS OUTRAS OPERAÇÕES DE RESGATE E SANEAMENTO

Características dos espaciais e dos trabalhos

A preservação da flora e da fauna

O recolhimento de cadáveres humanos

O recolhimento de outros seres mortos

O recolhimento de alimentos e outros materiais

A montagem do novo complexo industrial

O recolhimento de sucatas e sua industrialização

O recolhimento e a preparação de madeiras

O REINÍCIO DAS ATIVIDADES PLANETÁRIAS

A criação das juntas de governo

A transferência dos sobreviventes para os NTCA

Os novos NTCA e a preparação para o trabalho

As atividades das juntas de governo

O início dos trabalhos nos NTCA

A construção e ocupação das habitações familiares

A mudança de mentalidade

AS ATIVIDADES NA PRIMEIRA DÉCADA

A operação de r moção de escombros

O trabalho nos núcleos comunitários

A nova ONU e o início da unificação dos países

A morte de Olintho

OS ACONTECIMENTOS ENTRE OS ANOS 11 E 40

A CRIAÇÃO DO GOVERNO PLANETÁRIO

O período preparatório

A eleição do primeiro governante do planeta

O PERÍODO DE CONSOLIDAÇÃO E DE MUDANÇAS

OS ACONTECIMENTOS NOS SÉCULOS SEGUINTES

DEDICATÓRIA

Dedico este livro às pessoas que, a despeito de todas as adversidades, continuam sonhando e acreditando que podem transformar a Terra em um planeta semelhante a Arret e, em especial, a todos que leram o Diário da Viagem e engrossaram a legião de sonhadores e arautos dos novos tempos e das coisas que em breve irão acontecer.

INTRODUÇÃO

Este livro é o segundo volume da trilogia sobre Arret, um planeta localizado na constelação de Órion, na estrela central das Três Marias, onde vive uma humanidade mais evoluída que a terrestre, tanto do ponto de vista moral, como científico. A trilogia iniciada com O Diário da Viagem relata a maneira como os levantamentos de dados foram realizados durante três dias a bordo de uma nave estacionada no Sistema Solar e nos quarenta e um dias de interações com as instituições e habitantes do planeta. O Diário da Viagem transmite uma visão geral e não sistematizada do modo de vida atual daquele povo bonito, alegre, fraterno e feliz que vive em uma grande comunidade planetária que respeita integralmente a Lei Cósmica, especialmente o princípio da Paternidade Divina e da irmandade de todos os seres da Criação. O Diário da Viagem apresenta informações resumidas a respeito do passado do planeta e por essa razão não se aprofundou nos aspectos evolutivos, nos motivos e caminhos que levaram aquele povo a transformar sua sociedade planetária altamente complexa, competitiva, injusta e infeliz, como a nossa, em um novo modelo social muito mais simples, não competitivo, justo, fraterno e feliz, de alto padrão tecnológico e excelente nível de qualidade de vida.

O objetivo deste livro é relatar, de maneira detalhada, todos os caminhos seguidos pelo povo arretiano para chegar ao avançado estágio que desfrutam na sua atualidade, fornecendo as informações necessárias para que o leitor ou leitora possa analisar, racionalizar e entender a aparente utopia representada pelo maravilhoso modo de vida daquele povo, o qual será detalhado no terceiro volume da trilogia, a partir de uma visão sistêmica e integrada da atualidade arretiana.

Para atingir seu objetivo, este livro apresenta um resumo da sociedade arretiana no período anterior à transição planetária, a qual desencadeou todo o processo de transformação, e descreve seus antecedentes, a sua ocorrência e as operações de resgate e de acomodação dos sobreviventes daquele grande acontecimento, além de fornecer um amplo panorama do trabalho realizado pelos seres espaciais, suas máquinas e naves maravilhosas. Em seguida, relata os trabalhos de apoio aos sobreviventes e seus descendentes, bem como, os caminhos por eles seguidos para implantar e consolidar o governo planetário e a nova sociedade arretiana no decorrer do primeiro século após a grande transição. Em seguida, apresenta um resumo dos principais fatos ocorridos nos séculos seguintes até o limiar da atualidade do planeta, no ano 722 após aquele grande acontecimento que modificou radicalmente a geografia e o modo de vida do povo arretiano.

Por se tratar de um processo de grande importância na história daquele povo e a causa primária de todas as mudanças benéficas que lá ocorreram, a grande transição foi descrita com a maior fidelidade possível e seus detalhes podem chocar as mentes mais sensíveis, mesmo em se tratando de um acontecimento rotineiro na ordem divina e ao qual estão sujeitos todos os mundos de grau evolutivo semelhante ao da Terra, como está fartamente descrito e alertado em inúmeras profecias que integram os livros sagrados do cristianismo e de outras religiões, além de livros e artigos de vários autores espiritualistas e até de cientistas céticos. Por isso, ela não deve ser encarada como uma catástrofe planetária ou como um castigo do Pai Celestial e, por mais terrível que se apresente em seus aspectos saneadores do ambiente planetário, a grande transição representa apenas um exame de seleção que objetiva separar o “joio do trigo” e impulsionar os aprovados para um estágio mais avançado na senda da evolução.

Por trás da ação devastadora dos quatro elementos da natureza existe apenas o objetivo de sanear, regenerar e preparar o planeta para o novo modo de vida dos sobreviventes e seus descendentes. É impossível sanear, urbanizar e fornecer um bom nível de qualidade de vida aos futuros moradores de uma antiga favela, sem derrubar todos os barracos, limpar e preparar o terreno necessário. Somente dessa forma será possível abrir ruas, implantar redes de água potável, de esgoto, de eletricidade, calçadas, asfalto, praças e as novas moradias. É dessa forma que a grande transição deve ser encarada.

O MODO DE VIDA ANTERIOR À GRANDE TRANSIÇÃO

Visão geral

Nos anos anteriores àquele grande acontecimento, a situação geral dos povos que viviam nos diversos países daquele planeta não era diferente do atual padrão terrestre. Lá também havia diferenças sócio-econômicas entre os povos que viviam nos países mais desenvolvidos, emergentes e subdesenvolvidos, bem como, entre os habitantes desses países. Se comparados ao nível de costumes, rendas e de comportamento social, a maioria dos habitantes do planeta tinha um modo de vida semelhante àquele vigente nos países mais desenvolvidos da Terra nos idos de 1960. De maneira geral, a população vivia tranqüila e segura, pois os crimes e delitos rotineiros na atualidade terrestre constituíam um fato incomum em Arret.

Lá não havia o crime organizado, a máfia, o narcotráfico e a grande maioria dos delitos comuns em nosso planeta, pois as legislações e costumes sociais arretianos tinham forte fundamento religioso, como acontece em alguns países do nosso globo. As transgressões legais eram encaradas como um “pecado grave” e punidas com severidade. Na maioria dos casos, os condenados não tinham o direito de recorrer às cortes superiores e eram punidos imediatamente. Além da severidade das leis, a população tinha um alto grau de consciência religiosa e uma visão quase fanática daquilo que as religiões terrestres denominam como “pecado”.

Em razão da consciência religiosa e do menor grau de desigualdade social entre os países arretianos, uma significativa parcela da população tinha um bom nível de qualidade de vida e um razoável grau de atividades culturais e de lazer, centradas nas práticas esportivas, na música, nas danças folclóricas e de salão, além de passeios e viagens turísticas nos fins-de-semana ou nas férias. A seguir, serão detalhados os principais aspectos do planeta e da sociedade arretiana da época.

Geografia, flora, fauna e meio ambiente

Com relação à sua atualidade, o planeta não apresentava sensíveis diferenças, a não ser pelo fato de ter o seu eixo ligeiramente inclinado, uma atmosfera de coloração menos azulada e um teor de oxigênio menor. Arret tinha quase sessenta por cento de terras firmes, incluindo os dois continentes polares. O restante era representado por mares mais salgados que os atuais, grandes rios e lagos. Além dos continentes polares, havia seis outros concentrados na zona equatorial e muitas ilhas marítimas de grande porte. Algumas sediavam países e outras constituíam seus complementos. Nos anos anteriores à grande transição a temperatura aumentou em todo o planeta e causou um processo de degelo das altas montanhas e dos continentes polares, sem elevar sensivelmente o nível dos mares.

O relevo era bastante acidentado, com grandes planícies e montanhas com até cinco mil metros de altura, muitas delas cobertas por neves. Havia grandes áreas desérticas em três dos seis continentes equatoriais, constituídas por areias ou terras quase sem vida vegetal. As chuvas apresentavam um regime semelhante ao do nosso planeta e ocorriam em várias estações do ano e horários do dia e da noite. Geralmente eram acompanhadas por ventanias, raios, trovões que produziam ressacas e furacões em várias regiões do planeta. Essas e outras ações dos elementos da natureza tornaram-se cada vez mais freqüentes, abrangentes e destrutivas nos anos e meses anteriores à grande transição. O clima e a temperatura apresentavam grandes variações, conforme as posições geográficas dos continentes e as estações do ano. 

A flora era semelhante à da atualidade arretiana, com maior variedade de espécies, o mesmo acontecendo com os animais e peixes. Por outro lado, aumentaram as variedades de pássaros em decorrência de cruzamentos com novas espécies trazidas pelos espaciais. Lá não havia animais e peixes de grande porte como alguns que existem na Terra. As grandes espécies marítimas tinham o tamanho das nossas Orcas e não havia animais semelhantes a elefantes, girafas, crocodilos e rinocerontes. Como aqui, lá havia uma grande quantidade de insetos, répteis e pequenos animais como mosquitos, baratas, ratos, cobras e outros que consideramos como inconvenientes ou nocivos.

O meio ambiente apresentava problemas quase tão graves como aqueles que aqui existem e lá também havia poluição no ar e nas águas dos rios e das áreas marítimas próximas dos centros urbanos. O desmatamento havia destruído muitas das florestas originais e quase todas as matas ciliares dos rios que banhavam as áreas urbanas ou de cultivo. Apesar do grande nível de agressão ao meio ambiente, a camada de ozônio estava intacta, pois os países tinham um maior nível de consciência ambiental e também estavam sujeitos a severas sansões da ONU arretiana, muito mais poderosa e respeitada que a sua similar terrestre.

Raças e preconceitos

Havia quatro raças bem definidas e uma quinta composta por cruzamentos delas. A mais representativa tinha a pele morena clara, cabelos escuros e olhos predominantemente castanhos. Era seguida por uma raça de pele bem clara, com cabelos quase sempre loiros ou ruivos e olhos verdes ou azuis. O terceiro lugar era ocupado por uma raça amarela e alta, como os nossos chineses. A quarta apresentava um tipo de pele semelhante à dos mulatos brasileiros, com cabelos encaracolados ou crespos e olhos escuros. Os mestiços eram mais parecidos com os atuais habitantes do planeta. Em Arret nunca existiu escravidão como aqui conhecemos e o chamado trabalho forçado estava restrito a prisioneiros de guerra ou a delinqüentes abrigados em colônias agrícolas.  Os membros das duas primeiras raças conviviam em harmonia e sem preconceitos entre si, pois freqüentavam os mesmos locais de lazer e se casavam livremente. Quase toda a riqueza e poder econômico estavam concentrados nas mãos dessas duas raças, as quais controlavam os grandes negócios e atividades do planeta.

Seus membros desprezavam os componentes das raças amarela e mulata que, por sua vez, demonstravam preconceitos raciais entre si. Os mestiços eram aceitos pelas demais raças e não eram preconceituosos. Seus membros eram espalhados por quase todos os países e formavam um povo bonito, alegre e festivo, sem apego a radicalismos religiosos e sociais. Ao contrário do padrão terrestre, as cinco raças arretianas não viviam isoladas ou mais concentradas em alguns países ou regiões do planeta. Apesar de haver maior nível de concentração em bairros, cidades e até em alguns países, lá era possível encontrar grupos representativos de todas elas em quase todos os locais, pois Arret era mais globalizado que a atualidade terrestre.

Formas de governo

Nos seis continentes equatoriais, em uma pequena parte do continente polar norte e em inúmeras ilhas de grande porte, havia uns 450 países e territórios independentes. Cerca de 250 deles adotavam um regime democrático com eleições em todos os níveis executivos e legislativos. Uma parte dos países democráticos adotava um regime semelhante ao nosso parlamentarismo, com um primeiro ministro e sem a figura do presidente da república. Mais de uma centena de países eram monarquias parlamentaristas compostas por um rei e por um primeiro ministro. Os demais tinham governos totalitários, controlados por um ditador ou por uma junta militar.

Com pequenas variações, os países tinham um governo federativo, governos estaduais ou provinciais e, nos maiores, governos municipais. O direito ao voto não era obrigatório, era conquistado aos 21 anos e somente por pessoas com certo grau de instrução, ou nível de renda, ou por aqueles que pertenciam à classe empresarial. Quase todos os países democráticos tinham eleições majoritárias e legislativas semelhantes ao padrão terrestre e com apenas um turno, onde os mais votados eram os eleitos. As monarquias e governos totalitários indicavam os demais níveis do executivo e nesses países havia apenas eleições legislativas ou para o primeiro ministro.

Relações internacionais

Havia um certo padrão nas relações entre os países em função da força que representava a ONU arretiana, criada cerca de 150 anos antes da grande transição e formada por representantes de todas os países e territórios independentes. Ela atuava como um poder legislativo e judiciário a nível global, pois sua amplitude operacional abarcava os mais variados setores da sociedade planetária. Suas propostas eram aprovadas ou rejeitadas em assembléia e cada membro tinha um voto de valor variável, definido através de uma fórmula que levava em conta a população, o nível de atividades econômicas e vários indicadores sociais. Se algum país não seguisse suas recomendações, ficava sujeito a vários tipos de sansões econômicas, incluindo o bloqueio do acesso aos satélites de comunicação geridos por aquele poderoso organismo. 

Apesar desse rigor, ela agia com neutralidade e não interferia nos princípios de soberania de seus membros, inclusive nos casos das freqüentes guerras entre eles, quando procurava evitar ou abreviar os conflitos por meios diplomáticos, sem aplicar sansões diretas, a menos que a contenda prejudicasse outros países não envolvidos. Apesar dos arretianos nunca terem se envolvido em guerras do tipo mundial e nunca terem produzido armas de destruição em massa ou bombas de alto poder destrutivo, eles eram um povo altamente belicoso e sempre havia países em guerra pelos mais diversos motivos. Além de expansão territorial e econômica, o maior provocador de conflitos eram as questões religiosas, semelhantes àquelas que ocorrem em alguns países da Terra.

As guerras, apesar de sempre existirem em todos os continentes arretianos, ocorriam com maior freqüência em dois deles, um dos quais era o campeão em número de conflitos. A maioria dos países que formavam esses continentes era governada por dinastias reais, ditadores, ou juntas militares e seus habitantes apresentavam um alto grau de fanatismo religioso. Apesar das guerras entre muitos deles, as relações entre a maioria dos países eram intensas ao nível de comércio exterior, intercâmbio de tecnologias e exploração espacial, pois em quatro continentes havia um mercado comum muito ativo, iniciado na quinta década anterior à grande transição.

Justiça e controle social

Como em vários outros setores, a ONU arretiana também disciplinava a estrutura e a forma básica de atuação do poder judiciário de todos os países. Aqueles que integravam o grande mercado comum tinham uma estrutura padronizada, simplificada, ágil e especializada em várias linhas de atuação, como a institucional, a criminal, a civil e a comercial. Cada nível de governo estava associado a um poder judiciário que julgava com base em leis ou códigos gerais definidos pela ONU arretiana, ou códigos setoriais e penais com forte enfoque religioso. Como regra geral, havia em cada foro ou vara, um ou mais juizes presidentes e diversos promotores de justiça que tanto funcionavam na defesa como na acusação.

Cada uma das varas municipais contava com um juiz, dois promotores de defesa e dois de acusação, aos quais cabia conhecer os processos e buscar acordo entre as partes, ou instruí-los e encaminhá-los para julgamento pelo juiz presidente. Nos mesmos moldes das municipais, as estaduais contavam com três juízes e seis promotores de cada lado, sendo que as federais eram constituídas por sete juízes e quatorze promotores. Apesar de lá existir em menor quantidade que nas cortes terrestres, não havia obrigatoriedade de advogados e qualquer cidadão podia dar entrada, acusar ou se defender em qualquer tipo de processo, além de assumir esses papeis como assistente das respectivas promotorias. Tanto os juízes como os promotores eram eleitos e sujeitos à reeleição periódica. Eles só podiam se candidatar para ocupar uma corte superior depois de algumas reeleições consecutivas ou alternadas nas cortes inferiores.

Qualquer ato de corrupção era encarado como um crime gravíssimo e punido exemplarmente, muitas vezes, com a com pena de morte e sempre com ampla divulgação pelos meios de comunicação. Quando a corrupção ocorria na esfera judiciária, pela natureza do poder que representava, era considerada a mais grave de todas. Com isso e, pela sua própria estrutura administrativa e operacional, o poder judiciário era imparcial, rápido, justo e muito respeitado. De maneira geral, os julgamentos que envolviam crimes contra o patrimônio público ou contra pessoas eram realizados pelas cortes municipais e suas decisões eram irrecorríveis, especialmente quando atingiam a integridade física da vítima. 

Quase todas as transgressões eram encaradas como um “pecado grave” e punidas com grande severidade. Os infratores eram condenados sumariamente e punidos imediatamente ao término do julgamento. Em muitos casos as sentenças não envolviam confinamento dos condenados, pois quem matava morria, quem roubava tinha dedos ou a mão cortada e quem estuprava era castrado, dentre outras penalidades semelhantes. As esferas superiores julgavam delitos praticados pela respectiva esfera executiva, legislativa ou judiciária e aqueles praticados pela população contra o poder público. Os julgamentos de recursos contra decisões das cortes inferiores eram raros e somente quando previstos na constituição ou leis específicas de cada país. Pelo fato da maioria dos países serem belicosos e estarem sempre preparados ou envolvidos em guerras, as atribuições das polícias militar, civil e federal eram exercidas pelas forças armadas terrestres.

Economia e distribuição de riquezas

A economia arretiana da época funcionava em moldes semelhantes ao da atualidade terrestre. Lá havia bolsas de valores, bancos, corretoras e outros organismos financeiros que aqui conhecemos. Ao nível de globalização e integração entre os povos, Arret estava mais avançado que a Terra, pois esse processo foi iniciado nos cinqüenta anos anteriores à grande transição. Naquela ocasião foi criado o primeiro mercado comum em um dos maiores continentes equatoriais, envolvendo mais de 80 países. Nos trinta anos seguintes, o processo expandiu-se para outros três continentes, abrangendo mais de três centenas de países que utilizavam uma moeda única e muito forte, a qual servia de parâmetro para valorização dos ativos financeiros dos demais países. Para contornar os problemas de comunicação gerados pelas barreiras idiomáticas, o comitê gestor do primeiro mercado comum adotou como língua de negócios e de turismo, um idioma genérico semelhante ao nosso Esperanto, pois não era uma língua oficial em nenhum país. O novo idioma, aliado à Internet arretiana, desenvolveu os negócios, incrementou o turismo, estreitou as comunicações entre eles e reduziu os conflitos e as guerras que eram mais freqüentes nas décadas anteriores.

Apesar de mais homogênea nos países componente do grande mercado comum, a população estava dividida entre pobres, remediados e ricos, sem apresentar os grandes contrastes existentes na Terra. Assim como lá não havia detentores de grandes fortunas, não havia pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, pois os povos mais humildes que habitavam os países menos desenvolvidos tinham acesso a uma alimentação saudável e, na maioria dos casos, a uma habitação digna e confortável. Em Arret não havia favelas, casas insalubres, moradores de rua e mendigos, pois essas situações degradantes eram fiscalizadas pela ONU Arretiana e consideradas como um pecado grave que colocava as classes mais favorecidas e os governantes em situação desfavorável perante a população e a Lei Divina.

Em mais da metade dos países, o horário de trabalho diário girava em torno de oito horas, com um a dois dias de descanso semanal e 21 a 28 dias de férias anuais remuneradas. Nos países mais pobres e geridos por ditaduras militares, havia grandes variações em termos de jornadas de trabalho e concessão de férias. Neles, a jornada diária situava-se em torno de 10 horas com descanso semanal de um dia. As férias anuais eram menores e podiam ser ou não remuneradas. Quase todos os países adotavam um salário mínimo padronizado pela ONU arretiana em função do PIB e de vários indicadores sociais de cada país, o qual era a principal causa de não haver pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Dentro de um mesmo país, os trabalhadores de diferentes níveis de especialização não apresentavam uma variação salarial tão grande entre o piso e teto, como aquela que existe em muitos locais da Terra. O número de desempregados era baixo e lá não havia a chamada economia informal, pois além de ser severamente combatida pelo poder público e pela sociedade, os impostos e taxas eram suportáveis e também padronizados pela ONU arretiana. Como a expectativa média de vida era superior a 70 anos, a aposentadoria só era possível após 40 anos de trabalho no caso dos homens e 30 anos no caso das mulheres casadas e com filhos. As demais seguiam o mesmo padrão masculino.

Agricultura

Como toda a população era vegetariana, a agricultura ocupava uma porção significativa do solo e era bem distribuída por todo o planeta. Havia uma grande quantidade de pequenas propriedades familiares que praticavam uma agricultura orgânica bastante diversificada e voltada para a produção de verduras, legumes e frutas. Também criavam peixes que faziam parte da dieta alimentar de uma parcela significativa da população. Havia grandes propriedades voltadas para a monocultura de alguns tipos de cereais, onde utilizavam máquinas sofisticadas e projetadas para os mais variados tipos de serviços.

Os agricultores formavam uma classe com bom nível de renda e muito respeitada pelos habitantes das zonas urbanas, que não os viam com “matutos ou caipiras”. Eles tinham um modo de vida bastante confortável, pois dispunham de muitas das facilidades encontradas nas cidades, como a energia elétrica, a telefonia e a televisão. A eletrificação rural era quase toda oriunda da energia solar, cujo uso era bastante difundido em todo o planeta, inclusive nas zonas urbanas. O associativismo era uma realidade em quase todos os países e os agricultores, especialmente os familiares, se reuniam em grandes cooperativas que desempenhavam diversas funções e forneciam apoio técnico em todas as fases do processo produtivo, além de recolher, armazenar e comercializar a produção e distribuir os lucros aos seus associados. Essas cooperativas também mantinham escolas, postos de saúde, clubes recreativos, colônias de férias e outras atividades em conjunto com os poderes públicos.

Indústria

Todos os países contavam com parques industriais significativos, diferenciados pelo menor ou maior desenvolvimento tecnológico de seus equipamentos e produtos. Como regra geral, os países eram auto-suficientes quanto as suas necessidades básicas e isso ocorria em função das constantes guerras que envolviam muitos deles, durante as quais não podiam depender de suprimento externo. Os países mais desenvolvidos tinham indústrias altamente robotizadas e produziam todos os tipos de bens, especialmente os de alta tecnologia, como os eletrônicos, aviões e outros. Nos mais pobres, suas indústrias se limitavam à produção dos bens de consumo básico, máquinas e ferramentas utilizadas pela suas respectivas populações.

Ao contrário daquilo que acontece na Terra, a produção industrial primava pela qualidade e durabilidade dos bens produzidos. Os produtos descartáveis ou de baixa duração, limitavam-se àqueles que tinham esse tipo de vocação, como barbeadores, copos descartáveis e escovas dentais. Em função do grande mercado comum que vigorava em quatro dos seis continentes, a produção industrial seguia padrões rígidos de qualidade e a competitividade era baseada na versatilidade, utilidade e durabilidade de cada produto, onde o preço era objeto de uma criteriosa análise de custo e benefício por parte dos consumidores. A sociedade arretiana não era dada a modismos, mesmo com relação a roupas e aparelhos eletrônicos. Os novos modelos eram lançados somente quando apresentavam aperfeiçoamentos significativos ou uma utilidade real que atendesse uma nova necessidade daquela exigente e conservadora sociedade de consumo. Era comum um modelo de veículo permanecer inalterado durante anos ou décadas, a exemplo daquilo que presenciamos com relação a alguns veículos produzidos em nosso país nas décadas passadas.

Saúde e Assistência Social

Obedecendo às recomendações da ONU arretiana, a grande maioria dos países mantinha um sistema de saúde gratuito para atender os empresários e empregados formais, seus dependentes e aposentados. O nível de serviços oferecidos incluía a assistência dentária, atendia às expectativas da população e atuava mais em caráter preventivo, pois o principal objetivo do sistema de saúde era manter a população saudável e em boas condições para estudar, trabalhar e produzir. Também havia hospitais particulares e convênios voltados para uma pequena parcela da população de maior poder aquisitivo. Em todas as cidades e, principalmente, nas zonas rurais, havia equipes móveis de profissionais de saúde que visitavam e examinavam as famílias procurando detectar doenças em estágios iniciais e facilmente curáveis. Esse mesmo procedimento era adotado nas escolas e nas empresas, abrangendo quase toda a população. Quando não resolviam os problemas no local, marcavam consultas ou encaminhavam os doentes aos centros médicos da rede pública.

Em todos os países havia um profundo respeito pelos idosos que cumpriram com suas obrigações sociais durante o período produtivo de suas vidas, incluindo as mulheres que não trabalharam em empresas e se dedicaram à missão de mãe e esposa. Em todos os países que mantinham um sistema de saúde gratuito, aqueles que atendiam a esses requisitos eram amparados com assistência médica, cirurgia e remédios. Também recebiam um valor mensal que permitia viverem com dignidade até o final de suas vidas. Cerca de 70 por cento dessa renda era repassada à viúva quando ela não tinha rendimentos próprios. Os valores das aposentadorias apresentavam variações sensíveis entre os países mais ou menos desenvolvidos e obedeciam a um padrão mínimo definido pela ONU arretiana.

Educação e cultura

A ONU arretiana também estabelecia um padrão educacional mínimo e todos os países mantinham um sistema com cursos gratuitos até o equivalente à nossa oitava série, quando os alunos dominavam a língua pátria, a matemática e outras matérias básicas, além de uma forte noção de direitos, deveres e cidadania. Os professores eram bem preparados, exigentes e respeitados pelos alunos, pelos pais e pela sociedade em geral. Quase todos os países ofereciam uma educação básica de qualidade e o nível de analfabetismo era insignificante em todo o planeta. Muitos países estendiam o ensino gratuito ao nível seguinte e ofereciam vários cursos profissionalizantes de nível médio. Alguns mantinham a gratuidade nos cursos de graduação e para acesso a eles não havia vestibulares, pois os alunos eram selecionados a partir de notas médias obtidas nos cursos públicos inferiores. Como as vagas não eram suficientes para todos, somente os mais esforçados e bem preparados podiam estudar em universidades públicas.

Porém, em todos os países havia escolas básicas, de nível médio e universidades particulares voltadas para as classes mais abastadas, as quais também eram freqüentadas por alunos das classes sociais inferiores que recorriam a financiamentos governamentais, renovados a cada ano, desde que os alunos fossem aprovados. Os pagamentos eram exigidos a partir do segundo ano após o término do curso de graduação, em parcelas mensais e com descontos proporcionais à média das notas obtidas. Em todas as escolas havia avaliações periódicas e ao final de cada ano letivo. Os certificados de conclusão especificavam as notas obtidas em cada matéria e as médias gerais para acesso aos níveis superiores e para obtenção de descontos, no caso de financiamento governamental. As notas e as médias também eram consideradas para acesso ao mercado de trabalho e esse costume obrigava os alunos a serem aplicados, disciplinados e altamente competitivos.

Quase toda a população tinha um leque variado de atividades culturais que se confundiam com as de lazer, descritas mais abaixo. A música era uma das principais paixões dos arretianos de todas as classes sociais e apresentava gêneros semelhantes àqueles que existiam na Terra nos idos de 1960. Porém, em todos os países havia uma predileção por músicas de três tipos básicos: clássico, romântico e regional. Os arretianos também apreciavam a dança em grandes salões onde predominavam as canções românticas ao estilo das grandes orquestras dos anos 50 a 70 do nosso século passado. As televisões apresentavam noticias, filmes e muitos programas musicais e de variedades. O cinema era muito ativo em variados gêneros, predominando as produções referentes a feitos bélicos daquela época ou do passado arretiano, além de filmes religiosos. O teatro, com peças cômicas, românticas, dramáticas, musicais ou religiosas, era bastante elitizado e voltado para as camadas mais abastadas.

Transportes

A maioria das cidades arretianas tinha três ou mais séculos de idade e ruas estreitas nas áreas centrais que dificultavam e até impediam o tráfego de veículos particulares, os quais, geralmente, eram impedidos de circular nessas áreas. Naquelas onde o tráfego era liberado, esses veículos pagavam pedágios caros e acessíveis apenas às classes mais abastadas. Nas cidades mais novas e, principalmente naquelas construídas segundo o padrão definido pela ONU arretiana nos 100 anos anteriores à grande transição, havia total liberdade de circulação, com prioridade para os veículos coletivos da eficiente rede de transportes públicos. Em muitas cidades antigas de médio ou grande porte e em quase todas as novas, havia uma rede de trens subterrâneos e aéreos de grande velocidade e totalmente integrados aos demais veículos de transporte coletivo.

A maior parte dos carros particulares era de pequeno porte, acomodavam de dois a cinco passageiros e eram movidos por motores elétricos acionados por eficientes baterias, cuja autonomia média era superior a 100 quilômetros. Elas eram recarregadas, tanto pela energia elétrica convencional, como por sofisticadas e eficientes células fotovoltaicas que formavam uma boa parte da carenagem desses veículos. Muitos deles tinham três rodas e acomodações para dois a três passageiros, substituindo as nossas motocicletas que lá não existiam. De maneira geral, a frota de veículos particulares era proporcionalmente menor que a terrestre e concentrada nos países desenvolvidos ou emergentes. Porém, todas as famílias tinham um ou mais triciclos com um a quatro assentos e respectivos pedais, pois os arretianos não utilizavam bicicletas de duas rodas.

Os veículos particulares e outros de maior porte, incluindo as máquinas agrícolas, tinham motores a explosão e utilizavam diversos tipos de combustíveis provenientes de óleos fósseis ou vegetais, além de alguns tipos de gases, incluindo o hidrogênio, o qual era direcionado, prioritariamente, ao transporte de cargas e de passageiros. Quanto ao transporte aéreo, contavam com uma grande frota de aviões de diversos tamanhos, com formato tubular ou elíptico. Havia pequenos aviões com hélices acionadas por motores a explosão e outros movidos a jato. Os maiores utilizavam propulsores a jato e muitos atingiam velocidades superiores à do som. Esses supersônicos guardavam alguma semelhança com o “Concord” e o ônibus espacial americano. Como fruto das atividades espaciais que atingiram grande desenvolvimento nos anos anteriores à grande transição, alguns países estavam testando protótipos de aviões sem asas que se sustentavam e se deslocavam através de um novo princípio, semelhante àquele utilizado pelas naves arretianas da atualidade. 

Para realizar viagens turísticas a pequenas localidades ou a áreas florestais, os arretianos também utilizavam helicópteros de diversos portes oferecidos por várias locadoras, pois a habilitação para pilotar pequenos aviões e helicópteros era tão comum em Arret, como a habilitação de motociclista na Terra. Como muitos motoristas também pilotavam pequenas aeronaves, havia muitas companhias que alugavam esses aparelhos, com as mesmas facilidades que aqui alugamos carros. Os transportes marítimos intercontinentais eram voltados para cargas, limitando o transporte de passageiros ao turismo costeiro, realizado por navios de vários portes. Quase todos os arretianos das classes mais abastadas possuíam lanchas ou iates em alguma das inúmeras marinas existentes em todas as localidades turísticas marítimas ou fluviais. Como acontecia com os carros e aviões, nesses locais havia locadoras que ofereciam lanchas e outros equipamentos para a prática de esportes aquáticos, os quais eram uma paixão entre os arretianos de todas as classes sociais.

Comunicações

A rede de comunicações era suportada por satélites interligados que cobriam todo o planeta e era operada, administrada, mantida e aprimorada pela ONU arretiana desde os cinqüenta anos anteriores à grande transição. As tarifas eram calculadas para cobrir os custos com uma pequena margem de lucro, pois a exploração desses serviços era a principal fonte de recursos para manter a estrutura operacional daquele poderoso organismo e seus inúmeros programas sociais a nível planetário. Em cada país foi criada uma empresa estatal ou privada para operar uma concessão que incluía a transmissão de voz, dados e imagens. No decorrer dos vinte anos seguintes, todos os países abandonaram a telefonia fixa que existia no planeta há quase dois séculos e implantaram um sistema móvel sem restrições de áreas, regiões ou países.

Com isso todos os arretianos passaram a ter acesso a um serviço telefônico abrangente, de boa qualidade e a baixo custo, pois era acessível aos usuários de todas as classes sociais. Os serviços eram pré-pagos através de cartões com tarja magnética, os quais eram vendidos em todos os estabelecimentos comerciais e podiam ser inseridos em qualquer telefone. Com essas facilidades e o baixo custo dos serviços, quase todos os habitantes tinham um telefone móvel desde a infância e seu número era mantido por toda a sua vida, como uma espécie de identidade pessoal.

Mais de um terço das famílias do planeta e todas as empresas também dispunham das mesmas facilidades para comunicação entre seus computadores através de uma rede semelhante à nossa Internet, implantada e utilizada de maneira crescente desde os 45 anos anteriores à grande transição. A ONU arretiana era o provedor principal e em cada país havia um provedor secundário que era a mesma empresa estatal ou privada que detinha a concessão de telefonia. A ligação do computador ao provedor era realizada com a mesma tecnologia da telefonia móvel. Apesar de resolver uma grande variedade problemas sem sair de casa ou do local de trabalho, a Internet arretiana não era tão abrangente e aberta como a nossa. Nela não havia “sites” de pornografia ou de assuntos banais e nem vírus que danificavam programas de computadores.

O rádio foi implantado no planeta com a telefonia fixa e havia uma grande quantidade de emissoras presentes em quase todas as pequenas cidades do planeta. Como na Terra, o rádio sempre teve grande aceitação junto aos arretianos, mesmo após o surgimento da televisão e da rede de computadores. A televisão funcionava somente com canais por assinatura e, além daqueles com programação variada, havia canais especializados em notícias de interesse geral, esportes, documentários, filmes, programas religiosos e atividades governamentais. Em cada país, a ONU arretiana fornecia concessões para funcionamento de até três canais com o mesmo tipo de programação, segundo critérios por ela definidos. Quase todos os arretianos tinham um ou mais aparelhos de televisão e as taxas de assinatura eram bastante acessíveis, pois havia pacotes para atender todas as faixas de renda, inclusive, para acesso a canais de outros países.

Além da rede de computadores, do rádio e da televisão, em cada país havia uma quantidade maior ou menor de jornais, revistas e periódicos adquiridos por assinatura, ou em livrarias e estabelecimentos comerciais. Somente as grandes cidades dispunham de jornais diários e tanto eles, como as revistas e periódicos, podiam ser acessados pela Internet arretiana. Lá não havia bancas de jornal como aqui conhecemos e sim muitas livrarias que vendiam uma infinidade de livros sobre os mais variados assuntos, predominando os religiosos. Todos os livros também podiam ser adquiridos em versão eletrônica através da rede de computadores e podiam ser lidos em computadores convencionais ou em equipamentos portáteis que simulavam um livro, armazenavam dezenas ou centenas deles e permitiam diversas interações com o texto.  

Tecnologia

A nível geral, a tecnologia arretiana era bem superior à terrestre do final do século vinte e somente com relação a alguns produtos eletrônicos populares havia alguma semelhança com os seus similares terrestres de alta tecnologia e ainda pouco acessíveis ao grande público. Na informática, produziam sofisticados computadores de grande porte e pessoais, extremamente compactos, possantes e de baixo custo, pois já dominavam uma tecnologia com alto índice de miniaturalização que, entre nós, ainda encontra-se em estágio inicial de pesquisa e é conhecida como nanotecnologia. Ao nível de software aplicativo, havia uma infinidade de programas educacionais e outros que controlavam, executavam ou auxiliavam na execução das mais variadas atividades. Os programas educacionais abrangiam todos os ramos do conhecimento e, além de excelentes recursos gráficos, utilizavam avançados conceitos de inteligência artificial, eram bastante amigáveis, obedeciam a comandos de voz e dispensavam, em muitos casos, o uso de outros dispositivos de entrada de dados.

A tecnologia estava presente em outros ramos da ciência e era bastante utilizada na medicina. Além de sofisticados aparelhos de análise e diagnóstico, realizavam implantes de alguns órgãos mecânicos de alta eficiência, como era o caso do coração. Também dominavam o código genético contido no DNA humano e preparavam medicamentos e vacinas, de uso genérico ou personalizado para combater as mais diferentes enfermidades, pois lá não havia nenhuma doença incurável. Apesar dos arretianos não praticarem a clonagem humana, em função das fortes pressões religiosas, eles produziam clones de vários animais e tinham completo domínio da genética vegetal. Nesse ramo da ciência, combinavam espécies, criavam novas variedades mais resistentes e aumentavam ou diminuíam seus teores de vitaminas, proteínas e outros princípios ativos. Nessa mesma linha, produziam uma grande variedade de sementes geneticamente modificadas.

Na área espacial dominavam uma tecnologia de propulsão, sustentação e deslocamento que não utilizava foguetes e guardava alguma semelhança com aquela utilizada pelas naves arretianas da atualidade. Essa tecnologia permitia longas viagens e com isso, já haviam enviado missões tripuladas a dois planetas vizinhos. Também realizavam vôos regulares às suas três luas, onde mantinham bases de estudo e pesquisa, especialmente na maior, que dispunha de atmosfera respirável, vida animal e vegetal. Os arretianos já haviam detectado a existência de vida inteligente em dois planetas do seu sistema estelar e estavam se preparando para enviar missões tripuladas quando sobreveio a grande transição.

Urbanismo e habitações

Cerca de sessenta por cento da população vivia em áreas urbanas e poucas cidades tinham mais de 500 mil habitantes. A grande maioria abrigava uma população inferior a 50 mil. Dentre as maiores, algumas ultrapassavam a casa dos cinco milhões e a maioria delas tinha uma população situada entre um e três milhões de habitantes. Todas as cidades implantadas ou ampliadas nos 100 anos anteriores à grande transição obedeceram a um novo padrão urbano definido pela ONU arretiana e apresentavam baixo nível de adensamento populacional. Seus habitantes residiam em casas térreas ou assobradadas de madeira, construídas em terrenos fartamente arborizados, com um mínimo de vinte metros de frente e cinqüenta de fundo. Dez desses terrenos formavam uma quadra e elas eram divididas por alamedas com muitas árvores e flores. Um conjunto variável de quadras residenciais, comerciais e de serviços formava um bairro e estes, uma área de expansão urbana ou uma nova cidade.

Mesmo sem os variados contrastes que observamos em nosso planeta, Arret também apresentava vários modelos urbanos. Havia uma grande quantidade de cidades planejadas e construídas segundo o padrão definido pela ONU arretiana, o qual lembrava o plano piloto de Brasília. Esse padrão era utilizado para criar novas cidades ou para expandir as já existentes. Por outro lado havia cidades e povoados antigos que apresentavam ruas estreitas e edificações de todos os tipos, tamanhos e formatos. Nas áreas centrais das médias e grandes cidades havia muitos prédios suportados por colunas metálicas e paredes que utilizavam materiais leves e a madeira, tanto ao natural, como em placas industrializadas. Eles eram destinados a atividades comerciais ou de serviços e apresentavam diversos tamanhos, formatos e alturas. Em Arret não havia favelas e quase toda a população urbana residia em casas próprias. O percentual de desabrigados e daqueles que moravam em condições precárias era insignificante e somente sensível em algumas regiões interioranas dos países mais pobres. Toda a população rural morava em casas próprias ou naquelas oferecidas pelos proprietários das terras aos seus trabalhadores.

Família, alimentação e vestuário

A família era uma instituição muito importante, unida e respeitada em todos os países. Especialmente nas pequenas cidades e em todo o meio rural, a organização familiar seguia um modelo comunitário e era muito comum encontrar em uma mesma casa, duas ou três gerações da mesma família. Quando um filho do patriarca se casava, construíam um novo quarto para abrigar o casal e, posteriormente, outro ou outros, para abrigar seus filhos durante vários anos. Durante esse período, todos continuavam trabalhando na atividade familiar e, quando trabalhavam em outra, colocavam seus rendimentos à disposição do patriarca. Quando o patriarca julgava apropriado, ajudava o filho a adquirir uma casa nas proximidades e raramente ele se transferia para outra cidade antes da morte de seus pais. Geralmente, o primeiro a deixar a casa paterna era o filho mais velho e assim sucessivamente.

O casamento era um compromisso para toda a vida e era precedido por um período de namoro e de noivado mais curto ou mais longo, conforme os pais do futuro casal assim o decidissem, pois a grande maioria das uniões conjugais era realizada por iniciativa dos pais e, em muitos casos, desde o nascimento dos filhos. Os casamentos ocorriam entre os 18 e 25 anos, no caso dos homens, e entre 16 e 23, no das mulheres. O homem era o responsável pelo sustento da família e a mulher pela gestão doméstica e educação dos filhos, pois a maternidade era a sua principal obrigação. A impossibilidade de ser mãe era um dos poucos motivos para separações conjugais e, com o avanço da medicina nas décadas anteriores à grande transição, a mulher passou a ter o mesmo direito se o marido apresentasse problemas de infertilidade. Essas pessoas dificilmente se casavam novamente, a não ser com outra que tivesse o mesmo tipo de problema. Fora essas situações, eram poucos os casos de celibato e, mesmo nos dias anteriores à grande transição, as mulheres se casavam virgens e, em muitos países, os homens também seguiam esse costume.

O sexo era praticado nos mesmos moldes dos casais terrestres e era visto como uma coisa sagrada pela sociedade e pelas religiões. As relações extraconjugais constituíam uma exceção, pois o adultério era considerado um “pecado grave” e punido com o desprezo da sociedade, tanto no caso dos homens, como das mulheres, além de ser o outro motivo de separações. As exceções estavam localizadas nas esferas sociais mais altas e eram mais de iniciativa dos homens com mulheres solteiras ou separadas que tinham problemas de concepção, pois em Arret não havia prostituição. A maternidade solteira também era incomum e limitada às classes mais abastadas, pois a sociedade arretiana entendia que uma criança somente se tornaria um adulto responsável e preparado para a vida, se fosse criada dentro de uma família constituída e estável. Por isso, as crianças eram alvo de grandes cuidados e carinhos por parte da sociedade e dos governos, desde sua gestação até a juventude. Até a maioridade, elas recebiam uma educação doméstica e escolar bastante rígida e com forte enfoque disciplinar e religioso voltado para o respeito aos mais velhos, à família e à sociedade. Por essas razões, as crianças e os jovens praticavam diversões sadias, como esportes, danças e passeios, sem envolvimento com vícios, drogas ou sexo.

Desde uns 200 anos antes da grande transição, mais da metade da população era vegetariana e a outra parte acrescentava carnes de peixes à sua dieta. Esse sistema alimentar consolidou-se gradativamente naquela época, em razão das várias doenças que acometeram os animais, as aves e os próprios arretianos que viveram nas décadas anteriores. Naquele período, os rebanhos de animais e aves de corte foram extintos e suas carnes deixaram de fazer parte da deita alimentar dos povos de todos os países. As áreas de pastagens e de criação de animais e aves transformaram-se em glebas destinadas ao cultivo de cereais, frutas e legumes que, juntamente com as antigas áreas, passaram a produzir uma grande quantidade e variedade de produtos.

O vestuário, apesar de variado, estava longe de atingir o exagero existente em muitos países da Terra, com suas modas, modismos, costureiros e grifes. A maioria dos países utilizava um certo padrão de vestuário, constituído por trajes de dormir, de passeio e de trabalho, todos confeccionados com tecidos mais finos ou mais grossos, conforme o clima vigente em cada local. Os trajes de passeio apresentavam maior variedade, predominando os vestidos acima da canela para as mulheres e as calças com camisas ou camisetas para homens, também utilizadas pelas mulheres de alguns países. O traje de trabalho masculino mais utilizado era constituído por uma calça e uma camisa larga do tipo “safari”, cobrindo a calça até o meio da coxa, com uma camisa ou camiseta por baixo. Ninguém utilizava paletós, gravatas ou coisa parecida. Os trajes de trabalho feminino preferidos eram um vestido acima do tornozelo ou uma saia com jaqueta tipo “blazer”, com uma camisa ou camiseta por baixo. De maneira geral o vestuário, tanto masculino como feminino, era discreto em termos de modelos, apesar de apresentar uma grande variedade de cores, estampas e padrões de tecidos, especialmente no caso dos trajes femininos.

Esportes e lazer

Em função do menor grau de desigualdades sociais entre os diversos povos, havia um razoável leque de atividades de lazer à disposição de uma significativa parcela da população. Essas atividades estavam relacionadas com as práticas esportivas, a televisão, o cinema, o teatro, a música, as danças folclóricas e de salão, além de passeios e viagens turísticas de fins-de-semana ou de férias. Porém, como também acontece em nosso planeta, somente as classes mais abastadas tinham acesso a pacotes, equipamentos e tipos diferenciados de entretenimentos. Esse seleto grupo freqüentava os melhores hotéis e centros de lazer do planeta, além de ter acesso a espetáculos culturais e esportivos somente ao alcance das elites. Tirando essa pequena parcela de privilegiados, a maior parte da população tinha várias opções de lazer, tanto culturais, como esportivas. O restante tinha um leque de opções restritas à televisão, cinemas, espetáculos musicais populares, esportes de massa e balneários públicos.

Apesar dos arretianos daquela época terem mais opções de lazer que a humanidade terrestre, havia um maior nível de racismo e de elitismo das estruturas turísticas de quase todos os países. Havia uma nítida separação entre as duas raças dominantes e as demais. Além desse problema racial, em muitos países também havia separações entre os seguidores das principais correntes religiosas, parecendo torcidas organizadas que não se juntavam em um mesmo local. Outro fator que restringia as atividades de lazer era motivado pela política de férias e de descanso semanal adotada em vários países.

De maneira geral, as opções de lazer não se afastavam muito do atual padrão terrestre, apesar de sua maior socialização. Havia grandes e luxuosas estruturas nos mais diversos pontos do planeta, incluindo algumas localizadas na lua que tinha atmosfera respirável. Havia praias e balneários marítimos e fluviais em quase todos os países, além de uma grande rede de teatros, cinemas, salões de bailes, restaurantes, museus e locais específicos para as mais variadas práticas esportivas. Muitos dos esportes de massa da época eram semelhantes aos nossos e igualmente competitivos. Alguns eram muito violentos e guardavam alguma semelhança com as nossas lutas marciais e antigos combates de gladiadores, ou entre cavaleiros medievais. Na maioria das modalidades esportivas, os atletas e suas torcidas apresentavam um elevado grau de fanatismo e de animosidade com relação aos seus adversários. Apesar da grande variedade, os esportes com maior número de adeptos eram os aquáticos, predominando a natação e o mergulho praticado por todas as classes sociais.

Religião

Com raras exceções localizadas em poucos países, a religião era praticada com alto grau de fanatismo e muita intransigência, tanto entre as diversas correntes religiosas, como com relação a falhas de comportamento dos seus membros. Os cultos e cerimônias religiosas eram realizados em edificações próprias, geralmente grandes e luxuosas, com uma arquitetura mais ou menos padronizada e correspondente a cada uma das cinco corrente religiosas principais e suas vertentes mais significativas. Quase todos os dirigentes e membros das diversas correntes tinham uma visão diferenciada da Lei Divina, de Deus, dos seus Messias planetários e de seus vários mensageiros.

Muitos países também utilizavam textos de seus livros sagrados como lei civil e penal, os quais definiam os diversos tipos delitos, ou de “pecados”. Muitos deles eram considerados como transgressões graves e, além de “serem cobrados após a morte”, também eram pagos em vida com o desprezo da sociedade e outros inconvenientes mais graves, como a mutilação de órgãos e a pena de morte. Com poucas exceções, os arretianos apresentavam um alto grau de animosidade e uma grande dureza de coração com relação àqueles que não praticavam o seu credo religioso. Esses povos apresentavam um comportamento semelhante àquele que envolve os judeus e os palestinos sem, contudo, envolver o nível de atentados e de violência que esses povos praticam.

Em Arret havia cinco grandes correntes religiosas com inúmeras ramificações e, em sua maioria, elas eram antagônicas e concorrentes entre si. Uma delas era semelhante ao nosso Cristianismo, pois havia sido criada após a última aparição de Ahelohim, o Messias planetário, como o nosso Jesus. Apesar de seguir o mesmo livro sagrado, essa corrente apresentava duas vertentes básicas, uma com poucas subdivisões e outra com uma infinidade de denominações, semelhante aos nossos Evangélicos. Nos cinqüenta anos anteriores à grande transição, essa vertente apresentou um grande crescimento, tanto ao nível de adeptos, como de denominações e de templos. Esse processo sofreu uma grande aceleração em função do novo sistema de comunicações implantado pela ONU arretiana, quando quase todos os habitantes passaram a contar com um ou mais aparelhos de televisão em suas casas.

Com isso, os “evangélicos” arretianos multiplicaram suas denominações e construíram tantas igrejas nos mais diversos recantos do planeta, sendo difícil encontrar uma pequena cidade que não tivesse 5 a 10 delas, de denominações diferentes e concorrentes entre si. As discussões entre seus membros eram acirradas e, em algumas delas existia tamanho grau de fanatismo, que seus adeptos praticavam muitas barbaridades em nome de Deus e de Ahelohim. Algumas dessas denominações formavam grandes impérios econômicos e possuíam igrejas em quase todos os países, além de estações de rádio, canais de televisão, jornais, revistas e portais na Internet, dominando completamente a rede de comunicações necessárias à expansão de suas atividades. Algumas das mais poderosas estavam também inseridas no sistema financeiro, como acionistas minoritários ou majoritários de bancos e outras entidades desse sistema.

O APARECIMENTO DE OLINTHO

Olintho foi uma pessoa muito importante na história arretiana desde os três anos que antecederam a grande transição. Mas, foi durante a sua ocorrência e nos dez anos seguintes que ele consolidou sua imagem de administrador justo, prático e objetivo, após liderar os trabalhos de apoio aos sobreviventes em estreita colaboração com os seres espaciais e iniciar o processo de unificação continental. Os povos da atualidade arretiana têm por ele um grande respeito e admiração, não só pelo trabalho que realizou em um dos momentos cruciais da história daquele povo, como por várias outras coisas que fez posteriormente, quando retornou a Arret com o nome de Hórhium e governou o planeta entre os anos 96 e 176.

Conforme está registrado em Arret – O Diário da Viagem, não tínhamos a intenção inicial de escrever sobre uma civilização que vive em um outro planeta. Queríamos escrever sobre um texto conhecido como “A Profecia do Homem do Cavalo Branco”, referente aos presidentes que assumiriam o governo brasileiro após a morte de Getúlio Vargas, tendo no “Homem do Cavalo Branco”, o seu personagem principal. Tudo começou em janeiro de 1999 e, apesar das inúmeras tentativas, não conseguimos escrever sobre a profecia e sim sobre Arret. Quando terminamos a longa redação, verificamos que a idéia inicial foi alcançada com uma amplitude muito maior que aquela a que nos propusemos inicialmente, pois o “Homem do Cavalo Branco”, provavelmente, foi o mesmo ser que, nas duas ocasiões em que se manifestou naquele planeta, como Olintho e como Hórhium, ajudou a transformar e consolidar a sociedade arretiana, tão egoísta e competitiva como a nossa, em uma sociedade justa, fraterna e feliz. 

Considerando que a Terra ainda não passou pela sua grande transição, o trabalho de Olintho, e não o de Hórhium, é aquele que mais se aproxima ou apresenta uma maior afinidade com o texto da referida profecia, pois ele é, talvez, o seu personagem central. Por essa razão e por não termos incluído o texto da profecia no Diário da Viagem, julgamos conveniente inseri-lo neste capítulo introdutório ao advento de Olintho em Arret, além de registrar alguns comentários que resumem as informações e interpretação coletadas desde os idos de 1975, quando um amigo da Sociedade Brasileira de Eubióse nos entregou o seu texto original que estava com ele desde o início de 1953.

A profecia do Homem do Cavalo Branco

O texto é atribuído a André Luiz, um guia espiritual muito respeitado pelos Kardecistas, e foi ditado no dia 23/12/1952 a um dos mais importantes sensitivos de nosso país, cujo nome deixaremos de citar por falta de uma confirmação inequívoca de sua psicografia ou canalização. Mesmo assim, o texto apresenta informações surpreendentes que merecem uma profunda análise e reflexão. Da maneira como nos foi entregue, em uma única folha datilografada, está reproduzido nos itens a seguir. 

  • O mundo caminha para grandes conquistas e também grandes catástrofes. O engenho de guerra que assombrou o mundo com a destruição moral e material de Hiroshima e Nagazaki será a causa de desentendimentos no mundo inteiro.
  • No Brasil, um líder operário terá morte violenta, pois as forças espirituais que vivem no Cosmos pedem, ao Supremo Criador, justiça por tudo que foi feito de bárbaro em nome do Supremo Criador e da Pátria.
  • Com o desaparecimento deste, o Brasil vai passar por momentos difíceis e diversos movimentos armados vão abalar profundamente a estruturan acional.  No meio a isto virá um homem da terra do Mártir Tiradentes e, apesar das pressões, muito irá fazer pelo Brasil, inclusive, será o criador de uma Cidade Jardim tal qual o Édendiferente de todas as cidades, mas será substituído por outro que muita confusão irá criar e, na sua saída injustificada,  vai deixar a Nação abalada e desse abalo vai começar o período críticoaté que o homem de patriotismo, vindo também da terra de Tiradentes irá cercarse de outro se irão derrubar a viga mestra da confusão. Então, muita coisa nova vai acontecer.
  • Homens, mulheres e crianças vão sofrer conseqüências justas e injustas, provocadas por erros anteriores. O regime será combatido e até abalado, mas muitas nações passarão a dar crédito e respeito ao Brasil.
  • Com a mudança dos homens, muitos que foram o esteio da situação serão chamados a prestar contas a Deus. Então o sol, as enchentes e o frio vão criar fome e desespero, não só no Brasil, mas também no mundo.
  • Mas, no fim de tudo, vai aparecer um homem franco, sincero e leal que, montado em seu cavalo branco e com sua poderosa espada, dará uma nova dimensão e personalidade nos destinos do Brasil, corrigindo injustiças e fazendo voltar a confiança e a esperança no futuro do Brasil.
  • Será combatido e criticado por seu temperamento e atitudes, mas ele contará com a proteção de Forças Supremas que habitam o Cosmos e o Brasil será, verdadeiramente, o coração do mundo. Apesar de crises e ameaças internas e externas, que irão aparecer, ele será sempre o fiel da balança pela sua fé e esperança no destino do Brasil a ele confiado.

Não pretendemos e nem nos atrevemos a interpretar o texto dessa profecia. Porém, para enquadrá-la e validá-la como tal, vamos tecer alguns comentários sobre alguns personagens e situações facilmente identificáveis na primeira metade do texto produzido em 23/12/1952 e, portanto, cerca de 20 meses antes do primeiro acontecimento:

  • O líder operário que teve morte violenta, pois cometeu suicídio, ou foi assassinado como muitos defendem, foi o presidente Getúlio Vargas, do Partido Trabalhista Brasileiro, ocorrida em 24/08/1954.
  • Os momentos difíceis começaram com revoltas na Marinha e na Aeronáutica e continuaram com os ataques da UDN liderada por Carlos Lacerda, no sentido de invalidar as eleições, necessitando da firmeza do Marechal Lott para controlar a rebeldia de alguns militares influentes e garantir a posse do novo presidente eleito, o JK.
  • O homem da terra do Mártir Tiradentes foi Juscelino Kubitschek de Oliveira, um mineiro conhecido como JK. Ele instituiu o plano de metas, construiu muitas estradas e hidrelétricas, implantou a industria automobilística e edificou Brasília em três anos e meio, a cidade jardim tal qual o Éden, diferente de todas as outras, para onde transferiu a capital do Brasil e nela passou a faixa presidencial para o seu sucessor. 
  • Jânio Quadros substituiu Juscelino, causou muitas polêmicas, como a proibição do uso de biquínis, e renunciou ao seu mandato, abrindo o caminho para a implantação do regime militar em março de 1964, citado no texto como “o período crítico”.
  • O homem de patriotismo, vindo também da terra de Tiradentes foi Tancredo Neves. A campanha das “diretas já”, encabeçada por ele e por vários outros líderes políticos, culminou com a sua eleição indireta e encerrou o longo ciclo de governos militares.
  • Então, muita coisa nova começou a acontecer.  Tancredo Neves foi eleito e não tomou posse em razão de uma estranha doença que o acometeu nos dias anteriores, quando gozava de perfeita saúde, deixando o país em grande ansiedade e com medo de um retrocesso. Faleceu após algumas semanas de sofrimento pessoal e de toda a nação, de quem recebeu um enterro digno de um herói. O vice José Sarney assumiu e logo implantou o Plano Cruzado, uma das iniciativas que mais mobilizou e, em seguida, mais decepcionou a população brasileira, pois a inflação disparou e todos perderam a noção do valor do dinheiro e dos seus bens.
  • José Sarney foi substituído por um homem desconhecido e criado pelos meios de comunicação de massa, cuja campanha de baseou no combate ao dragão da inflação, à corrupção e aos “marajás”.
  • Fernando Collor também criou grandes novidades, como o seqüestro da poupança popular, suas camisetas com mensagens dominicais, demonstrações de juventude e esportividade, além de abrir as portas de sua intimidade palaciana e pessoal. Ele tornou-se o primeiro presidentes a ser deposto pela mobilização popular dos “caras pintadas” e motivou o início de um ciclo crescente de CPI’s sobre a corrupção.
  • As coisas novas ou incomuns continuaram acontecendo. Novamente o vice-presidente assumiu. Itamar Franco criou o Plano Real e escolheu um sociólogo para implantá-lo, quando tudo estava definido e ajustado pelos ministros da fazenda que o antecederam. Com isso, Fernando Henrique conseguiu eleger-se presidente e, depois de negociar com o congresso a aprovação da reeleição para cargos executivos, assumiu seu segundo mandato em meio a uma grande crise do sistema financeiro internacional, o qual nos motivou a escrever um livro sobre a profecia do “Homem do Cavalo Branco”, conforme está registrado em Arret – O Diário da Viagem.     

É interessante observar que a primeira metade do texto, até a frase “irão derrubar a viga mestra da confusão”, não requer interpretação, pois não apresenta dificuldades para identificação dos personagens, situação no tempo e acontecimentos correlatos. Porém, a partir da frase seguinte o texto apresenta sérias dificuldades para interpretação. Assim como o longo período do regime militar é referenciado apenas como “o período crítico”, a frase “então muita coisa nova vai acontecer” parece também abarcar um longo período de tempo que inclui os parágrafos seguintes e a seguir comentados, até o aparecimento do “homem franco, sincero e leal”. 

  • Muitos homens, mulheres e crianças já sofreram e continuam sofrendo as conseqüências justas e injustas dos erros provocados pelos governos anteriores e pela própria situação internacional. A distância entre ricos e pobres vem aumentado a cada ano e a qualidade da educação e da saúde vem piorado, assim como, vem aumentado o número de desempregados e daqueles que vivem abaixo da linha da pobreza.
  • É difícil afirmar que, após os anos de chumbo do regime militar, o regime foi “combatido e até abalado”, principalmente, se a frase for analisada pela ótica convencional. Porém, se analisada de uma maneira ampla e sob a ótica do “então, muita coisa nova vai acontecer”, a frase pode ser interpretada de uma maneira válida.
  • Assim como o terrorismo e as guerrilhas representam alto nível de insegurança para a população e, conseqüentemente, para a nação, o crime organizado, o narcotráfico, as invasões lideradas pelos movimentos dos sem-terras e sem-teto representam situações semelhantes e até mais graves que o terrorismo e as guerrilhas dos anos de chumbo, pois todos que vivem no campo ou nas cidades estão sujeitos às suas ações.
  • Juntamente com a criminalidade crescente e suas variadas facetas representadas por roubos, assaltos e seqüestros associados ao narcotráfico que provoca o desencaminhamento, a morte de tantos jovens, a insegurança e a desestabilização de muitas famílias pode ser interpretada como um combate e abalo do regime, pois as famílias formam a base da sociedade de um país.
  • Durante os longos anos do regime militar não ocorreram tantas mortes e seqüestros como nos últimos anos de reinado do crime organizado e do narcotráfico, cuja atuação, abrangência e poder aumenta a cada ano. Algumas autoridades e repórteres já associaram o fato a um poder paralelo a ser combatido como se fosse uma guerrilha urbana, inclusive, defendendo a convocação das forças armadas, como já aconteceu em alguns estados do nosso país.
  • Porém, não é difícil constatar que o Brasil está se tornando um país respeitado pelas grandes nações e que a maioria dos homens que governaram nosso país, ou foram o esteio da situação até o final do período ditatorial, já foram ”chamados a prestar contas a Deus”.
  • Apesar de que sempre estiveram em atividade, os elementos da natureza estão começando a agir de maneira crescente, abrangente e inusitada em todos os locais do planeta. São cada vez mais freqüentes as notícias sobre ondas de calor em locais normalmente frios, enchentes em locais predominantemente secos ou a situação inversa, além de ressacas, furações, maremotos, quebras de safras agrícolas e populações famintas, “não só no Brasil, mas também no mundo”.
  • Mesmo com esses indicadores de anormalidade, ainda não é prudente acreditar que até o final do ano de 1999, o “sol, as enchentes e o frio já criaram fome e desespero, não só no Brasil, mas também no mundo”.
  • Cremos que estamos atravessando esse período e, por essas e outras razões podemos afirmar que até o advento do presidente Fernando Henrique Cardoso, nenhum dos governantes anteriores, incluindo ele mesmo, representaram ou eram o “Homem do Cavalo Branco”. Ainda não chegamos “no final de tudo”, ou no fundo do poço.
  • Durante os quatro anos que restam ao seu governo, ou ao do seu sucessor, essa situação poderá se consolidar e abrir caminho para o aparecimento do homem que “dará uma nova personalidade nos destinos do Brasil, corrigindo injustiças e fazendo voltar a confiança e a esperança no futuro do Brasil”.

Além daquilo que a profecia descreve sobre o seu personagem central, existem poucas informações orais ou escritas sobre esse ser extraordinário. Resumimos abaixo aquelas que conseguimos acessar ao longo dos últimos vinte e quatro anos. Elas foram obtidas em livros canalizados, como aqueles ditados por Ramatis, ou através de outras mensagens espirituais, além de inúmeras conversas com dezenas de pessoas e sensitivos que tinham alguma informação a respeito. Registraremos apenas aquelas que atenderam a um critério de concordância geral.

  • Trata-se de um ser de elevada hierarquia espiritual que atua nas linhas do poder e da justiça, especialmente, a da justiça, pois ele é um arcanjo dessa linha.
  • Ele não pertence à hierarquia espiritual da Terra e já dirigiu mundos com governo planetário, como o arretiano.
  • Seu advento será precedido por um crescente interesse pelas questões de justiça e punições de crimes de diversas naturezas, especialmente, os de corrupção ativa e passiva.
  • Sua chegada ao governo se dará por caminhos diferentes dos padrões até então vigentes, podendo ser através de um “golpe de estado”, ou pela eleição ou indicação de alguém que não apresenta as condições usuais que elegeram seus antecessores.
  • Ele se tornará um líder interno e externo, muito querido pelo povo brasileiro, especialmente pelos mais humildes.
  • Sua missão é preparar o Brasil e o povo brasileiro para a transição planetária, exemplificando, para os demais países da Terra um novo padrão de governo centrado na justiça social e na fraternidade.

Apesar das dificuldades para análise e interpretação da parte final da profecia, sua primeira parte é surpreendente e nos obriga a raciocinar a respeito das suas possibilidades e significados ainda ocultos. Em última análise, é alentador saber que poderemos ter um presidente “franco, sincero e leal” que “dará uma nova dimensão e personalidade nos destinos do Brasil, corrigindo injustiças e fazendo voltar a confiança e a esperança no futuro”. Somente por essas razões, vale à pena acreditar que, mesmo que o Brasil e o mundo cheguem ao fundo do poço, existe a esperança de um futuro melhor. Considerando que Olintho é o provável “Homem do Cavalo branco” e que, assim sendo, os destinos do Brasil será colocado em suas competentes mãos pelas “Forças Supremas que habitam o Cosmos”, é importante conhecer uma parte do trabalho que ele realizou em Arret durante os três anos anteriores à grande transição, durante ela e nos dez anos seguintes, onde foi o “fiel da balança” junto a todos os povos daquele planeta.

O país de Olintho antes da sua ascensão

As características físicas, geográficas e raciais do país onde Olintho vivia eram semelhantes às do Brasil, com uma área cinqüenta por cento maior. Também estava localizado na região tropical do planeta, tinha terras férteis e uma grande cobertura vegetal representada por campos e florestas. Mais da metade da sua população era constituída pela raça mestiça e todas as demais tinham uma representação significativa e uma convivência mais harmoniosa que aquela encontrada nos demais países. Essa tolerância também se refletia nas questões religiosas e seu povo era considerado como o mais alegre, amistoso e fraterno do planeta. Lá era possível encontrar inúmeras famílias com vários descendentes casados com representantes de várias raças e  religiões convivendo em paz. Por essas razões, naquele país não havia racismo e nem fanatismo religioso como nos demais.

Ao nível de economia, o país de Olintho era um dos emergentes e tinha um PIB e uma renda per-cápita acima da média dos seus pares. Porém, esses indicadores estavam muito abaixo daqueles vigentes nos países mais desenvolvidos. A esperança do povo estava bastante abalada e os níveis de desemprego e empobrecimento das classes sociais eram altos e crescentes. A chamada classe média havia desaparecido e os pequenos empresários, que sempre foram os responsáveis pelos empregos de uma grande parcela da população, estavam em situação muito difícil, tanto pelo baixo nível e instabilidade da atividade econômica, como pelo alto nível dos impostos e taxas governamentais. Muitos já haviam fechado suas portas nos dez anos anteriores e boa parte daqueles que restaram estavam prestes a fazer o mesmo. 

A corrupção era muito grande em todos os níveis e a impunidade dos políticos e das classes dominantes revoltava a população que nada podia fazer, a não ser participar de greves e manifestações de protesto pela situação em que o país se encontrava. Apesar de praticar um regime democrático com eleições gerais em todos os níveis executivos, legislativos e judiciários, esses poderes eram controlados por grandes e velhas oligarquias que se alternavam e se protegiam mutuamente. Além de manter uma polícia militar a nível municipal, o país tinha um razoável contingente de forças armadas, apesar de contar com mais de 100 anos de paz e sem conflitos bélicos com países vizinhos ou distantes. Além daquilo que está registrado a respeito do modo de vida no período anterior à grande transição, esse era o cenário básico daquele país, no período anterior ao advento de Olintho.

Tudo começou cerca de quatro anos antes daquele grande acontecimento, em um período de grandes dificuldades que o país atravessava, aumentadas pela atuação de um governo incompetente e corrupto que, desde o seu início, elevou os gastos, aumentou os impostos e diminuiu os investimentos governamentais, especialmente nas áreas de infra-estrutura, educação e saúde. Os constantes erros a nível interno e a falta de agressividade na política externa acarretou uma sensível diminuição das exportações e das reservas cambiais, elevando a dívida externa, o desemprego e a inflação a um patamar muito alto. Toda a economia estava abalada, estagnada e extremamente frágil, com alto e crescente descrédito internacional.

O governo, que vinha demonstrado grande insensibilidade política, econômica e social, tomou uma série de medidas impopulares e injustas para reverter a situação, recorrendo a um novo aumento de impostos e taxas para compensar a queda na arrecadação decorrente da diminuição da atividade econômica, além de elevar os juros e bloquear parte significativa das contas bancárias e aplicações de pessoas físicas e empresas. Essas medidas revoltaram a população e desencadearam os acontecimentos que levaram Olintho ao poder, semelhantes aqueles que culminaram com a derrubada do governo Collor.

O povo, já cansado, desesperançado e sem horizontes, iniciou algumas manifestações de protesto por iniciativa de alguns segmentos organizados, apoiados por donas de casa, desempregados e estudantes. Em poucas semanas esses protestos pacíficos, representados por passeatas e concentrações, se estenderam por todas as cidades do país e foram engrossados com greves de vários segmentos bastante representativos e importantes, tanto das classes operárias, como das patronais. Essa união acabou gerando um movimento de grandes proporções, com intensa, crescente e organizada participação popular. 

Logo que surgiram as primeiras greves, começaram as negociações entre o governo e os líderes dos diversos segmentos. Em função da intransigência governamental, os resultados não foram satisfatórios e o movimento se alastrou com inúmeras outras greves que começaram a paralisar o país. Para tentar reverter a situação, o governo federativo convocou os governantes estaduais e decidiram intervir no movimento mediante o uso da força, assim que os governadores comunicassem a decisão aos respectivos prefeitos. As forças armadas foram acionadas para intervir, prender os responsáveis e terminar com o movimento, em conjunto com as polícias militares presentes em todos os municípios.

Porém, ao invés de cumprirem as determinações, os comandantes e seus subordinados, todos com pais, irmãos, filhos, parentes e amigos engajados no movimento, acabaram se juntando ao povo e fizeram uma revolução sem derramamento de sangue. Em poucos dias derrubaram os três níveis de governo, exceto os de algumas pequenas e médias cidades que não se opuseram aos reclamos populares. Também suspenderam os direitos políticos, fecharem todas as câmaras legislativas e as cortes de justiça superiores, incluindo várias cortes básicas das médias e grandes cidades que se opuseram ao movimento popular. Como o país estava sob lei marcial, prenderam todos os governantes e uma grande quantidade de membros do legislativo e do judiciário, sabidamente corruptos pela população que se irmanou com as forças militares.

Nos dias seguintes àquele “golpe militar popular” foram criadas juntas provisórias para gerir temporariamente os três níveis de governo, formadas por membros das forças armadas e pessoas notáveis da sociedade civil. Havia igual número de civis e de militares com patentes ou experiências profissionais compatíveis com cada esfera de governo. Essas juntas foram formadas por 7 a 14 membros a nível municipal, 14 a 21 no estadual e 28 no governo federativo. Todas tinham um coordenador eleito pelos respectivos membros e a maioria das decisões foi tomada por maioria simples. As juntas foram criadas para governar durante um período de três meses, considerado como suficiente para tomar diversas medidas saneadoras, sentir os anseios da população, definir os próximos passos e marcar uma nova eleição geral.

Todas as ações empreendidas durante esses três meses foram realizadas com total transparência, com amplos e constantes comunicados à população e embasadas em levantamentos de opinião, pois o principal objetivo era anular atos de corrupção e permitir o rápido restabelecimento e desenvolvimento das atividades industriais, comerciais e de serviços. Durante esse período prenderam todas as pessoas notoriamente conhecidas por seus atos ilícitos ou sobre as quais as forças armadas e as polícias militares tinham informações seguras sobre atos de corrupção. Todos foram recolhidos em quartéis, navios militares ou prisões especiais e foram julgados e condenados sumariamente por tribunais mistos, compostos por juízes militares e civis.

Como as máquinas estatais dos três níveis de governo estavam inchadas, inoperantes e com muitos funcionários com altos salários, fizeram cortes drásticos que reduziram significativamente a folha de pagamento e várias outras despesas. Isso permitiu diminuir as alíquotas de vários impostos e taxas, além de eliminar alguns tributos polêmicos criados pelo governo deposto e pelos anteriores. Como havia muitos problemas que demandavam estudos mais profundos e demorados, foram criados diversos grupos de trabalhos para propor soluções nos meses seguintes. No final desses três meses foram tomadas as principais ações saneadoras e as pesquisas de opinião indicavam que a população estava satisfeita com os resultados alcançados e com muita esperança em relação às conclusões dos estudos em andamento. Com base nessas expectativas, o processo foi ampliado por mais seis meses e todas as juntas provisórias foram reestruturadas e denominadas como juntas de transição.

Seus componentes foram ampliados e a junta federativa passou a contar com 49 membros. As juntas estaduais com 21 a 35, conforme o porte e nível de atividades econômicas de cada estado. As grandes cidades passaram a ser governadas por 21 membros, as médias por 14 e as pequenas por 7. O poder legislativo continuou suspenso e o judiciário voltou à normalidade, com uma nova composição em todos os níveis. Também ficou acertado que, no final dos seis meses, a população seria consultada sobre a manutenção daquela forma de governo com os ajustes que seriam propostos nos meses seguintes, incluindo o restabelecimento do pode legislativo.

Nos primeiros dias de atuação das novas juntas de transição, foram libertados todos os presos não acusados por crimes de corrupção, estelionato, morte, assalto e outros de natureza semelhante, pois aquele país era um dos poucos que não aplicava penas de morte ou de mutilação física. Fizeram o mesmo como todos que tinham cumprido dois terços de suas penas originais, sob promessa de regeneração e integração à sociedade. As ações saneadoras foram intensificadas e nos meses seguintes julgaram e prenderam uma grande quantidade de políticos, policiais, membros das forças armadas, religiosos e pessoas comuns que foram acusadas de corrupção, enriquecimento ilícito e outros crimes. Os que estavam sob suspeita foram impedidos de deixar o país até o término das investigações. Além das informações e provas coletadas pelas autoridades, a população foi convocada para fazer denuncias fundamentadas sobre crimes e atividades ilícitas de qualquer cidadão.

Elas foram coletadas através da Internet e de urnas colocadas em estabelecimentos comerciais, permitindo que toda a população participasse. Com base no número de denuncias imputadas a cada suspeito, as autoridades foram investigando, obtendo provas materiais e prendendo essas pessoas. Os dossiês gerados embasavam o indiciamento e a acusação dos suspeitos em julgamentos sumários, nos mesmos moldes praticados pelas juntas provisórias. O principal objetivo desses julgamentos era punir exemplarmente os casos de corrupção e de enriquecimento ilícito. Com isso, durante os quatro primeiros meses de atuação das juntas de transição, todos os acusados foram julgados, punidos e tiveram seus bens ilícitos revertidos aos cofres públicos. Quando não havia provas suficientes o réu era inocentado ou tinha seu julgamento adiado para coleta de novas provas, quando poderia ser inocentado se a dúvida persistisse.

Além do intenso trabalho de combate à corrupção, os serviços supérfluos foram suspensos em todos os níveis de governo e as diversas equipes de trabalho se concentraram em cortar gastos, racionalizar e agilizar as máquinas administrativas, o que acarretou uma substancial redução do funcionalismo público. Todos que não desempenhavam suas funções a contento foram dispensados, assim como aqueles que executavam atividades eliminadas ou simplificadas, pois naquele país, como em todos os demais, não havia estabilidade para funcionários públicos. As leis trabalhistas seguiam um padrão da ONU arretiana e eram válidas para todos os tipos de funcionários e não previa tantos direitos como a sua similar brasileira.

As reduções de impostos e taxas realizadas nos três primeiros meses, somadas à racionalização das estruturas e serviços governamentais, à grande quantidade de bens ilícitos revertidos aos cofres públicos e à moralização que passou a vigorar naquele país, permitiram novas e substanciais reduções nas alíquotas de todos os tributos e seu agrupamento em um leque bastante reduzido que abrangeu os três níveis de governo. Com isso e com a simplificação da burocracia, todos passaram a pagar um valor justo que, ao mesmo tempo em que permitiu a expansão da economia e a geração de novos postos de trabalho no setor privado, possibilitou ao governo dos três níveis reativar e implantar novos projetos em todas as suas áreas de atuação.     

A chegada de Olintho ao governo

Quando foram criadas as primeiras juntas provisórias a nível estadual, em uma delas havia um consultor bastante conhecido no meio empresarial em razão dos seus projetos práticos e inovadores. Durante os três primeiros meses de atuação dessas juntas seu trabalho se destacou pela sua natural liderança, conhecimento técnico, simplicidade, qualidade e aplicabilidade de suas propostas que, em sua maioria, foram copiadas e seguidas por outros estados e pela própria união. Por essas razões ele foi convidado a fazer parte da junta de transição federal, com a responsabilidade de coordenar as ações governamentais nos campos administrativo, financeiro e tributário.

Esse homem era Olintho e, três meses depois de assumir as novas funções, contava com o respeito e admiração de todos os membros da junta federal, das demais e de uma significativa parcela da população que sempre o citava como um dos melhores e mais atuantes membros da junta de governo. Ele tinha cinqüenta anos de idade e era uma pessoa muito inteligente, sábia e sensível, de caráter nobre, firme e justo. Suas proposta e ações foram voltadas para a redução e simplificação da máquina estatal e para o fortalecimento e expansão do nível de atividade das empresas, dos empregos e, conseqüentemente, para a melhoria da qualidade de vida da população. Para atingir esse objetivo, desagradou os funcionários públicos que perderam seus empregos, mordomias e altos salários, mas fez muitos amigos e uma grande legião de admiradores em todas as camadas da população, desde humildes operários até grandes empresários.

Quando, ao final do sexto mês de atuação das juntas de transição foi realizado o referendo, a quase totalidade da população se definiu por um novo tipo de regime democrático e a maioria indicou o nome de Olintho para dirigir os destinos do país nos quatro anos seguintes. O novo regime era diferente daqueles praticados em outros países considerados como democráticos e foi definido por uma comissão especial que se baseou em diversas pesquisas de opinião realizadas desde o início da atuação das juntas de transição, com divulgação sistemática dos resultados e do andamento dos trabalhos.

Desde que o governo anterior foi derrubado e a população começou a ser ouvida através de pesquisas de opinião e atendida em suas reivindicações, nasceu um sentimento crescente de que a democracia plena nunca existiu naquele país e nos demais que adotavam um regime semelhante. A democracia que praticavam era, em maior ou menor grau, apenas um conceito teórico que guardava uma grande distância da realidade prática, pois o povo não participava e pouco ou nada influenciava as decisões governamentais. Seu único e grande papel era eleger os seus representantes e torcer para que eles fizessem alguma coisa para melhorar a qualidade de vida de seus eleitores, pois o corporativismo dos políticos e de seus partidos decidiam “em nome do povo” e, estranhamente, sempre contrariavam a vontade popular.

Por outro lado, todos os políticos, incluindo aqueles que iniciaram suas carreiras com poucos recursos, estavam todos muito bem de vida e cercados de salários, mordomias e benesses que aumentavam a cada ano e os levava a se perpetuarem no poder, tanto em cargos legislativos, como executivos. Em função dos excelentes e rápidos resultados que as primeiras juntas alcançaram, quando o país começou ser governado como um organismo único e integrado, semelhante a uma grande corporação empresarial e sem interferências, negociações e acordos políticos entre os membros dos poderes executivos e legislativos, a população também começou a questionar fortemente o esquema de poder anterior que trouxe tantos males ao país.

A partir do sentimento popular captado nas primeiras pesquisas de opinião, a comissão começou a desenhar o perfil do novo sistema democrático baseado nas premissas abaixo, o qual foi aperfeiçoado e detalhado nos meses seguintes.

  • Ausência de partidos políticos, permitindo a qualquer eleitor se candidatar diretamente na justiça eleitoral.
  • Eliminação do poder econômico nas campanhas eleitorais, para permitir o ingresso de qualquer cidadão no meio político, além da necessária renovação para surgimento de novas lideranças.
  • Permitir a participação popular nas decisões governamentais, assim como o impedimento de qualquer dirigente ou servidor público das esferas executivas, legislativas e judiciárias que não desempenhassem suas atividades a contento e em benefício da coletividade.
  • Permitir ampla autonomia ao executivo e, especialmente, ao presidente da federação, para compor sua equipe de governo e desenvolver o programa de trabalho que motivou sua eleição, sem ter que barganhar com o legislativo e com os governadores para obter a chamada governabilidade que o povo lhe concedeu nas urnas.  

No final, a comissão definiu o novo modelo de regime democrático baseado nas premissas acima e abaixo, bem como, estabeleceu os critérios válidos para a primeira eleição e para as seguintes, em total consonância com a vontade popular. Os novos critérios foram amplamente divulgados durante os dois meses que precederam o referendo popular e a escolha dos novos governantes.

  • Todos os cargos eletivos teriam um período de mandato menor e foi reduzido de seis para quatro anos, com direito a reeleições sucessivas.
  • Na primeira eleição todos os membros das juntas federativas, estaduais e municipais seriam candidatos natos aos respectivos cargos executivos, a menos que renunciassem a esse direito. Nas eleições seguintes, as candidaturas seriam abertas à participação da sociedade. 
  • Também não haveria comícios, manifestações individuais, programas e propagandas políticas. Haveria apenas a divulgação do currículo e do programa de governo de cada candidato na Internet, na televisão e nos principais meios de comunicação. 
  • O presidente do governo federativo seria o candidato mais votado e cada governador estadual seria escolhido pelo presidente eleito, dentre os três mais votados em cada estado.
  • Os governadores utilizariam o mesmo critério para escolher os prefeitos de cada um dos seus municípios.
  • Todas as câmaras legislativas e partidos políticos seriam extintos e substituídos por uma representação popular sediada em cada município, com poderes legislativos e fiscalizadores nos três níveis executivos e judiciários.
  • Esses parlamentares seriam eleitos dali a seis meses e seguiriam novos critérios para registro de candidaturas, campanha eleitoral e desempenho de suas funções legislativas e fiscalizadoras, de maneira a representar efetivamente a vontade popular.

Os resultados do referendo e da eleição foram anunciados no final da noite e o dia seguinte, equivalente a um domingo, foi marcado por comemorações em todo o país. Em pouco mais de uma semana foram indicados todos os governadores, prefeitos e demais colaboradores das três esferas de governo. As posses gerais foram realizadas no segundo sábado seguinte à realização do referendo. A do governo federativo acorreu às oito horas da manhã, a dos governos estaduais às dez e a dos governos municipais ao meio dia. Assim procederam para que todos pudessem acompanhar as solenidades ao vivo ou pela televisão e tivessem o restante do fim de semana para descansar e festejar, pois esse era o espírito daquele povo alegre e fraterno que adorava festividades e estava muito feliz e confiante no futuro.

A solenidade de posse do governo federativo foi presenciada por uma grande multidão, além de toda a população que acompanhava o acontecimento pela televisão. Depois de empossado e antes de iniciar seu discurso, Olintho pediu a proteção divina e a colaboração da população para a grande tarefa que tinha pela frente, convidando a todos para se darem as mãos e acompanhá-lo em uma oração muito popular em seu país, equivalente ao “Pai Nosso”. Aqueles que assistiam pela televisão procederam da mesma forma e foi um momento marcante na mente de todos os habitantes, pois, além da emoção e da grande onda de energia positiva gerada pela população, aconteceu um fenômeno incomum assim que terminaram a oração.

Logo que Olintho começou a relatar as linhas mestras do seu programa de governo, surgiu no horizonte, em frente ao palanque, uma grande nave elíptica seguida de outras seis menores, formando uma ponta de flecha, ou a letra “V”. Elas estacionaram a uns dois quilômetros da grande praça a uma altitude de uns mil metros, a fim de não causar pânico na multidão. Olintho e todos que estavam no palanque foram os primeiros a perceber a aproximação e, quando elas estacionaram, ainda não tinham sido percebidas pela multidão.

Ele interrompeu seu discurso, começou a falar sobre aqueles que denominava como “amigos das estrelas” e pediu para que todos mantivessem a calma e observassem as naves sem medo, pois eram amigos de todos que ali estavam. A multidão ficou surpresa e maravilhada com aquele acontecimento e manteve um estado de ânimo positivo, pois esses avistamentos não eram um fato incomum no planeta e muito menos naquele país. Enquanto isso, a formação começou a se aproximar piscando um conjunto de luzes que acompanhava uma suave melodia religiosa muito conhecida por todos, tal qual a nossa “Ave Maria”. O deslocamento durou uns três minutos e todos, além de emocionados, pareciam estar hipnotizados durante esse tempo.

Quando as naves ultrapassaram o palanque, fizeram uma manobra de verticalização, quando a letra “V” ficou visível por alguns segundos. Depois, voltaram à posição inicial com a ponta ligeiramente inclinada para baixo e voltada para a multidão, permitindo que fossem vistas sem desviar a atenção do palanque. Assim permaneceram durante uns vinte minutos que durou o discurso de Olintho. Quando ele terminou e fez um agradecimento aos “amigos das estrelas”, as naves voltaram a piscar suas luzes e a tocar a mesma melodia enquanto se deslocavam até o ponto onde estacionaram inicialmente. Depois de lá permaneceram por alguns segundos, desfizeram a formação e desapareceram em grande velocidade.

Esse fato também foi visto e noticiado pelas televisões de todo o planeta, tornando a posse de Olintho um acontecimento mundial que, além de gerar simpatias e ajudas em vários momentos, auxiliou no entendimento de diversas ações polêmicas tomadas no seu primeiro ano de governo, além de abrir caminho para transformá-lo em um líder planetário. A partir daquele dia, os contatos com ufólogos do mundo inteiro se intensificaram de maneira crescente, o que facilitou bastante a ação dos “amigos das estrelas” por ocasião da grande transição que iria ocorrer dali a três anos.

As primeiras ações

Olintho deu continuidade aos projetos desencadeados pela junta de transição e três deles tinham alta prioridade e mereceram especial atenção durante o seu primeiro ano de governo, pois completavam ações iniciadas anteriormente. O primeiro foi o projeto de racionalização da estrutura do governo federativo e dos demais, objetivando a redução da máquina estatal e de seus custos até a base da pirâmide e, principalmente, a sua agilidade e objetividade. Esse projeto envolveu um grande conjunto de simplificações legislativas e gerou muitos benefícios para as empresas e para a população. O segundo criou uma série de incentivos e canalizou um grande volume de recursos para o desenvolvimento das atividades produtivas, geração de empregos e expansão das exportações, privilegiando o setor agrícola. O terceiro englobava uma série de ações de curto e médio prazo, voltadas para a melhoria da qualidade de vida da população, especialmente da mais carente.

Esse projeto, além das ações próprias dos três níveis de governo, contou com a parceria e a colaboração de empresários, entidades religiosas, filantrópicas e de uma parcela significativa da população de melhor poder aquisitivo, quando foram reformados e ampliados inúmeros centros de lazer urbanos, como parques e equipamentos voltados para atividades esportivas e culturais. Para ser concluído em um tempo maior, Olintho começou a reestruturar os sistemas de assistência médica, de previdência social, de educação e habitação, privilegiando as pequenas cidades e a zona rural, além de iniciar um novo projeto de reforma agrária baseado em agrovilas. No início do segundo semestre do seu governo ocorreram as eleições para as câmaras legislativas que passaram a funcionar em novos moldes, sem espírito de corpo, negociações para obter governabilidade e outros aspectos que prejudicavam a máquina governamental e a sociedade como um todo.

Quando essas câmaras começaram a funcionar, definiram um projeto de reestruturação do poder judiciário e de simplificação e consolidação de toda a legislação então existente. O objetivo era permitir que qualquer caso fosse julgado com a rapidez alcançada durante os primeiros meses de funcionamento das juntas provisórias, para que a demora e a impunidade deixasse de ser a principal causa da criminalidade e da corrupção. Vale ressaltar que as questões de justiça eram a principal marca da personalidade de Olintho e que elas lhe custaram críticas internas e externas durante o seu primeiro ano de governo.

Isso aconteceu em decorrência da maneira rápida e sumária com que as cortes judiciais vinham agindo desde o advento das juntas provisórias e também pela extinção das câmaras legislativas estaduais e federais. Apesar de não existir torturas ou desrespeito aos diretos humanos, vários países e diversos organismos internacionais acabaram criticando e associando o governo de Olintho a um regime totalitário, pois seu governo ainda mantinha uma infinidade de pessoas corruptas que eram qualificadas por esses organismos como “presos políticos”. Ele também sofreu a desaprovação de uma pequena e influente parcela da população interna que se sentiu prejudicada pelas diversas ações iniciadas pelas juntas e continuadas em seu governo, especialmente aquelas voltadas para a melhoria das condições de vida da população mais pobre e diminuição das desigualdades sociais.

No final do primeiro ano, quando todos os grandes e pequenos corruptos estavam julgados, condenados e seus bens ilícitos bloqueados ou revertidos aos cofres públicos, uma nova legislação permitiu que qualquer preso fosse transferido para outro país que o aceitasse para lá viver em liberdade. Esses condenados podiam vender ou levar seus bens de direito e permaneceriam fora do país até o final do cumprimento de suas penas originais. Essa legislação calou as críticas internas e, principalmente, as externas, pois muitos países que criticavam o governo de Olintho foram os primeiros a recusar os vistos de entrada para esses delinqüentes, justificando a decisão com os mais variados pontos-de-vista. Mesmo assim, muitos ganharam a liberdade e o mesmo aconteceu com vários condenados por outros crimes. Com isso, muitas penitenciárias foram desativadas e as novas admissões diminuíam a cada dia, à medida que melhorava as condições sociais, a qualidade de vida da população e aumentava a confiança do povo no governo.

A reforma agrária e as agrovilas

Outro programa digno de nota iniciado no segundo semestre do seu mandato foi à reestruturação do projeto de reforma agrária voltado para a desconcentração urbana e a fixação do homem no campo, com dignidade e qualidade de vida. Esse projeto teve desenvolvimento crescente no decorrer da gestão de Olintho e promoveu a paz no campo, pois atendeu às expectativas dos antigos proprietários rurais e dos novos sem-terras, além de transformá-los em vizinhos, amigos e parceiros.

O programa estendia o conceito de sem-terras a todos os moradores dos centros urbanos que não possuíam glebas rurais. Em função disso, as inscrições dos interessados, que até então eram limitadas e estavam abertas apenas para trabalhadores rurais, ampliaram-se consideravelmente e superaram as expectativas iniciais. Como havia grandes glebas pertencentes aos municípios, aos estados e à federação, esperava-se que a sua quantidade fosse suficiente para atender todos os interessados. Além disso, havia uma significativa parte das glebas públicas que integravam grandes unidades de conservação mantidas em parceria com a ONU arretiana, as quais poderiam ser utilizadas para implantação de assentamentos extrativistas e outros de impacto ambiental nulo ou insignificante.

Começaram definindo que os assentamentos seguiriam um modelo que conhecemos como agrovilas, constituídas por um núcleo habitacional e de serviços comunitários localizados no centro da área destinada às atividades produtivas. Além das residências familiares, cada núcleo contaria com diversas instalações de uso comum, como escolas, posto de saúde, mercado, almoxarifados de ferramentas e insumos, garagens de máquinas e veículos, armazém para estocagem da produção, praça pública, clube social e outros locais de lazer, além de serraria e marcenaria. O núcleo também contaria com rede de água, esgoto e de energia elétrica solar, ou eólica, ou hidráulica a ser produzida em cada agrovila, conforme as características topográficas de cada uma delas.  

As residências foram padronizadas de tal forma que uma casa com um dormitório e banheiro podia ser ampliada para até quatro deles. Assim como as demais edificações, elas foram projetadas para serem construídas e mobiliadas com madeiras da região, processadas na serraria e na marcenaria previamente instaladas. As edificações seriam construídas pelos assentados com o apoio de técnicos contratados pelo governo, pois desde a fase inicial até a consolidação do ciclo produtivo, seria fornecida toda a ajuda técnica e financeira necessária, inclusive para manutenção das famílias, aquisição de materiais e insumos necessários. As construções seriam iniciadas pelas residências, em regime de mutirão, incluindo o próprio mobiliário. O prazo previsto para sua conclusão variava de quatro a seis meses, conforme o tamanho da agrovila e a menor ou maior concentração de residências com mais dormitórios. Durante esse período, as famílias ficariam acampadas em barracas militares fornecidas pelo governo, as quais seriam instaladas em um local específico, com rede de água, lavanderia, banheiros e sanitários coletivos.   

Essa estratégia diminuía os custos de cada assentamento e permitia que todos tivessem, em um período curto, uma residência confortável e todas as condições para iniciar as atividades produtivas. Tudo seria financiado pelo governo e somente após a consolidação do processo produtivo os assentados começariam a pagar suas casas, glebas individuais e edificações coletivas, conforme o tipo de agrovila, pois elas não seriam doadas. Esse procedimento geraria os recursos necessários para ampliar o programa sem prejudicar os demais projetos governamentais e sem onerar os cidadãos com aumento de impostos.         

Em seguida definiram os tipos de culturas, piscicultura, agroindústrias e outras atividades que seriam desenvolvidas em cada agrovila,  bem como, o tamanho das glebas individuais ou coletivas, as necessidades de assistência técnica e de suporte governamental para garantir a sustentabilidade, a rentabilidade e a continuidade operacional de cada uma delas. Para isso, levaram em consideração diversos fatores, como o tipo de terra propícia para cada atividade agrícola, os recursos hídricos necessários para irrigação, a topografia e o clima predominante. Considerando todas essas particularidades, o tamanho das glebas individuais necessárias para garantir a sustentabilidade de cada família variava entre 4 e 16 hectares, conforme o tipo de agrovila e seu modelo operacional.

Em paralelo a esses estudos, fizeram um completo levantamento das áreas propícias pertencentes aos três níveis de governo. Esse levantamento foi realizado rapidamente em razão de já possuírem informações geo-referenciadas sobre as áreas de propriedade pública ou privada, as quais eram constantemente atualizadas por diversos procedimentos, incluindo mapeamentos realizados por satélites. Esses dados eram utilizados para cobrança de impostos, avaliação de queimadas, desmatamentos, ocupação das áreas e outras finalidades. Logo que os levantamentos foram concluídos, todas as terras pertencentes aos estados e aos municípios foram transferidas para o governo federal e colocadas à disposição do programa de assentamentos.

Também em paralelo, definiram os modelos dos diversos tipos de núcleos habitacionais e de serviços comunitários para comportar de 50 a 200 famílias e os critérios para inscrição e seleção dos interessados. Enquanto as inscrições eram realizadas, processadas e os interessados informados, selecionados e treinados para viver e produzir em cada tipo de agrovila que escolheram, foram definidas e demarcadas milhares delas de diversos tamanhos, voltadas para os mais diferentes tipos de atividades, como fruticultura, horticultura, piscicultura e extrativismo, todas associadas a agroindústrias voltadas para o processamento local da produção e agregação de valor ao processo produtivo. O esquema de demarcação das agrovilas foi planejado para ser concluído antes do final da fase de treinamento dos interessados, de maneira a permitir que cada família escolhesse também o local específico do tipo de agrovila, com base em uma planta detalhada de cada uma delas. 

Assim que as famílias concluíram a fase de treinamento e cada agrovila escolhida atingiu seu limite populacional mínimo, seus futuros moradores foram imediatamente transferidos para elas e lá encontraram o local preparado para armar as barracas, bem como, a serraria e a marcenaria em condições de operação e uma grande quantidade de toras secas e em processo de secagem. Assim que se instalaram e receberam a complementação do treinamento inicial, começaram o processo de corte das toras, preparação das madeiras e construção das residências. Quando elas foram concluídas e ocupadas, todos iniciaram duas frentes de trabalho, em dias ou períodos alternados, conforme o que foi decidido pelo conselho representativo dos moradores de cada agrovila. Uma delas foi dedicada às construções de uso coletivo e a outra aos trabalhos nas glebas individuais ou coletivas, para torná-las produtivas no menor tempo possível.

Como já registramos, as casas e as glebas não foram doadas aos assentados. Todos estavam sujeitos a uma taxa que variava entre dez e vinte por cento da renda bruta de cada família, conforme o tipo de agrovila. Esse valor, além de cobrir a manutenção dos serviços, a assistência técnica e a utilização dos equipamentos comunitários, tinha uma parte correspondente ao aluguel da casa e da gleba por um período de três anos. Aquela referente à gleba foi calculada criteriosamente e levava em conta a qualidade planimétrica, acesso, fertilidade do solo, disponibilidade de água e outros fatores normalmente associados ao valor justo de qualquer propriedade agrícola. 

Após o período de três anos de trabalho efetivo na agrovila e criação das condições de sustentabilidade familiar, os moradores tinham opção de compra, ou a possibilidade de transferência para outra agrovila do mesmo ou de outro tipo de atividade. Também podiam pedir a transferência para outra agrovila, ou desistir a qualquer tempo e por qualquer motivo, assim como estavam sujeitos a serem excluídos do programa de assentamentos se não cumprissem as metas estabelecidas para a agrovila onde residiam, ou viessem a criar problemas para os demais assentados, ou deixassem de cumprir com suas obrigações financeiras sem motivo justo. Em caso de compra, o pagamento era parcelado em vários anos, de maneira a não comprometer mais que vinte por cento da renda familiar, sendo que o maior nível de produção barateava o valor das parcelas. A venda da moradia e da gleba a terceiros só era permitida no final dos pagamentos, quando o assentado recebia o título de propriedade.

O programa de assentamentos extrapolou todos os objetivos iniciais, pois assentou todos os sem-terras originários da zona rural, extinguiu o fluxo migratório para os centros urbanos e desconcentrou todas as cidades, especialmente as grandes, pois uns vinte por cento da população urbana se transferiu para as agrovilas antes do início da grande transição. Apesar da grande procura, houve terras para todos os interessados em função de algumas iniciativas tomadas pelo governo com a antecedência necessária. No país de Olintho, as áreas improdutivas eram taxadas com alíquotas que aumentavam conforme fossem maiores os tamanhos das glebas. As áreas produtivas também eram taxadas de maneira significativa e esses tributos geravam problemas e reclamações de todos proprietários de terras. Além disso, muitos deles tinham recorrido a financiamentos no passado e suas dívidas, em alguns casos, eram superiores ao valor de suas terras.

Logo que as primeiras agrovilas foram implantadas com grande sucesso e seus moradores começaram a obter bons resultados produtivos, a quantidade de inscrições dos sem-terras urbanos aumentou consideravelmente e superou todas as expectativas iniciais mais otimistas. Com isso, o governo certificou-se que as terras disponíveis não seriam suficientes para atender todos os interessados. Olintho, que era muito perspicaz e um administrador brilhante que adorava desafios, logo encontrou uma solução simples e prática para solucionar o problema, como era o seu estilo de resolver tudo pelo caminho de menor resistência. Ele convocou algumas reuniões com os órgãos representativos dos proprietários de terras e com os maiores latifundiários do país, dentre os quais se encontravam também os maiores devedores de financiamentos agrícolas.

Nessas reuniões foram expostas as linhas gerais da proposta de utilização de terras particulares para continuidade do programa de assentamentos, conforme características gerais abaixo resumidas.

  • Os devedores teriam seus financiamentos recalculados para apuração do saldo referente ao montante do empréstimo original, cujo valor seria convertido em quantidades de uma cesta de bens, produtos e insumos agrícolas vigentes na época da contratação de cada empréstimo e transformadas em um valor atual da mesma cesta.
  • O novo valor seria refinanciado com taxas menores, em parcelas e prazos condizentes com a capacidade real de desembolso de cada devedor, de maneira a não comprometer o seu processo produtivo e inviabilizar o pagamento da dívida.
  • Caso ocorresse uma retração econômica do setor correspondente a cada um, a dívida poderia ser novamente refinanciada em prazos maiores e em parcelas menores.
  • Os devedores podiam optar por quitar a dívida com uma parte de suas terras improdutivas, a preços de mercado.
  • No caso dos proprietários que não tinham dívidas, ou quando elas eram inferiores ao valor das terras que viessem a transferir para o programa de assentamentos, o governo pagaria o seu valor de mercado em parcelas trimestrais, acrescidas das mesmas taxas utilizadas no refinanciamento das dívidas. 
  • Para todos que transferissem glebas para o programa de assentamentos, seriam concedidas reduções crescentes nos tributos sobre as áreas remanescentes, conforme a quantidade transferida. O governo concederia isenção total se ela representasse 75 por cento da área original.
  • Os valores das taxas incidentes sobre as áreas remanescentes também seriam convertidos em quantidades da mesma cesta de bens, produtos e insumos agrícolas utilizada no refinanciamento das dívidas e, na medida que a produção aumentasse e o valor da cesta fosse reduzido, as dívidas e os impostos seriam igualmente reduzidos.
  • Adicionalmente, todos os proprietários também se beneficiariam com escolas, postos médicos, assistência técnica e outros benefícios concedidos aos assentados.

A proposta teve grandes repercussões positivas, tanto entre os proprietários de terras, como entre os inscritos e aqueles que pretendiam se inscrever no programa de assentamento. Nos meses seguintes foram definidos todos os detalhes daquela grande operação, renegociadas todas as dívidas e cadastradas todas as áreas vendidas ou transferidas ao governo em troca de dívidas. A resposta dos proprietários também ultrapassou as expectativas mais otimistas, pois a quase totalidade dos devedores preferiu quitar suas dívidas e muitos proprietários não endividados colocou parte de suas áreas originais à disposição do programa de assentamentos.

Somente aquelas transferidas em troca de dívidas foram suficientes para atender, com grandes sobras, todos os inscritos até aquela data. Juntamente com as áreas adquiridas de proprietários não endividados, criaram reservas suficientes para triplicar a quantidade de inscrições. Nos seis meses seguintes, o governo assentou uma grande quantidade de famílias oriundas de centros urbanos que suas populações diminuíram visivelmente. Com isso foram liberadas inúmeras casas que logo foram compradas ou alugadas por pessoas que moravam em áreas mais adensadas e esse fato evitou muitas mortes e ferimentos quando ocorreu a grande transição.

Outro fato importante foi o novo tipo de relacionamento criado entre os antigos proprietários de terras e os sem-terras, pois nasceu entre eles uma nova e grande camaradagem. Os assentados passaram a ver essas pessoas como amigos e benfeitores, tanto pelo bom relacionamento que cultivaram, como pelo fato da maioria deles terem disponibilizado as terras que permitiram a implantação dos assentamentos. Do outro lado, os proprietários viam os assentados como pessoas ordeiras e interessadas nas suas novas atividades e também como as responsáveis por tê-los livrado de suas dívidas. Além disso, também se beneficiaram com a assistência técnica, escolas, postos de saúde, clubes sociais e várias outras coisas implantadas nas agrovilas próximas. Enfim, as duas partes juntaram o útil com o agradável.

Enquanto os grandes proprietários continuaram se dedicando à produção extensiva de grãos, as agrovilas começaram a produzir peixes, hortaliças, legumes, frutas, mel e seus derivados, artesanatos e vários outros produtos. Muitas que estavam localizadas em áreas florestais também produziam móveis e madeiras serradas para consumo nos centros urbanos e para exportação. Com isso, deixou-se de exportar toras brutas e iniciou-se um projeto de manejo sustentável das florestas, onde também coletavam folhas, ervas e raízes medicinais, além de resinas, essências e frutos silvestres de grande aceitação no mercado interno e externo.  

Todas essas atividades estavam em pleno andamento antes do final do segundo ano do governo de Olintho e seu país se transformou no maior produtor e exportador de alimentos, remédios naturais, peixes de água doce, madeiras serradas e móveis do planeta. Além disso, quase todos os assentamentos tinham uma parte de sua renda proveniente da exploração do turismo, pois o interesse pelas agrovilas contagiou a população urbana daquele país e extrapolou suas fronteiras, levando outros governos a implantar um projeto semelhante. O sucesso do programa de reforma agrária e o excelente nível de qualidade de vida alcançado pelos assentados motivaram outros moradores dos centros a se fixarem no campo, seguindo os passos de seus antigos amigos, vizinhos ou colegas de trabalho.

Quando sobreveio a grande transição, o país de Olintho foi aquele que menos danos sofreu em todos os sentidos, pois além de ter uma população bastante dispersa geograficamente, tinha a melhor e mais bem aparelhada estrutura de produção agrícola do planeta. Muitos desses assentamentos foram posteriormente utilizados como núcleos de trabalho comunitário e seus habitantes já estavam treinados e preparados para a nova etapa que se iniciou em todo o planeta. Foi por essas razões que relatamos esse projeto com mais detalhes que os seguintes.

Outras das principais realizações

Nos três anos de seu governo Olintho atacou e resolveu, no todo ou em parte, vários outros problemas que afligiam a população. A mesma situação que ocorria com os agricultores que contraíram empréstimos também afetava aqueles que adquiriram imóveis financiados. Além do alto valor das prestações e da queda do poder aquisitivo dos salários, o saldo devedor era, em muitos casos, superior ao valor de mercado dos imóveis. Muitos daqueles que se transferiram para as agrovilas no início do programa de assentamentos, preferiram alugar seus imóveis por um valor menor que as prestações do financiamento, pois teriam que pagar para vender o imóvel ou doá-lo a alguém que assumisse a dívida. Olintho resolveu o problema de maneira semelhante àquela aplicada aos proprietários de terras e estendeu idênticos benefícios a todos aqueles que financiaram a aquisição de bens duráveis utilizados como ferramentas de trabalho, como máquinas, veículos e outros equipamentos.

Na educação foi realizada uma completa reforma do ensino público, precedida por uma reestruturação do plano de cargos e salários do magistério, restabelecendo a auto-estima dos professores que, juntamente com o ensino público, foram relegados a um plano secundário pelos governos anteriores. O ensino pré-escolar ficou a cargo dos municípios, o de primeiro grau com os estados e os de segundo e terceiro graus com o governo federal. Esse esquema começou a vigorar a partir do segundo ano do governo de Olintho e provocou o fechamento de muitas escolas particulares, pois a população, mesmo das classes mais abastadas, começou a matricular seus filhos na rede pública em razão da confiança no governo, da qualidade do programa e dos novos conceitos de ensino.

A pré-escola foi dividida em três níveis de faixas etárias, compreendidas entre um e seis anos, onde as crianças permaneciam na escola em período integral. No primeiro nível as prioridades eram o lazer, a alimentação, a saúde, o desenvolvimento motor e o relacionamento social. O segundo nível mantinha as prioridades anteriores e introduzia a alfabetização, os conceitos religiosos ecumênicos e a detecção de tendências vocacionais. O terceiro nível aprofundava os conceitos anteriores, introduzia noções de cidadania, concluía a alfabetização e definia as tendências vocacionais básicas, permitindo um melhor direcionamento dos estudos seguintes. O modelo pedagógico empregado nesses três níveis podia ser resumido em “aprender brincando”, com grande ênfase no trabalho em grupo e no relacionamento social, além de respeitar a autenticidade, a espontaneidade e o modo de ser das crianças de cada faixa etária, as quais adoravam freqüentar essas escolas.

A etapa seguinte, correspondente ao primeiro grau, foi dividida em dois períodos de quatro anos. Um era voltado para crianças de sete a dez anos e outro para adolescentes de onze a quatorze anos. O primeiro período foi implantado no início do terceiro ano do governo de Olintho, também em período integral. Ele foi dividido em cursos voltados para atender alunos com tendências vocacionais focadas nas áreas de ciências exatas, humanas, biomédicas, sociais e artes em geral. Todos os cursos tinham um currículo padrão que incluía matérias como a matemática básica, conhecimentos de geografia e história, língua pátria, uma língua genérica como o esperanto, relações sociais, cidadania e conceitos legais, religiosidade ecumênica, ética e moral. Além delas, cada curso tinha outras matérias peculiares ao tipo de tendência vocacional a que se destinavam. As avaliações do aprendizado eram feitas durante as aulas e se os alunos fossem aplicados, ficavam dispensados das provas escritas periódicas e de final de ano letivo. As matérias peculiares de cada curso também tinham avaliações voltadas para confirmar ou reorientar as tendências vocacionais.

O segundo período de quatro anos não chegou a ser implantado em decorrência da grande transição. Ele seguia padrões semelhantes ao do período anterior e era composto por vários cursos em cada área vocacional, de maneira a permitir uma avaliação criteriosa das tendências de cada aluno. Tomando como exemplo a área de ciências exatas, ela foi dividida em áreas como a engenharia e esta, em cada um de seus cursos básicos, como civil, eletrônica, agronômica, química e mecânica. Nos dois últimos anos, depois de optar pelo tipo específico de carreira, o aluno teria uma grande concentração de matérias a respeito do curso escolhido, permitindo definir com precisão a continuidade dos seus estudos no segundo e no terceiro grau. O objetivo da reforma do ensino era formar cidadãos responsáveis e socialmente adaptados para trabalhar nas áreas em que demonstravam maior interesse, aptidão e prazer pessoal. Com isso, a sociedade contaria com pessoas melhores, mais produtivas e felizes, pois trabalhariam naquilo que mais gostavam.   

A área de saúde passou por uma completa remodelação, em continuidade aos trabalhos iniciados pela primeira junta de governo. No início do seu governo, Olintho tomou uma série de providências para recuperar todos os equipamentos inoperantes dos hospitais e postos de saúde, além de reforçar sua estrutura funcional e disponibilizar materiais e medicamentos necessários para aumentar e melhorar a qualidade do atendimento. Muitos hospitais e prontos socorros foram ampliados, reformados e reaparelhados, enquanto outros foram construídos em regiões carentes. Como já estava previsto no projeto das agrovilas, todas contavam com postos de saúde bem equipados e em condições de resolver os principais problemas de seus moradores.

Os convênios médicos foram reestruturados e muitos deles deixaram de existir, pois a saúde passou a ser encarada como um direito de cada cidadão e não como um negócio lucrativo. Todos os médicos e outros profissionais da área de saúde governamental passaram a dedicar três a quatro horas diárias para visitas e atendimento em escolas e nas residências, auxiliados por estudantes dos últimos anos dos cursos de enfermagem e de medicina. Essa iniciativa detectou e corrigiu, em conjunto com os hospitais, um grande número de problemas. No decorrer do terceiro ano do governo de Olintho, o nível de saúde da população melhorou bastante, não só em decorrência do novo modelo de saúde, mas também em função da melhoria da qualidade de vida e da alimentação da população. O nível de renda também aumentou significativamente, ao mesmo tempo em que as grandes safras agrícolas e o desenvolvimento da produção industrial baratearam os custos da cesta básica e de muitos outros produtos.

O grande conjunto de ações colocadas em prática pelo governo de Olintho desde os seus primeiros dias apresentava quatro características predominantes: eram simples, econômicas, rápidas e eficientes, destoando, de maneira positiva, de tudo que acontecia anteriormente. Além de ser um estrategista e administrador brilhante, Olintho era um incansável trabalhador que não temia desafios, além de ser intolerante com qualquer tipo de injustiça. Por outro lado, era extremamente paternal e generoso com relação a todas as questões voltadas para a melhoria da qualidade de vida e felicidade do seu povo, especialmente dos mais humildes. Se, no seu primeiro ano de governo prevaleceu o seu lado justiceiro e intransigente, o segundo evidenciou o grande estadista que era. Quando seus projetos desenvolvimentistas e sociais começaram a apresentar bons resultados e as agrovilas se multiplicaram e superam as expectativas iniciais, todos os seus detratores internos e externos se calaram, pois suas iniciativas chamaram a atenção da imprensa internacional e começaram a ser sistematicamente divulgadas, com grande destaque positivo.

Olintho, que já era admirado pelo seu povo, começou a ser também respeitado externamente, tanto pelos governantes, como pelas populações de vários países de todos os níveis de desenvolvimento e formas de governo. Com isso, aumentaram os convites para visitas oficiais a essas nações e muitos governantes visitaram o seu país e começaram a imitar seus métodos e a seguir o seu exemplo de retidão, justiça e dignidade. Até os dias que antecederam a grande transição, ele transformou, para melhor, todos os aspectos produtivos e sociais do seu país. O povo ficou muito mais fraterno, mais tolerante, menos egoísta e, principalmente, mais respeitador da lei e da ordem.

A população, especialmente a rural, se aproximou bastante do conceito da irmandade universal e da paternidade divina, um tema que Olintho nunca deixava de citar em muitos dos seus discursos. Como se já tivesse conhecimento da iminência da grande transição, nos seis meses anteriores à sua ocorrência e de maneira crescente, ele sempre reservava um espaço em seus pronunciamentos para transmitir orientações gerais à população e a esperança em um futuro ainda melhor. Apesar de não fazer nenhuma associação direta com aquele grande acontecimento, suas orientações facilitaram bastante os trabalhos realizados durante e após aqueles dias que modificaram o planeta, como relataremos a seguir.

OS INDÍCIOS DA GRANDE TRANSIÇÃO

As descrições a respeito daquele grande acontecimento planetário não objetivam causar medos nos leitores e sim relatar um acontecimento natural que ocorre em todos os planetas de grau evolutivo semelhante àquele em que Arret se encontrava no ano 1277 da Terra e que, em linhas gerais, equivale ao estagio da nossa civilização entre o limiar do ano 2000 e os 20 anos seguintes. A grande transição arretiana evidenciou uma das mais importantes faces da Justiça e do Amor Divino, pois seu grande objetivo foi separar o “o joio do trigo” e impulsionar a nova humanidade, constituída apenas pelo “trigo”, para um novo estágio evolutivo muito mais fraterno e feliz que o anterior. A separação foi baseada apenas nas qualidades positivas ou negativas que cada arretiano acumulou em seu coração durante o curso que realizou ao longo de várias vidas de lutas, aprendizados, sofrimentos e alguns momentos felizes. Também objetivou distribuir, com abundância, as dádivas que o Pai Celestial guardou como prêmio para seus filhos e filhas que passaram naquele exame de seleção que também é esperado para ocorrer em nosso planeta em um futuro próximo.

Esse exame é um pré-requisito para que os planetas de nível primário sejam elevados a um patamar superior, onde o sofrimento desaparece para dar lugar à fraternidade, à irmandade e à felicidade. Como qualquer exame, a transição planetária é incômoda e causa sofrimentos maiores ou menores a todos os habitantes do planeta. O grau de intensidade transformadora, ou de limpeza da estrutura planetária cristalizada e arcaica, é inversamente proporcional ao grau de conscientização dos seus habitantes com relação aos postulados da paternidade divina e da irmandade de todos os seres, ou em outras palavras, com relação ao “ama o próximo como a si mesmo”, ou ao “não faças aos outros o que não queres que façam para ti”. Quanto maior o nível de consciência da humanidade do planeta a esse respeito, menos dolorida será a transformação.

A evolução, ou o progresso, é um caminho natural em todos os reinos da natureza e áreas do conhecimento humano. Apesar de obrigatória, pode ser conquistada pelo amor ou pela dor. Infelizmente, a maioria dos habitantes dos planetas em situação semelhante a Arret da época e à Terra da atualidade, preferem o caminho da dor. Talvez seja por essa razão que esse tipo de acontecimento está exaustivamente alertado e previsto nos Evangelhos do Novo Testamento, no texto do Apocalipse, em livros sagrados de outras religiões, em diversas profecias registradas ao longo dos séculos e em inúmeros outros textos e artigos publicados nos últimos anos.

Conforme afirmamos acima, a transição planetária é um exame de seleção e, como tal, deve ser encarado com o mesmo empenho, esperança, naturalidade e também com os mesmos receios com que qualquer estudante encara o exame vestibular que abrirá as portas da faculdade e do curso para o qual se preparou ao longo de vários anos de estudos. Vale ressaltar que esse processo de preparação é intensificado durante o período pré-vestibular, onde o candidato é muito exigido para enfrentar o grande dia com maiores chances de sucesso. O que importa e conta no final, não é o custo, o desgaste e o sacrifício exigido na preparação para o exame vestibular. O que realmente importa e compensa qualquer sacrifício é o fato de ser aprovado e poder iniciar uma nova etapa da sua vida. No caso do exame planetário acontece a mesma coisa e, do ponto-de-vista espiritual, não é importante sobreviver ou morrer, pois todos morreremos um dia. O que realmente importa é passar no exame de seleção e adquirir o direito de receber o prêmio pelos vários milênios de estudos, sofrimentos, lutas, desgastes e aprendizados.

Quando o aluno enfrenta o exame vestibular com maior preparo e conhecimento a respeito das matérias e das regras de aprovação, suas chances de sucesso são maiores e seu sofrimento menor. Este livro foi escrito com o objetivo de fornecer uma idéia das matérias, do tipo de exame de seleção e do possível cenário da nova escola que aguarda os aprovados no vestibular que será realizado em nosso planeta nos próximos anos ou décadas, no dia e na hora que é apenas do conhecimento do Pai Celestial, para não alarmar seus filhos e filhas. É com esse enfoque que as descrições sobre a grande transição ocorrida em Arret devem ser encaradas. Devem ser vistas como um gabarito de um processo de seleção anterior, o qual servirá de guia para uma profunda reflexão sobre a vida que levamos e sobre os rumos que damos a ela, sobretudo, se estiver voltada apenas para a conquista de objetivos materiais, uma matéria dispensável, pois não será exigida para seleção da humanidade planetária.

A matéria que será exigida é muito simples de ser compreendida, pois o Pai Celestial não exigiria uma que não estivesse ao alcance de todas as pessoas, mesmo daquelas que nunca freqüentaram escolas, ou que vivem isoladas nos mais diversos recantos do planeta. Essa matéria é o amor incondicional e dela será exigido apenas um grau de conhecimento compatível com o estágio evolutivo da humanidade que vive em um planeta de nível primário, como é o caso da Terra. Será semelhante a uma prova de matemática voltada para avaliar apenas o conhecimento de suas quatro operações básicas. O Pai Celestial exigirá apenas que o coração de cada pessoa seja um terreno fértil para germinar a semente da paternidade divina, cuja árvore produzirá os frutos da irmandade e da fraternidade entre os povos, independente de cor, raça, credo religioso ou posição social, pois todos são frutos da mesma árvore e reconhecidos como tal, independente de seu tamanho, formato, composições peculiares de suas cores, ramo, altura ou local específico da copa onde se desenvolveram.

Reiterando aquilo que registramos acima, as descrições sobre a grande transição arretiana devem ser vistas como um guia, ou um gabarito do exame vestibular que se avizinha e que abrirá as portas de uma nova escola e de um novo modo de vida mais justo, fraterno e feliz. Por isso, procuramos descrevê-las com a maior fidelidade possível que pudemos captar dos documentários assistidos em Arret, conforme está registrado no Diário da Viagem. Muitas passagens podem chocar os leitores e leitoras, mas não poderiam ser omitidas ou apresentadas de maneira diferente, pois descaracterizariam aquele impressionante acontecimento, cujo grau saneador dos quatro elementos da natureza atingiu o máximo que a mente humana pode conceber.

Apesar das descrições sobre a grande transição enfocarem as horas da sua ocorrência de maior intensidade, ela se iniciou de maneira suave e quase imperceptível no decorrer dos vinte e cinco anos que a antecederam. À medida que o tempo avançava, o processo começou a se intensificar e apresentar um crescente aumento na quantidade, variedade, abrangência e poder destrutivo dos quatro elementos da natureza que, gradativamente, atuaram em todos os continentes. Nos meses anteriores, quase todos os países foram atingidos por um ou por vários deles, de diversos graus de intensidade, os quais ceifaram a vida de milhões de arretianos e causaram diversos graus de destruição em instalações físicas, na flora e na fauna.

Nos anos e meses finais, todos os tipos de representações das mais variadas correntes e tendências religiosas e filosóficas tiveram a oportunidade de se manifestar. Todas elas cumpriram o papel de levar as palavras de seus messias, profetas e mestres a todos os recantos do planeta. As editoras publicaram milhares de livros contendo profecias e informações a respeito da transição planetária, incluindo os escritos atribuídos a Ahelohim e a centenas de profetas e videntes que passaram pelo planeta.

Ao longo desse período e em continuação a uma longa série de guerras e revoluções, os conflitos se intensificaram em regiões onde sempre existiram e começaram em alguns lugares onde não eram comuns. Poucos países escaparam dos efeitos de algum tipo de guerra entre eles ou de uma revolução interna para derrubar o governo, como aconteceu no país de Olintho. O conceito de família se desestruturou nos países mais desenvolvidos, causando a diminuição dos casamentos e o aumento das separações conjugais. Apesar de limitados a poucos países e em nível bem inferior ao terrestre, esses fatores e outros modificaram as relações entre pais e filhos, criando uma juventude contestadora, a exemplo do movimento hippie de 1960.

A imprensa escrita, falada e televisionada nunca deixou de apresentar e comentar esses acontecimentos, além de dar grande destaque àqueles causados pela crescente ação dos elementos da natureza em todas as partes do planeta. Mesmo assim, a comunidade científica e a maioria da população não acreditaram na eminência daquele acontecimento. Quando os procedimentos da grande transição foram iniciados, todos foram pegos de surpresa e sem a menor idéia do que estava realmente acontecendo. Os diversos povos imaginavam que estavam envolvidos em um acontecimento local, como muitos que ocorreram nos meses e anos anteriores. Finalmente, vale ressaltar que, apesar da visão planetária daquele grande acontecimento e de muitos dos trabalhos realizados pelos espaciais, os relatos priorizam aquilo que aconteceu no país de Olintho e no continente onde ele se situava.

O INÍCIO DOS ACONTECIMENTOS

A convocação e o treinamento de voluntários

Cerca de duas semanas antes do início da grande transição e de maneira bastante discreta, os espaciais começaram a contatar moradores e moradoras dos centros urbanos e das zonas rurais com o objetivo de informá-los a respeito dos acontecimentos e motivá-los a participar como voluntários durante os trabalhos de resgate e outros que seriam realizados após aquele acontecimento. Essas pessoas representavam uma parte daquelas que acreditavam na sua ocorrência eminente, na existência dos amigos das estrelas e que, por diversos motivos, apresentavam condições ideais para se ausentarem durante os cinco dias anteriores ao acontecimento. Em sua maioria, eram pessoas de 40 a 60 anos de idade, constituídas por casais ou pessoas viúvas ou solteiras, todas sem filhos ou com filhos adultos e independentes.  

Utilizando diversos meios, todas foram avisadas para permanecerem em seus locais de origem ou para se dirigirem a pontos específicos em um determinado dia e horário, a fim de terem um contato físico com os seres espaciais e suas naves. Como a grande maioria estava apenas familiarizada com avistamentos na atmosfera, encararam o convite como uma oportunidade excepcional, pois iriam conhecer o interior de uma nave. Essas pessoas não foram informadas sobre os motivos reais da convocação, pois o comando da frota de apoio a Arret assim procedeu para não alarmá-las e para manter o mais absoluto sigilo sobre a eminência dos acontecimentos.

Em relação aos mais de 10 bilhões de habitantes da época, elas representavam uma pequena parcela da população arretiana, pois seu número girava em torno de 23 milhões.  Eram pessoas oriundas de todos os locais do planeta e, no dia e horário combinado, foram recolhidas por uma infinidade de pequenas naves e levadas para outras maiores que representavam cada pais, com o pretexto de conhecerem uma nave-mãe e outras pessoas que receberam o mesmo tipo de convite. Essas grandes naves tinham porte e acomodações para todos os convidados e, conforme chegavam, foram divididos em grupos representativos de um mesmo estado ou região e levados para salas de treinamento que nelas havia. Lá foram informados sobre a eminência dos acontecimentos e como poderiam colaborar, se assim o desejassem, pois ninguém estava obrigado a participar da operação.

Algumas pessoas desistiram por diversos motivos e logo foram liberadas e reconduzidas aos respectivos locais de origem com a promessa de guardarem segredo total sobre os acontecimentos. Cerca de 22 milhões de voluntárias e voluntários se comprometeram a participar da operação e lá permaneceram com a finalidade de receber o treinamento necessário para colaborar nos trabalhos de resgate e acomodação de um terço da população que sobreviveria aos acontecimentos. Esse percentual, com pequenas variações, representava um padrão universal e aplicável a todos os planetas de nível primário, cuja humanidade apresentava as mesmas características morais, espirituais e de conscientização presentes no conjunto do povo arretiano.

O treinamento foi iniciado na manhã seguinte e se estendeu por três dias. Ele começou com uma visão geral dos acontecimentos previstos, realizada através de projeções holográficas que simulavam os diversos tipos de ações destrutivas dos elementos da natureza programadas para ocorrer em cada região ou local específico do planeta. As imagens, quase reais, causaram um choque inicial em todos os grupos, pois superavam suas expectativas com relação ao grau de destruição física das mais diversas edificações e instalações planetárias. Porém, todos reagiram bem e ninguém desistiu do compromisso, pois eram seres cujos espíritos estavam preparados e qualificados para aquele tipo de operação. Durante esses dias, todos receberam informações detalhadas sobre os trabalhos que realizariam, os cuidados necessários, os equipamentos e recursos de alta tecnologia que teriam à disposição e sobre as quantidades de pessoas que seriam resgatadas em cada uma das fases que dividiram a grande operação.

Dentre os trabalhos programados, o primeiro deles exigia uma ação rápida e objetiva dos grupos de voluntários e referia-se à montagem parcial dos núcleos de sobrevivência para abrigar cerca de 500 milhões de pessoas que seriam resgatadas antes do início dos acontecimentos. Elas seriam abrigadas em 733.000 núcleos de sobrevivência espalhados por todos os países e locais do planeta. Para realizar essa grande tarefa em poucas horas, contariam com diversos materiais e equipamentos de alta tecnologia, além do apoio de uma nave e de sete espaciais, os mesmos que treinaram cada grupo de 30 voluntárias e voluntários encarregados da montagem parcial de cada núcleo. 

A montagem dos núcleos de sobrevivência

Cada grupo foi transferido para uma nave de apoio entre 6 a 12 horas antes do início dos resgates e cada nave também transportava os materiais e equipamentos necessários para a montagem do núcleo de sobrevivência, além de alimentos, vestuários e artigos de higiene e de limpeza para atender todos os sobreviventes que seriam abrigados no decorrer das demais fases de resgate. Metade dos núcleos seria instalada em locais isolados e o restante nas áreas rurais de povoados e pequenas cidades. Como a instalação de cada núcleo precisava ser realizada sem ser detectada pelas autoridades locais e sem levantar suspeitas dos moradores próximos, o trabalho foi planejado para ser executado durante a noite anterior à grande transição ou a poucas horas antes do início dos acontecimentos.

Muitos grupos dispunham de menos de cinco horas para realizar o trabalho e, apesar disso, todos estavam otimistas e confiantes, pois as simulações realizadas durante os treinamentos indicavam que, mesmo nos locais mais difíceis, os trabalhos poderiam ser concluídos em até quatro horas. A façanha somente era possível em função dos materiais e equipamentos disponibilizados pelos espaciais, projetados especialmente para situações como aquela. Todos os 733.000 grupos concluíram os trabalhos com a antecedência necessária e o objetivo inicial foi plenamente atingido. Além dos materiais e equipamentos apropriados e da boa vontade de todos, cada grupo de 30 voluntários e 7 espaciais se dividiu em várias equipes para realizar os trabalhos iniciais e se recompuseram algumas vezes ao longo do tempo que gastaram para montar cada núcleo, conforme descreveremos a seguir.

Nas horas anteriores ao início dos trabalhos dos grupos de voluntários, um grande conjunto de naves e de espaciais preparou e nivelou os terrenos necessários para montar as acomodações familiares, banheiros e sanitários, além daqueles destinados ao estacionamento da nave de apoio e de outras que seriam acrescidas no decorrer das operações. Os trabalhos dos voluntários foram iniciados com a perfuração dos poços de água potável e, conforme a vazão de cada um deles, perfuraram um ou mais com diâmetro de uns 20 centímetros e profundidades que variavam de 20 a mais de 100 metros. Cada um foi perfurado em poucos minutos por um equipamento especial, independente do tipo ou dureza do terreno.

Em cada um deles foi instalada uma bomba e a tubulação para levar a água até um reservatório primário. Em seguida, cada furo foi lacrado com uma espuma que adquiria rigidez e a flexibilidade da borracha em alguns minutos. O reservatório primário foi instalado em um local elevado das proximidades e, quando o terreno era plano, em uma plataforma que utilizava o mesmo princípio de sustentação das naves. Ela alimentava as caixas de água quente dos banheiros e a rede de água fria dos lavatórios, chuveiros, sanitários e torneiras de água potável. A rede de água utilizava “mangueiras” flexíveis fabricadas com um material fino e resistente parecido com o nylon. Essas “mangueiras” adquiriam rigidez alguns minutos depois de receber água e podiam ser moldadas à vontade, permitindo fazer curvas e enterrá-las nas valetas previamente abertas por um equipamento que cortava a terra e as pedras como se fossem gelatinas e distribuía os materiais nas laterais. Todas as conexões eram rígidas e soldadas nessas “mangueiras” com uma cola própria.

Os banheiros tinham o formato de um iglu e apresentavam quatro divisões internas em formato de cruz. Em duas delas havia um vaso sanitário, na terceira um chuveiro e na quarta, dois lavatórios com espelho. Cada um era instalado sobre um buraco com 70 centímetros de diâmetro e de três a sete metros de profundidade, conforme a porosidade do terreno. O buraco era revestido com anéis perfurados, constituídos por um material plástico tão resistente quanto o aço. Havia três desses iglus para atender doze outros dispostos em círculo em volta deles, destinados às acomodações familiares. Os chuveiros e os lavatórios contavam com água quente proveniente de uma caixa que atendia os banheiros e lavatórios de cada iglu. Ela era aquecida por um equipamento que utilizava um “motor” alimentado por qualquer tipo de matéria sólida, incluindo pedras. O material e forma de montagem desses iglus e dos respectivos equipamentos de iluminação, purificação do ar e condicionamento interno, seguia o mesmo padrão das acomodações familiares, descritas mais abaixo.

Assim que concluíram a instalação dos banheiros necessários para atender todas as pessoas que seriam resgatadas durante a primeira operação, 16 dos 30 voluntários foram teletransportados para as naves que aguardavam o início da operação de resgate, pois iriam colaborar nos trabalho de recepção dessas pessoas. Alguns que apresentavam um perfil apropriado foram deslocados para grandes naves que abrigariam os governantes e autoridades de cada país. Coube aos demais voluntários e aos sete espaciais concluir a montagem das acomodações familiares para abrigar as pessoas que seriam resgatadas e desembarcadas nas horas seguintes.

Como os banheiros e sanitários, as acomodações familiares tinham as mesmas cores e o formato de um iglu. Eles não apresentavam divisões internas e podiam abrigar, confortavelmente, de 4 a 8 pessoas, conforme o seu diâmetro. Sua cor externa era o amarelo com quatro largas faixas azuis que se cruzavam no teto. A parede interna apresentava uma suave tonalidade rosa e o piso o mesmo padrão externo. Todos os iglus eram confeccionados com um material plástico e flexível que, ao ser inflado com uma espuma especial, seu piso apresentava uma espessura de uns vinte e cinco centímetros e a parede uns dez centímetros a menos. Em poucos minutos todo o conjunto adquiria a rigidez de um colchão de espuma de alta densidade, além de apresentar um excelente isolamento térmico e acústico.

Antes da montagem, cada iglu formava um pequeno pacote e sua instalação era muito simples e rápida. Bastava tirar o lacre do pacote, engatar um cilindro metálico no conector do piso e abrir a válvula que, em poucos segundos, ele ficava cheio e em condições de ser fixado no solo com pinos próprios e por uma máquina especial, pois iria resistir a fortes ventos durante a grande transição. O mesmo cilindro era utilizado para encher a parede e, no caso dos banheiros, suas divisões internas. Todos tinham uma abertura para entrada e saída sob pressão e um compacto e revolucionário equipamento de múltiplas funções.

Ele era responsável pela iluminação, renovação, purificação do ar e manutenção da temperatura interna estável e no nível de conforto definido pelo usuário, dispensando o uso de cobertores até nas regiões mais frias. Esse equipamento era instalado em um orifício circular no centro do teto e tinha um “motor” inaudível, não poluente e autonomia para mais de 15 dias de uso contínuo, além de alimentar o intercomunicador de voz e imagem que havia em todos os iglus, o qual permitia a comunicação entre eles e com a nave de apoio. Quando esse trabalho foi concluído, cada núcleo de sobrevivência ficou pronto para receber as pessoas que seriam resgatadas antes do início dos acontecimentos. Os 14 voluntários e os sete espaciais que permaneceram em cada local se recolheram na nave de apoio para preparar o esquema de recepção e treinamento do primeiro grupo de resgatados, cujos componentes se juntaram a eles para concluir os trabalhos de montagem das acomodações necessárias para abrigar as demais pessoas que seriam resgatadas após o início da grande transição, nas horas e dias seguintes. 

Os resgates que antecederam a grande transição

Essa grande operação envolveu o resgate de 500 milhões de pessoas e foi muito bem planejada e executada durante as três horas que antecederam o início dos acontecimentos. Seus componentes espalhavam-se por todos os países e pertenciam às mais variadas raças, classes sociais e formações religiosas. Nesse grupo havia muitos dos familiares, parentes e amigos dos voluntários iniciais e cerca de cinco milhões de autoridades constituídas por governantes de países e de estados, dirigentes militares e altos membros do poderes legislativo e judiciário, além de muitos de seus auxiliares e familiares. Todas essas pessoas foram selecionadas por diversos motivos e, principalmente, pelo fato da maioria delas apresentar um bom nível de conscientização e de evolução espiritual.

Para localizá-las as naves dispunham de um extraordinário equipamento que detectava o local onde cada uma delas se encontrava par ser resgatada, pois todas ignoravam o que estava por acontecer. Esse equipamento tinha um conjunto pré-definido de características do corpo astral de cada uma delas e, quando havia sintonia, o equipamento definia as coordenadas do local do resgate e guiava a nave até ele, como se a pessoa fosse um sinalizador específico. Cada nave trabalhava com os dados de várias pessoas e de seus prováveis paradeiros, formando um roteiro específico que facilitava o resgate de uma quantidade maior em um tempo menor. Conforme as naves se deslocavam ao longo do roteiro e detectavam o local onde essas pessoas se encontravam dormindo ou acordadas, elas se posicionavam no ponto mais apropriado para atingi-las com seus raios transportadores que atuavam seletivamente e transportavam apenas a pessoa cujas características coincidiam com os registros do equipamento de detecção. Esses raios eram um feixe de luz de baixa intensidade que anulava a gravidade e trazia a pessoa para o interior da nave, do jeito em que cada uma se encontrava.

Para que todos fossem resgatados da maneira mais rápida e eficiente possível, essa operação contou com recursos especiais de indução de comportamento e direcionamento dos resgatados para os locais onde poderiam ser atingidos pelos raios transportadores. Apesar dos espaciais terem o máximo respeito pelo livre-arbítrio, a utilização desses recursos foi plenamente justificada, pois objetivava preservar a integridade física e emocional dessas pessoas. Mesmo assim, os trabalhos apresentaram várias dificuldades para resgatar o grupo final, composto por umas 10 milhões de pessoas que estavam acordadas e dispersas pelos mais diversos pontos das cidades e locais onde residiam, estudavam ou trabalhavam. Geralmente, a mãe estava em casa, os filhos na escola e o pai no trabalho. Além disso, todos os resgates deveriam ser realizados sem denunciar a presença dos seres espaciais e de suas naves, para não gerar tumultos ou situações de difícil controle.

Para evitar ou minimizar esses problemas e garantir o sucesso da operação, o comando da frota de apoio a Arret, com o apoio da Hierarquia Espiritual Arretiana, decidiu atuar no corpo vital de todas as pessoas e provocar uma leve indisposição naquelas que seriam resgatadas à noite e uma com sintomas de desarranjo intestinal e febre naquelas cujos resgates ocorreriam durante as diversas horas do dia. Esses procedimentos garantiram a permanência de quase todos em suas residências e permitiram que seus resgates fossem efetuados em pouco mais de duas horas. Aqueles que envolveram moradores das zonas rurais e das pequenas cidades foram realizados, com raras exceções, em pouco mais de uma hora, liberando uma grande quantidade de naves para agilizar a etapa seguinte, pois ainda restavam cerca de 10 milhões de pessoas que, mesmo “doentes”, resolveram continuar com suas atividades normais pelos mais variados motivos. Mesmo assim todos os resgates foram concluídos a tempo e alguns a poucos minutos do início dos acontecimentos. Para entender o planejamento e a complexidade dos trabalhos realizados pelos espaciais, vamos detalhar os pontos relevantes dessa operação.

Os resgates foram iniciados com o recolhimento da grande maioria que permaneceu em suas residências e utilizaram dois recursos facilitadores. As pessoas que estavam dormindo foram as primeiras, pois seus espíritos estavam livres e em contato com os membros da Hierarquia Espiritual Arretiana. Eles induziram seus corpos a apresentar um comportamento sonâmbulo e foram levados a portas, sacadas e quintais, onde foram atingidos pelos raios transportadores. Essas pessoas foram despertadas no interior das naves e informadas pelos voluntários a respeito dos acontecimentos. Depois receberam roupas especiais e foram acomodadas em ambientes onde aguardaram a chegada de parentes, amigos e outros resgatados. Com aqueles que estavam acordados e em suas casas, os espaciais utilizaram “bolas” flutuantes, cujas cores, luzes e sons induziam essas pessoas a se dirigirem a locais propícios para serem atingidas pelos raios transportadores. As pessoas ficavam curiosas e seguiam essas “bolas” como se estivessem hipnotizadas. No final dessas duas etapas foram resgatadas cerca de 490 milhões de pessoas e, apesar do susto inicial e dos receios naturais que todos manifestaram, foram mínimos os problemas de comportamento físico ou emocional.

Antes de iniciar a etapa final, as famílias completas e as pessoas cujos familiares não faziam parte daquela operação foram levadas e desembarcadas nos núcleos de sobrevivência, onde receberam novas informações e se integraram nos trabalhos de montagem dos iglus para abrigar os sobreviventes que seriam resgatados nas horas e dias seguintes. As autoridades foram desembarcadas em naves de porte suficiente para abrigar esses representantes de cada país grande ou pequeno. Permaneceram nas naves somente os familiares daqueles que seriam resgatados antes do início da grande transição. Esse procedimento  tranqüilizou os familiares e facilitou os resgates das demais pessoas que estavam dispersas pelos mais diferentes locais, trabalhando, estudando ou realizando alguma atividade em lojas, prédios, fábricas ou outros pontos de grande adensamento populacional.

Inicialmente foram resgatadas as pessoas que andavam pelas ruas ou se encontravam em locais que permitia serem atingidas pelos raios transportadores. Para aquelas que trabalhavam em salas ou em ambientes menos movimentados, os espaciais utilizaram as ”bolas flutuantes” para transmitir imagens e mensagens de seus familiares, convidando-as a se posicionarem em locais onde podiam ser atingidas pelos raios transportadores. Quando essa tentativa falhava, utilizavam os recursos de hipnose e de controle mental daquelas incríveis “bolas” que podiam ficar visíveis ou invisíveis. As naves também podiam ficar visíveis ou não e todos os resgates efetuados até aquele momento foram realizados sem denunciar suas presenças, a não ser para pessoas que tinham vidência espiritual. O mesmo acontecia com o feixe de raios transportadores e com as pessoas resgatadas. Elas desapareciam de onde estavam e suas ausências podiam ser explicadas por diversos motivos. Esses cuidados evitaram especulações, tumultos e outras situações, além de manter o planeta alheio ao grande acontecimento que estava para ser desencadeado.

Restando menos de uma hora para o seu início, havia ainda quase três milhões de pessoas para serem resgatadas. Para concluir o trabalho no prazo previsto, os espaciais tornaram suas naves visíveis, especialmente nos locais com grande número de pessoas, pois havia um objetivo adicional a ser alcançado. Pretendiam tirar o maior número possível delas dos prédios e do interior de grandes edificações, para diminuir a quantidade de óbitos, de ferimentos e facilitar os resgates seguintes. Os avistamentos de naves levou milhares de pessoas para as ruas e locais abertos, pois, apesar de não ser um fato incomum, elas nunca tinham sido observadas em tantos locais ao mesmo tempo, conforme os meios de comunicação começaram a noticiar.

A natural curiosidade impediu que milhares de pessoas sofressem graves ferimentos e outras conseqüências quando os primeiros terremotos foram sentidos nos minutos seguintes. Com isso, quase todos foram resgatados em menos de meia hora, restando ainda umas 150 mil pessoas, quase todas compostas por autoridades governamentais e membros das forças armadas. Para concluir esses resgates, foram utilizados todos os recursos anteriores, acrescidos de pousos e chamadas nominais feitas por familiares que se encontravam no interior das naves. Cerca de 100 mil naves pousaram nos mais diversos locais das maiores cidades do planeta e deixaram muitas pessoas curiosas a respeito do que estava acontecendo, pois viam os resgatados entrando na nave e, em muitos casos, os seus familiares.

Apesar do sucesso da operação, ocorreram pequenos problemas sem maiores conseqüências, especialmente durante os resgates realizados em quartéis. Os soldados geralmente disparavam contras as naves e como o seu campo de forças resistia a explosões e impactos de alta intensidade, não causaram nenhum tipo de dano. Também ocorreram casos de perseguições por aviões militares, disparos de mísseis e até choques de aviões no escudo protetor das naves, principalmente das maiores que estavam estacionadas e invisíveis sobre os grandes centros urbanos.

O aparecimento dessas naves em quase todas as cidades do planeta foi filmado e noticiado pelos canais de televisão. Alguns também vinham noticiando o desaparecimento de pessoas nos últimos dias, pois uma parte dos voluntários iniciais estava sendo procurada por amigos e familiares. Mesmo com essa cobertura corroborada pelas observações realizadas por milhões de pessoas em todos os recantos do planeta, não houve tempo suficiente para uma análise daquilo que realmente estava ocorrendo, pois a grande transição surpreendeu a todos. Antes de relatar as ações dos quatro elementos da natureza e os acontecimentos posteriores, vamos fornecer uma idéia geral do que aconteceu nos núcleos de sobrevivência e no interior das naves onde foram abrigados os governantes e outras autoridades.

O abrigo dos primeiros resgatados

Cada núcleo de sobrevivência foi inicialmente instalado por 7 espaciais e 30 voluntários. No início da operação acima descrita, lá permaneceram 14 voluntários e os demais foram transferidos para as naves de resgate ou para aquelas destinadas às autoridades. Quando foram concluídos os desembarques, a população média de cada núcleos de sobrevivência se elevou para quase 700 pessoas sem causar o menor tipo de problema, pois tudo foi cuidadosamente planejado pelo comando da frota de apoio a Arret. Isso também aconteceu em função dos cuidados com a montagem das acomodações e pelo comportamento dos resgatados, pois o respeito, a tolerância e a boa vontade sobressaíram nos relacionamentos. A poucos minutos do início dos acontecimentos havia pessoas de todas as posições sociais, raças, credos e profissões trabalhando na montagem final dos iglus e convivendo em total harmonia. Esse grande grupo, formado por aqueles que foram resgatados, pelos voluntários e espaciais que permaneceram nos núcleos de sobrevivência era constituído por pessoas com maior nível de conscientização espiritual e, portanto, dotadas de maior discernimento quanto à gravidade daquele momento que exigia a união de todos.

Os resgatados começaram a chegar aos núcleos de sobrevivência quando faltavam menos de três horas para o início dos acontecimentos e, em função das informações recebidas no interior das naves, estavam confiantes e motivados para o trabalho. A maioria formava famílias completas, compreendendo o casal e seus filhos, além de outros parentes e amigos resgatados pela mesma nave. Assim que desembarcaram foram reunidos em pequenos grupos e receberam uma série de informações complementares. Em seguida, cada família foi alojada em um iglu apropriado e depois, os homens adultos e aptos auxiliaram nos trabalhos de montagem de novos iglus para receber os sobreviventes que seriam resgatados após o início da grande transição.

Enquanto isso, as mulheres receberam novas mudas de roupas especiais, alimentos e artigos de higiene e limpeza necessários às respectivas famílias. Também receberam instruções sobre a melhor maneira de utilizar cada item e sobre os cuidados a serem observados durante os sete dias seguintes. As roupas eram constituídas por conjuntos de duas peças, sendo uma blusa com mangas compridas e uma calça com meias, além de um mocassim para saídas do iglu. Os alimentos, apesar de diferentes, eram saborosos, nutritivos e de preparo, ingestão e digestão muito fácil e rápida. Eram constituídos por pós e grânulos solúveis em água quente ou fria, apresentados em seis sabores que podiam ser utilizados individualmente ou combinados entre si. Dois eram adocicados e imitavam uma vitamina de frutas. Os demais eram salgados e constituíam uma sopa cremosa. Além deles, havia bolachas e biscoitos salgados e doces, além de sucos naturais em pó e solúveis em água.

Dentre os resgatados havia um grupo de cinco milhões de pessoas constituídas por muitos governantes de países e estados, além de vários dirigentes militares e membros dos poderes legislativo e judiciário, incluindo alguns de seus auxiliares diretos e respectivas famílias. Exceto os governantes, os demais componentes desse grupo representavam um quinto das pessoas que tinham cargos semelhantes em todo o planeta. Todos eles foram abrigados em 450 naves médias ou grandes, representando cada um dos países, ilhas e territórios independentes que lá havia. Cada nave comportava grupos de 500 a 25.000 pessoas, conforme o porte do país e quantidade de pessoas já resgatadas e a serem resgatadas nas demais operações.

Os critérios adotados com essas pessoas foram diferentes daqueles aplicados aos demais resgatados em razão de um relevante motivo. Apesar da maioria dessas pessoas apresentar um nível de conscientização abaixo do mínimo exigido por aquela operação e semelhante ao de muitas daquelas que seriam envolvidas pelos acontecimentos nas horas seguintes, havia a necessidade de preservar uma parte da estrutura de poder vigente no planeta, para facilitar a normalização da vida planetária após a grande transição. Para isso, essas autoridades necessitavam de um choque que pudesse despertá-las para um novo modo de vida, representado pela visão daquilo que iria acontecer e que, de alguma forma, elas eram as principais responsáveis. Esperava-se com isso, que elas se questionassem quanto à maneira como sempre agiram, entendessem as causas da grande transição e pudessem colaborar efetivamente nos trabalhos que seriam realizados nas semanas, meses e anos seguintes.

A tripulação dessas naves era constituída por espaciais com grande experiência em questões governamentais, além de alguns voluntários iniciais que tinham esse perfil e seus familiares. Essas autoridades foram abrigadas com seus familiares, especialmente, quando tinham filhos menores ou solteiros. Conforme elas eram desembarcadas nas médias e grandes naves, eram informadas sobre a eminência dos acontecimentos e sobre os motivos de estarem naquele ambiente. Muitas não acreditaram nas informações recebidas e se revoltaram com o procedimento adotados pelos espaciais e voluntários, comparando-o a um seqüestro. Algumas fizeram exigências ou ameaças e só não criaram maiores problemas porque os espaciais tinham meios de controlá-las a nível mental e, em casos extremos, com raios paralisantes e procedimentos de sedação. Por outro lado, várias agiram com naturalidade e ajudaram a resolver muitos problemas iniciais.

Olintho foi o principal deles, não só por ter pressentido e preparado seu povo para enfrentar os acontecimentos, como pelo respeito que todos tinham por ele. Por isso, ele foi muito acionado pelos espaciais para conversar com os revoltosos através de telões de videoconferência e ajudou a acalmar a maioria deles. Mesmo assim precisou ser teletransportado para algumas naves onde a situação estava crítica e havia um número maior de insatisfeitos. Apesar das intervenções de Olintho e de outros governantes, os espaciais tiveram que paralisar ou sedar vários deles e outras autoridades até o início dos acontecimentos. Quando o ambiente ficava calmo, ou a situação se normalizava em cada nave, os familiares eram acomodados em locais de descanso ou de lazer, semelhantes às salas do horto e das Águas descritas no Diário da Viagem, onde foram preservados das impressionantes imagens que os acontecimentos iriam proporcionar.

A pouco mais de meia hora do início da grande transição, quando quase todos os resgates haviam sido efetuados, os presidentes, governadores, comandantes militares, dirigentes de casas legislativas e de cortes de justiça superiores foram separados dos demais e levados para salas especiais onde receberam outras informações sobre os acontecimentos e seus motivos. Lá acompanharam o final daquela operação e o desenrolar dos acontecimentos desencadeados nas horas e dias seguintes. Os dirigentes de escalões inferiores foram agrupados em outras salas onde receberam idênticas informações e contaram com as mesmas facilidades para acompanhar a grande transição.

Cada nave foi posicionada sobre o ponto de maior adensamento predial da capital do país correspondente a cada uma delas, para que as governantes pudessem vê-las ainda intactas e acompanhassem a ação dos elementos da natureza e os trabalhos de resgate dos sobreviventes. Logo começaram a visualizar os efeitos ainda pouco destrutivos dos elementos e muitos reagiram como se estivessem assistindo a um filme, pois não acreditavam que aquilo que os espaciais anunciaram estava acontecendo. Alguns imaginaram que eram eles que comandavam a ação destrutiva dos elementos da natureza. Como os espaciais captavam facilmente os pensamentos de todos, forneciam os esclarecimentos necessários antes de serem perguntados a respeito, o que deixava muitas dessas pessoas sem saber o que pensar ou como agir.

Durante a hora inicial dos acontecimentos, as naves sobrevoaram outras cidades e locais atingidos, além de alguns núcleos de sobrevivência. Apesar do nível de destruição moderado que caracterizou a primeira hora da grande transição, várias autoridades passaram mal e tiveram de ser socorridas. Em seguida, juntamente com a continuidade e aumento gradativo do nível de destruição, acompanharam, através de telões, os resgates de uma grande quantidade de sobreviventes e também viram imagens da recepção, triagem e encaminhamento dos sobreviventes que ocorria no interior de outras grandes naves. Com o passar do tempo e com a intensificação do poder destrutivo dos elementos da natureza, muitas autoridades não conseguiram observar as cenas mais chocantes, principalmente aquelas ocorridas nas cidades litorâneas, as quais foram “varridas do mapa” por ondas gigantes, conhecidas como tsunames.

Mesmo abatidos ou com sono, pois muitos foram resgatados assim que adormeceram, a grande maioria permaneceu nas salas por longas horas, com pequenas interrupções para refeições e conversas com seus familiares. Assim acompanharam todos os resgates, a transferência e a acomodação das pessoas nos núcleos de sobrevivência ou nos hospitais das grandes naves, além dos trabalhos de apoio às pequenas cidades e agrupamentos rurais. Após o início da grande operação de resgate de sobreviventes nos escombros das grandes cidades, todos foram convidados ou convencidos pelos voluntários e pelos espaciais a tomar banho, mudar de roupas, se alimentar e descansar por algumas horas, pois aquela operação iria se prolongar por vários dias.

Em poucas horas, a maioria das autoridades de todos os níveis mudou completamente o seu equivocado comportamento e modo de pensar anterior. Elas começaram a se penitenciar por vários erros que cometeram e começaram a agradecer e a respeitar os espaciais pelo trabalho que realizavam para socorrer os povos de seus países. O exemplo de dedicação e desprendimento dos amigos das estrelas soava como uma acusação contra eles e seus atos no exercício do poder. Vários reconheceram publicamente seus erros, se comprometeram a corrigi-los e começaram a solicitar conselhos dos espaciais durantes as longas horas de acompanhamento das diversas operações realizadas. As interrupções ocorriam somente nos horários programados para banho, refeição e descanso do corpo. Muitos não conseguiam dormir por mais de três a quatro horas e quase todos tinham pesadelos horríveis, tamanho o impacto que as imagens causavam em seus espíritos, principalmente, nos dirigentes de países que tinham alto índice de concentração urbana e um menor percentual de sobreviventes.

Essa rotina de observações, intervalo para refeição, descanso e conversas com os espaciais e com os voluntários se prolongou até o final do sétimo dia, quando começaram as reuniões de trabalho. Durante esses dias, todos apresentaram um grau crescente de conscientização a respeito dos acontecimentos e das atividades que deveriam realizar, pois não mais contariam com as mordomias e as estruturas a que estavam acostumados. Com isso, começaram imaginar novos modelos e padrões de gestão com enfoque comunitário, pois entendiam que não haveria outra maneira de sobrevivência em meio a uma estrutura planetária completamente destruída.

AS AÇÕES DOS QUATRO ELEMENTOS DA NATUREZA

Desde alguns anos os cientistas vinham detectando pequenas alterações na posição do eixo planetário. Porém, suas causas, efeitos e conseqüências sempre foram interpretadas de maneira incompleta e incorreta, pois julgavam que a verticalização ocorreria suavemente e o processo total demoraria centenas ou milhares de anos. Naquele dia marcado pela justiça divina para o exame de seleção da população do planeta, eles e quase todos os demais habitantes foram pegos de surpresa. Entre uma noite de lua cheia e a manhã de um dia equivalente a uma sexta–feira, quando os raios da estrela Alnilam começavam a iluminar o país de Olintho, uma seqüência de terremotos e tsunames foram desencadeadas pelas forças cósmicas em vários locais do planeta. Esse fato motivou uma ação crescente e devastadora dos quatro elementos da natureza: o fogo, a terra, a água e o ar, representados, respectivamente, pelos vulcões e incêndios urbanos e florestais, pelos terremotos, pelos maremotos ou tsunames e pelos furacões, tornados, chuvas, tempestades e ventanias de alta velocidade. As ações desses elementos ultrapassaram todos os limites até então conhecidos pela ciência arretiana.

Os vulcões apresentaram duas variações básicas. Uma representada pelas suas elevações características em formato de cone e a outra por fendas abertas pelos terremotos de média ou grande intensidade. Essas elevações e fendas expeliram um grande volume de lavras e, juntamente com os incêndios urbanos e florestais, lançaram uma grande quantidade de gases tóxicos, cinzas, fumaças e outros poluentes na atmosfera. Em conjunto com as poeiras provocadas pelos terremotos e movimentadas pelos ventos de média ou alta velocidade, escureceram gradativamente a atmosfera, impediram totalmente a passagem da luz da estrela Alnilam e provocaram uma noite glacial que durou uns três dias e causou drásticas quedas de temperatura até nas zonas tropicais. O ar ficou irrespirável em quase todas as regiões do planeta e sem condições para manutenção de qualquer tipo de vida animal ou humana durante esses dias. Apesar dos representantes do elemento fogo ter causado pouca destruição na estrutura planetária, se comparados com os terremotos e tsunames, eles contribuíram decisivamente para elevar o número de mortes de seres humanos e para a extinção de quase todos os animais, répteis, pássaros e insetos que não foram previamente preservados.

Os terremotos representaram o maior e mais abrangente dos poderes destrutivos que atuaram nas áreas interiores dos continentes. Todas elas foram atingidas por sismos de várias intensidades incluindo os dois continentes polares, onde desestruturaram suas geleiras, provocaram grandes avalanches e aceleraram a elevação do nível dos mares nos dois meses seguintes. Os terremotos foram os primeiros que se manifestaram no início dos acontecimentos e começaram a ser sentidos de maneira cada vez mais abrangente e com poder destrutivo crescente em todo o planeta. Em pouco mais de três horas fizeram tal devastação que não ficou em pé uma única edificação com dois ou mais andares ou o seu equivalente em altura.

Os de maior intensidade provocaram ondulações em boa parte da crosta planetária e se propagaram em ondas concêntricas e decrescentes a partir do seu epicentro, derrubando ou abalando seriamente as edificações, pontes, estradas e outras coisas que encontraram em seu caminho, incluindo elevações naturais de maior ou menor altitude. Muitos lugares onde os abalos foram fracos ou moderados durante a primeira hora, voltaram a ser atingidos posteriormente por terremotos de maior poder destrutivo. Eles também abriram extensas e profundas fendas que engoliram prédios e outras edificações das áreas mais adensadas das grandes cidades. De muitas delas jorraram lavras vulcânicas ou lençóis de água subterrânea de grande volume, semelhantes aos tsunames que ocorreram nas costas marítimas. Alguns desses lençóis foram tão volumosos que destruíram completamente várias pequenas cidades e povoados do interior dos continentes.

Os maremotos, com suas ondas gigantes, ou tsunames, geraram as imagens mais impressionantes e indescritíveis da grande transição. As suas ocorrências, isoladas ou combinadas com terremotos ou outros agentes que atuaram no mesmo local, apresentaram um altíssimo poder destrutivo que atingiu quase todas as cidades litorâneas e uma boa parte daquelas localizadas no interior dos continentes, situadas em locais de baixa altitude e a dezenas de quilômetros das costas. Quase todas as cidades litorâneas foram completamente arrasadas e, literalmente, “varridas do mapa”. Nesses locais o nível de sobrevivência tendeu a zero ou foi muito baixo, aumentado ou diminuindo, conforme a altitude e distância que se situavam da costa e a altura e extensão das ondas que as atingiram. Nos momentos de maior intensidade dos acontecimentos, muitas grandes e pequenas cidades litorâneas foram atingidas por tsunames com mais de 100 metros de altura, incalculável volume de água, grande velocidade de propagação a partir do epicentro do terremoto que o gerou e uma força de arrasto descomunal, pois tinham dezenas e até centenas de quilômetros mar adentro e o mesmo tanto de largura. Ao contrário das ondulações dos terremotos, essas ondas aumentavam sua altura conforme se distanciavam do epicentro e se aproximavam da costa.

Geralmente, as ações dos tsunames eram precedidas por um recuo do mar que encalhava ou arrastava todas as embarcações ancoradas ou que navegavam no local. Com isso, aumentavam a largura ou criavam uma praia com um ou vários quilômetros mar adentro. Em seguida a onda avançava e aumentava sua altura conforme se aproximava da costa e, ao atingir o continente, arrancava e arrastava todas as edificações, veículos e outras coisas existentes em seu longo caminho, inclusive, rebaixando muitas elevações naturais. Quando se chocavam com montanhas mais altas e resistentes, provocavam grandes estrondos e novas ondas que, geralmente, cobriam e ultrapassavam ou rebaixavam essas elevações e continuavam invadindo as áreas interiores. No seu percurso, alagavam bacias de baixa altitude a dezenas de quilômetros da orla marítima.

Os grandes prédios eram facilmente derrubados pela força de impacto dessas ondas e também por um efeito “dominó”. Geralmente, eles eram arrancados com seus alicerces e arrastados como se fossem palitos de sorvetes fixados na areia de uma praia atingida por uma onda com dez centímetros de altura. Quase todos os cadáveres e escombros de prédios e de outras edificações, bem como pontes, viadutos e navios eram transportados por dezenas de quilômetros e depositados em morros ou planícies existentes no local que coincidia com o seu ponto de perda de força e refluxo para o mar. Quando esse processo se concluía, a visão de uma região onde existia uma grande cidade litorânea era a de uma larga e comprida praia de areias limpas e sem o menor vestígio de vida ou do centro urbano que ali existia.

Os furacões, tornados e outras tempestades e ventanias, apesar de pouco destrutivos a nível geral, causaram muitos danos nas regiões onde atuaram. Apesar de não terem causado muitas mortes como decorrência direta de suas ações, eles foram os responsáveis pelo aumento do número delas, pois movimentaram e propagaram os resíduos tóxicos de erupções vulcânicas, fumaças de incêndios urbanos e florestais, além das poeiras geradas pelos terremotos. Os ventos de média ou grande velocidade que ocorreram em todos os locais do planeta, tiveram um papel importante na propagação dos incêndios ocorridos nas florestas atingidas por erupções vulcânicas, e nos centros urbanos, causados por curtos-circuitos que atingiram casas de madeiras, tubulações de gás e postos de combustíveis. Posteriormente, juntamente com as chuvas e nevascas que se prolongaram por alguns dias, foram os responsáveis pela limpeza da atmosfera e normalização da qualidade do ar.

De maneira geral, a ação destrutiva dos quatro elementos da natureza aumentou gradativamente a partir dos minutos iniciais da grande transição e atingiu sua intensidade máxima no final de três horas, quando os terremotos e os tsunames reduziram drasticamente suas ações e efeitos destrutivos. Apesar de menos numerosos e intensos, os vulcões e incêndios, juntamente com alguns representantes do elemento ar ainda agiram por alguns dias. Além da destruição de toda estrutura física construída ao longo dos séculos, décadas e anos anteriores, as ações individuais ou combinadas dos quatro elementos da natureza aceleraram drasticamente o degelo dos pólos e das altas montanhas nas semanas seguintes. Também diminuíram sensivelmente sua altura, provocaram a junção de dois continentes, o rebaixamento ou elevação de grandes áreas continentais e marítimas que causaram o surgimento e o desaparecimento de muitas ilhas, modificando completamente a geografia arretiana.

Com exceção dos vulcões, os demais elementos atuaram em forma de varredura, assolando cada local por um determinado tempo e aumentando seus raios de ação com o decorrer dos minutos e das horas. Durante as três horas principais, e de maneira gradativa, novas regiões foram atingidas a cada intervalo de tempo e algumas já atingidas de maneira fraca ou moderada, foram novamente assoladas pelo mesmo tipo de agente natural ou por outros, isoladamente ou em conjunto, sempre com maior poder destrutivo. Os terremotos foram os que atuaram por um período de tempo menor em cada lugar, pois suas ações cessavam rapidamente. Os tsunames atuaram por um tempo maior e as erupções vulcânicas por várias horas ou dias, o mesmo acontecendo com os furacões, tornados e tempestades.

Na primeira hora predominaram os terremotos e tsunames de pequeno ou médio grau de intensidade e, apesar de atuarem em todos os continentes, atingiram somente um terço dos centros urbanos e causaram poucas mortes e danos físicos na estrutura planetária. No decorrer da hora seguinte houve um aumento na abrangência e na intensidade destrutiva dos quatro elementos, atingido quase toda a superfície do planeta. Em muitos locais os terremotos apresentaram alto poder destrutivo e não havia mais pontes, estradas, combustíveis, água encanada, sistemas de comunicação ou de energia elétrica em todo o planeta, pois as usinas de geração e torres de transmissão foram destruídas ou seriamente danificadas.

Esses fatos deixaram os povos completamente isolados, tanto a maioria que foi duramente atingida, como os demais que ainda não tinham sentido todos os efeitos devastadores das forças naturais. Os habitantes ainda não tinham entendido o que estava realmente acontecendo e, pela falta de informações, tinham opiniões divergentes. Uma parte via a situação local como uma calamidade semelhante a outras que os atingiram anteriormente ou tinham conhecimento da sua ocorrência em outros lugares. A maioria entendia os acontecimentos como incomuns e estavam desesperados sem saber como ou a quem recorrer. Independente de suas opiniões, em todos os locais havia milhares de pessoas se movimentando em confusão total, em busca de bens, parentes e amigos mortos ou desaparecidos. No decorrer da terceira hora, a fúria dos elementos atingiu o grau máximo e, nos pontos mais ao norte e ao sul do planeta, os terremotos e tsunames foram devastadores. Em vários lugares o nível de destruição foi tão grande e o de sobrevivência tão baixo, que é difícil descrever o que realmente lá aconteceu. Nesses locais a ação dos elementos da natureza foi especialmente destrutiva e realizou coisas que a mente humana dificilmente conseguiria imaginar.

Após a quarta hora, quando os terremotos e tsunames perderam seus poderes destrutivos, a situação da estrutura planetária era desoladora e só não ceifou uma quantidade maior de vidas humanas em função das operações de resgate realizadas pelos espaciais desde o final da primeira hora de atuação dos elementos, conforme será descrito no próximo capítulo. Todas as grandes, médias e pequenas cidades mais adensadas foram completamente destruídas e nelas não era possível localizar uma única edificação de dois ou mais andares em pé. Somente algumas casas térreas de madeiras localizadas em suas periferias e nos pequenos povoados ainda estavam em pé, apesar de quase todas estarem seriamente danificadas.

Também era difícil encontrar, mesmo nas regiões menos afetadas, mais de dois quilômetros contínuos de estradas trafegáveis ou uma ponte intacta. Quase todos os veículos das zonas urbanas mais adensadas foram destruídos ou seriamente danificados. Porém, ainda restou uma grande quantidade sem danos significativos ou com boas condições de recuperação, representada por aqueles que estavam nas periferias urbanas ou nas zonas rurais. Toda a estrutura industrial foi transformada em escombros, incluindo os grandes depósitos de alimentos, materiais e combustíveis. Todos os postos de abastecimento de veículos foram inutilizados ou consumidos por grandes incêndios quando seus tanques foram danificados ou “espremidos” pelos terremotos.

Toda a frota marítima e fluvial foi afundada ou destruída, com exceção de algumas pequenas e médias embarcações fluviais que estavam ancoradas nos rios existentes nas regiões menos atingidas. Os grandes aviões estacionados também foram destruídos ou seriamente danificados. Aqueles que voavam durante os acontecimentos ficaram sem pistas de pouso e, em suas aterrissagens forçadas, provocaram muitos desastres sem sobreviventes. Restaram alguns pequenos aviões e helicópteros estacionados nos locais menos atingidos. 

Sete dias após o início dos acontecimentos, quando a estrela Alnilam voltou a iluminar o planeta e o ar novamente se tornou respirável, a geografia arretiana apresentava profundas mudanças em função das movimentações ocorridas na crosta do planeta. Enquanto alguns continentes diminuíram suas áreas, outros a aumentaram e dois deles se juntaram, diminuindo a quantidade inicial de oito para sete, incluindo os dois continentes polares. O mesmo aconteceu com muitas ilhas e arquipélagos que aumentaram ou diminuíram de tamanho, ou apareceram ou desapareceram pelo mesmo processo.

Quando, ao final de dois meses foi concluído o degelo dos continentes polares, das demais geleiras e o nível dos mares se situou bem acima do original, completou-se o desenho final dos continentes e ilhas. A salinidade do mar diminuiu e o novo clima do planeta passou a ter uma única estação, uma mistura de outono e primavera. Dos pouco mais de 10 bilhões de habitantes, sobreviveram menos de 3,5 bilhões, representando cerca de um terço da população anterior à grande transição. Quanto aos animais, répteis e pássaros, o número de mortes foi incalculável e provocou a extinção de muitas espécies que não foram inicialmente protegidas pelos espaciais. Morreram todas as cobras, mosquitos, aranhas, escorpiões e outros seres semelhantes que não tinham mais afinidade com a nova aura planetária e o modo de vida que iria se desenvolver no planeta.

OS RESGATES E APOIOS AOS SOBREVIVENTES

Critérios utilizados

A razão de dividir as três horas principais da grande transição em fases distintas teve dois motivos básicos. O primeiro decorreu da crescente abrangência, variedade, combinação e grau de intensidade destrutiva dos quatro elementos da natureza. O segundo, do critério adotado pela Hierarquia Espiritual Arretiana, que priorizou o resgate das pessoas que necessitavam de menor exposição aos acontecimentos. Começaram por aquelas que escolheram o caminho do amor e conquistaram níveis mais elevados de consciência espiritual ao longo de suas vidas e, por essa razão, alguns foram resgatados antes do início dos acontecimentos, como foi descrito anteriormente. Gradativamente foram resgatando aquelas que priorizaram a conquista de objetivos materiais em suas vidas e escolheram o caminho da dor. Essas pessoas necessitavam vivenciar os acontecimentos em diversos graus de intensidade para que pudessem, pela dor própria e pelo amor e carinho que receberam quando foram resgatadas, tratadas e abrigadas, despertar para uma realidade e um modo de vida diferente daquele que praticavam.

Em função das informações que detinham sobre cada habitante, os responsáveis pela Hierarquia Espiritual Arretiana previam o desencarne de dois terços da população do planeta, totalizando quase sete bilhões de pessoas. Dentre os que pereceram havia uma grande maioria de pessoas reprovadas no exame de seleção e uma minoria de seres missionários e outros com bom nível evolutivo que já estavam aprovados quando nasceram no planeta. Essas pessoas, pelos bons trabalhos que realizaram nas vidas, décadas e anos anteriores, retornaram ao plano espiritual porque foram poupadas de realizar os trabalhos de reconstrução e normalização da vida planetária. Por outro lado, dentre os sobreviventes havia uma grande maioria de pessoas que obtiveram as notas necessárias para aprovação e uma parte que estavam ligeiramente abaixo da “nota mínima”. A essas pessoas foi dada uma última oportunidade para obter a aprovação através da dor, da perda, da renuncia e de outros aceleradores evolutivos que vivenciaram durante a grande transição e no restante de suas vidas. Conforme o comportamento que assumissem, poderiam ser aprovadas ou reprovadas.

Como regra geral, todos que foram resgatados após o início dos acontecimentos necessitavam de um choque menor ou maior, conforme o nível de conscientização ou de desenvolvimento espiritual de cada um, ou em outras palavras, conforme a nota obtida no exame de seleção. Os mais conscientes foram resgatados antecipadamente ou após a primeira hora do início dos acontecimentos. Os demais, nas horas e dias seguintes. Independentes do sofrimento a que foram submetidos, todos receberam apenas a dose mínima do remédio necessário. Como toda regra tem exceções, entre os regatados havia pessoas de excelente nível espiritual cujos espíritos preferiram permanecer com seus familiares, parentes ou amigos que precisavam receber choques de diversos tipos. Esses seres renunciaram a direitos conquistados em anos, décadas ou vidas anteriores para dar um exemplo e com isso, ajudar outras pessoas a conquistar ou consolidar seus diretos de ingressar na nova escola planetária. Elas assim agiram por amor aos seus irmãos cósmicos e ao Pai celestial que, nesses casos, permitia que Seu filho ou filha passasse por sofrimentos desnecessários.

Em função da complexidade das avaliações individuais, coube aos responsáveis pela Hierarquia Espiritual Arretiana a análise e a definição da situação e do destino final de cada habitante. Foram eles que tomaram as providências necessárias para manter as pessoas vivas ou não, sem ou com ferimentos de diversas gravidades, livres para serem resgatadas rapidamente ou presas aos escombros em profundidades variáveis. Muitos desses resgates foram feitos nos dias seguintes à grande transição e deram muito trabalho aos espaciais e voluntários. Também coube à Hierarquia Espiritual Arretiana transferir para outros planetas de expiação e de provas todas as pessoas que pereceram durante os acontecimentos e foram reprovadas no exame de seleção. Ao comando da frota de apoio a Arret coube efetuar os resgates conforme os critérios definidos pelos mentores do planeta. Para isso realizaram gigantescas operações para resgatar os sobreviventes, sanear o planeta e permitir a sustentabilidade, continuidade e desenvolvimento da nova sociedade planetária, conforme será descrito a seguir.

Os resgates ocorridos durante a grande transição

Alguns minutos depois da primeira hora de atuação dos elementos da natureza nos médios e grandes centros urbanos foi iniciada uma grande operação comandada pelos espaciais, dividida em três etapas com intervalo aproximado de uma hora entre elas. Seu objetivo foi resgatar, avaliar fisicamente as situações individuais, prestar socorro médico e abrigar cerca de um bilhão de sobreviventes que não estavam presos nos escombros e apresentavam, em cada etapa, as condições definidas pelos mentores espirituais do planeta. Os resgates foram feitos sem pouso de naves e utilizaram raios transportadores guiados por sofisticados equipamentos que serão descritos a seguir.

Sua realização contou com um grande contingente de naves de diversos tipos e tamanhos, além de dezenas de milhões de espaciais e todos os voluntários que auxiliaram nos resgates anteriores. Uma pequena parte dos voluntários permaneceu nas naves em trânsito e os demais foram deslocados para outras de maior porte estacionadas sobre as médias e grandes áreas urbanas, onde auxiliaram os espaciais em diversos trabalhos. Essas naves tinham porte, acomodações e equipamentos suficientes para realizar a recepção, triagem, oferecer banhos, roupas, refeições e fazer o encaminhamento dos resgatados aos núcleos de sobrevivência, bem como, para tratar qualquer tipo de ferimento físico ou emocional. Conforme o porte de cada centro urbano havia uma ou mais dessas naves que centralizavam os resgates efetuados por outras menores que transitavam em cada local. Como nos resgates anteriores, todas elas estavam invisíveis aos olhos comuns.

O principal trabalho das naves em trânsito consistia em sobrevoar os locais atingidos, localizar e resgatar os sobreviventes que atendiam às condições definidas pela Hierarquia Espiritual Arretiana em cada uma das três etapas. Para isso, dispunham de equipamentos que agilizavam os trabalhos e permitiam resgatar um sobrevivente com o perfil apropriado em poucos segundos. Um deles era um analisador de sinais vitais e emocionais que definia se uma pessoa estava viva ou morta, bem como, o seu estado emocional e a gravidade dos ferimentos físicos externos e internos. O outro atuava em conjunto com o primeiro e analisava o nível de desenvolvimento espiritual do sobrevivente. Ele definia, através de uma pontuação específica, se a pessoa podia ser resgatada naquela etapa ou deveria aguarda uma próxima. O terceiro era o mesmo tipo de raio transportador utilizado durante os resgates realizados antes do inicio da grande transição, acrescido de um efeito paralisante que imobilizava temporariamente a pessoa, mantendo-a da mesma maneira como se encontrava ao ser atingida pelo raio transportador. Quando os dados dos dois analisadores eram favoráveis, o raio transportador era acionado automaticamente e o sobrevivente era “puxado” imediatamente para o interior da nave. O efeito paralisante podia ser anulado por um dispositivo especial.

Mesmo com essas facilidades, esses resgates diferiram dos primeiros e deram muito trabalho aos espaciais e voluntários que estavam nas grandes naves, pois os sobreviventes apresentavam situações físicas e emocionais que se agravavam a cada nova fase dos resgates. Muitos permaneceram sedados por várias horas ou dias em função de ferimentos de diversos graus de gravidade, ou por estarem em estado de choque ou enlouquecidos pela brutalidade dos acontecimentos e pela grande perda de vidas de parentes e amigos. Conforme o analisador de sinais vitais e emocionais detectava pessoas com problemas mais graves, elas eram teletransportadas diretamente para a ala hospitalar das grandes naves, onde recebiam os cuidados necessários. Aquelas que apresentavam melhores condições físicas e emocionais eram teletransportadas para a ala de recepção dessas naves.

A primeira etapa foi concluída depois de meia hora de intensos trabalhos, quando os últimos resgatados foram teletransportados para as grandes naves. Durante essa etapa foram resgatadas cerca de 200 milhões de pessoas em todo o planeta, em sua maioria sem ferimentos ou com lesões leves. Aquelas que apresentaram lesões e descontroles emocionais de maior gravidade permaneceram em tratamento nas alas hospitalares. Algumas foram liberadas em poucas horas e outras após vários dias ou meses. As que estavam em boas condições receberam informações gerais sobre os acontecimentos e depois foram levadas a locais próprios onde tomaram banho e vestiram novas roupas. Em seguida foram separadas em grupos homogêneos compostos por familiares, parentes, amigos e moradores de um mesmo bairro ou local específico.

As autoridades de nível equivalente àquelas já abrigadas em outras naves foram para elas teletransportadas com seus familiares. Os demais grupos foram reunidos em salões específicos, onde receberam outras informações sobre a grande transição e para qual núcleo de sobrevivência seriam transferidos. Também foram informados sobre a continuidade dos resgates nas próximas horas e dias e sobre a ajuda que poderiam prestar durante a longa operação de resgate nos escombros. Muitas pessoas se ofereceram como voluntárias e a maioria delas se colocou à disposição para realizar qualquer tipo de trabalho, sem nenhuma exigência ou restrição. Como seria necessário um grande número de novos voluntários, as pessoas que se ofereceram e não eram pais ou mães de crianças que se encontravam entre os resgatados a apresentavam a aptidão física e emocional necessária foram imediatamente aceitas e levadas para outros locais da nave onde receberam treinamento específico. As demais foram transferidas para os respectivos núcleos de sobrevivência através de cabines de teletransporte existentes nas grandes naves e na nave de apoio que permaneceu em cada núcleo.

A segunda etapa de resgates foi iniciada nos primeiros minutos da terceira hora, quando a ação dos quatro elementos da natureza havia atingido todo o planeta e apresentava um grau destrutivo crescente. Durante sua realização foram resgatados outros 300 milhões de sobreviventes, os quais obedeceram aos mesmos critérios de seleção e receberam o mesmo tratamento dispensado ao grupo anterior. Diferente dele, esse grupo apresentava um número maior de pessoas com ferimentos de todos os tipos, além de traumas emocionais e psicológicos mais graves, decorrentes do aumento do poder destrutivo dos elementos e do maior número de perdas de familiares, parentes e amigos. Também foi grande o número de pessoas que se colocaram à disposição para auxiliar nos trabalhos de resgate nos escombro e, por terem menor nível de conscientização espiritual que o grupo anterior, a principal motivação dessas pessoas foi a possibilidade de encontrar familiares, parentes e amigos.

No início da quarta hora foi desencadeada a terceira etapa da operação, quando resgataram cerca de 500 milhões de sobreviventes, o mesmo número das duas etapas anteriores. Esses resgates não mais utilizaram os analisadores nível de desenvolvimento espiritual, pois qualquer pessoa com sinais vitais positivos podia ser resgatada. Naqueles momentos a situação das áreas urbanas era desoladora e dificilmente descritível, especialmente no caso das cidades litorâneas ou daquelas próximas da costa, pois a violência e o poder destrutivo dos elementos da natureza ultrapassou as previsões mais pessimistas. Eles atuaram em duplas ou em trios na maioria dos locais e muitas regiões foram afetadas pela ação conjunta dos quatro elementos, com altíssimo poder destrutivo e reduzido número de sobreviventes. Muitos dos locais atingidos moderadamente durante as duas horas anteriores foram novamente assolados pelo mesmo ou por outros elementos, elevando o nível de destruição física e de mortes. No decorrer da terceira hora pereceram mais da metade das pessoas que perderam a vida em decorrência da grande transição.

Como nas etapas anteriores, as pessoas continuaram sendo resgatadas através dos raios transportadores das naves em trânsito e transferidas diretamente para as grandes naves. Quase a metade das pessoas resgatadas durante a quarta hora foram encaminhadas à ala hospitalar para tratamento físico ou mental em função da gravidade dos seus ferimentos. Os demais seguiram a mesma rotina das etapas anteriores e muitos se ofereceram como voluntários para a operação de resgate nos escombros. Boa parte deles tinha, além da motivação do grupo anterior, a de localizar valores materiais, como dinheiro ou jóias.

O abrigo dos sobreviventes e as novas operações

Antes da chegada dos sobreviventes resgatados após o início da grande transição, a população média de cada núcleo de sobrevivência era inferior a 700 pessoas. Quando foi concluído o teletransporte das pessoas encaminhadas pelas grandes naves, sua população média subiu para 1.700. Todas chegaram em pequenos grupos constituídos por famílias parciais ou completas, parentes e amigos que moravam em um mesmo bairro ou local específico. A recepção e alojamento desses sobreviventes nos iglus aconteceram de maneira rápida e ordeira, pois todos chegaram convenientemente vestidos, alimentados e bem informados a respeito do comportamento que deveriam assumir durante os dias seguintes. Assim que todos foram abrigados, os espaciais tomaram uma série de providências para desencadear duas novas operações de grande porte.

A primeira foi iniciada em seguida e teve o objetivo de reforçar o efetivo humano e material dos núcleos de sobrevivência para prestar atendimento e apoio material a um grupo superior a um bilhão de sobreviventes que moravam em pequenas cidades e agrupamentos rurais localizados em suas proximidades. Em função da sua dispersão geográfica e do baixo adensamento populacional, esses locais foram os que sofreram menos danos físicos e por isso apresentavam um número proporcionalmente maior de sobreviventes, se comparados com as demais áreas urbanas. A segunda operação foi programada para ser realizada nos escombros dos centros urbanos onde foram realizados os resgates anteriores, assim que as condições de segurança fossem asseguradas. Diferente das demais, essa operação foi a mais difícil e arriscada de todas, pois objetivava localizar e retirar quase 600 milhões de sobreviventes presos ou soterrados em profundidades variáveis.

Essas duas operações envolveram as grandes naves estacionadas e todas as demais que participaram dos resgates anteriores. Além delas, contaram com o reforço de inúmeras outras naves de pequeno ou médio porte e naves cargueiras destinadas ao recolhimento de cadáveres, remoção, transporte e destinação de entulhos. Também contaram com todos os espaciais que participaram dos resgates anteriores e outros que concluíram os trabalhos de monitoramento ou de resgate e abrigo de uma infinidade de animais, pássaros e peixes que corriam riscos de extinção, além de uma grande quantidade de voluntários arretianos, constituídos por quase todos que faziam parte do grupo inicial e todos aqueles que foram recrutados durante os resgates anteriores. No total, essas operações envolveram mais de 10 milhões de naves e um número superior a 200 milhões de pessoas, entre espaciais e voluntários arretianos.

O apoio às pequenas cidades e agrupamentos rurais

Assim que foi concluída a acomodação dos resgatados nos núcleos de sobrevivência, pousaram seis novas naves em cada um deles. Três eram semelhantes àquela que dava apoio desde o início e três eram naves cargueiras de médio porte. Cada nave de apoio pousou com uma tripulação de doze espaciais, três dos voluntários iniciais e foi reforçada com mais quatro voluntários que permaneceram em cada núcleo desde a sua instalação. As naves cargueiras contavam com dois espaciais em cada uma delas e um dos voluntários iniciais. Todos os voluntários foram treinados durante os dias anteriores à grande transição e estavam preparados para o outro grande trabalho que tinham pela frente.

Assim que os novos tripulantes foram embarcados, as seis naves levantaram vôo em duplas constituídas por uma nave de apoio e uma nave cargueira. Obedecendo a um esquema de prioridades fornecido pelo comando da frota de apoio a Arret, cada dupla se dirigiu ao local que estava mais sujeito ao agravamento das condições climáticas ou que apresentava um número maior de sobreviventes. A maioria desses locais eram pequenas cidades, povoados e agrupamentos rurais que sofreram ações de média para alta intensidade dos elementos da natureza e apresentavam um nível de sobrevivência superior a 50 por cento, especialmente, nas agrovilas implantadas no país de Olintho e em alguns outros. Mesmo assim, todos esses locais perderam suas edificações, pois aquelas que não foram destruídas apresentavam sérios riscos de desabamento.

Quando as naves chegavam a esses locais, a maioria dos sobreviventes estava reunida em uma praça ou área aberta, o que facilitou os contatos iniciais. Algumas pessoas trabalhavam nos escombros de residências e edificações públicas à procura de parentes e amigos, sendo que a maioria dos mortos e feridos já havia sido retirada dos escombros. Os trabalhos ainda continuavam em muitos locais por falta de maquinário adequado para remoção de entulhos. A fim de não causar pânico e outros problemas aos sobreviventes, os espaciais definiram uma estratégia peculiar para facilitar os contatos.

Três dos voluntários iniciais desceram através de raios transportadores, enquanto a nave permanecia imóvel e invisível a uns trinta metros de altura. A descida era lenta e podia ser notada por todos que estivessem observando o ponto onde a nave estava estacionada, pois o raio transportador tinha uma certa luminosidade que podia ser facilmente notada nos locais onde já era noite. Como medida de segurança, os voluntários utilizaram roupas especiais fabricadas com um tecido tão resistente quanto um colete à prova de balas. Além disso, desciam dentro de uma extensão do campo de forças da nave que os protegia até contra explosões de alto impacto. A estratégia funcionou muito bem por duas razões básicas. Na primeira, os contatos foram facilitados em razão de muitos dos voluntários serem conhecidos pela população local e, na segunda, prevaleceram motivos de ordem espiritual, pois a maioria dos sobreviventes era constituída por pessoas simples, religiosas e que acreditavam nas profecias sobre o final de ciclo evolutivo e na intervenção de seres divinos durante esses acontecimentos. Elas encararam a descida dos voluntários como um fenômeno de natureza e de ajuda divina, o que não deixava de ser verdadeiro.

Depois dos contatos e explicações iniciais, as naves se tornaram visíveis e os trabalhos foram logo iniciados na grande maioria dos locais. Porém, em alguns com alta concentração de adeptos de correntes religiosas de natureza fanática, os contatos foram dificultados e até impedidos em vários casos. Quando isso acontecia, os voluntários informavam que voltariam depois de atenderem outros locais e eram “puxados” lentamente para a nave que permanecia invisível até que o contato fosse bem sucedido. Sempre obtinham sucesso na segunda tentativa, tanto em função do agravamento das condições climáticas, como pelo instinto de sobrevivência e outros fatores, como a “manifestação” ou o “arrebatamento” dos voluntários.

Após os contatos iniciais todos receberam informações a respeito dos acontecimentos e foram divididos em três grupos básicos liderados por espaciais e voluntários: aqueles que recolheriam e encaminhariam os feridos, os que trabalhariam na montagem do núcleo de sobrevivência local e aqueles que auxiliariam nos resgates que ainda precisassem ser realizados nos escombros existentes em cada local. Todos os feridos com maior gravidade foram imediatamente teletransportados para as grandes naves e, nos casos em que havia resistência ou preocupação para encaminhá-los sozinhos, foram acompanhados por um ou mais de seus familiares ou amigos. O segundo grupo foi dividido em várias equipes que receberam as explicações, equipamentos e materiais necessários para montagem do núcleo de sobrevivência em locais que comportavam as instalações necessárias. Esses trabalhos obedeceram à mesma estratégia e seqüência utilizadas para montagem dos primeiros núcleos de sobrevivência e foram realizados em um tempo muito menor, em função da quantidade de sobreviventes que se engajaram nos trabalhos.

Em paralelo e apoiados pela nave cargueira e por equipamentos especiais semelhantes àqueles que foram utilizados na grande operação de resgate nos escombros das grandes cidades, descrita mais abaixo, o terceiro grupo realizou os resgates das pessoas vivas ou mortas que estavam presas ou soterradas nos escombros. Como havia um tempo previsto para atender cada local, os espaciais requisitavam a ajuda de outras naves quando se tornava necessário e elas apareciam em poucos minutos. A prioridade inicial era o resgate dos sobreviventes e, em seguida, a retirada dos cadáveres. Como na maioria dos locais não havia grandes ou altas edificações, os resgates foram realizados rapidamente e concluídos juntamente com a montagem do núcleo de sobrevivência. Os feridos que necessitavam de algum tipo de tratamento foram igualmente teletransportados para as grandes naves, acompanhados ou não por parentes ou amigos. Os mortos, tanto aqueles resgatados inicialmente pelos moradores, como os demais, tiveram um destino comum. Os corpos foram identificados, colocados e lacrados em urnas especiais e individuais.

Essas urnas foram produzidas com uma resina plástica flexível que adquiria consistência assim que era lacrada e inflada com um gás que conservava o corpo por vários meses ou anos, como se estivesse embalsamado. Depois que os espaciais e voluntários se retiraram para atender outro local, os familiares e amigos realizaram uma rápida cerimônia fúnebre e colocaram as urnas em uma barraca própria, simulando um enterro. Posteriormente elas foram recolhidas pelos espaciais e depositadas em um outro local, onde poderiam ser identificadas e sepultadas conforme o costume de cada família, quando a vida planetária voltasse à normalidade. Quase todos os parentes e amigos dos mortos aceitaram a proposta, pois entenderam a gravidade da situação e o risco de epidemias a que ficariam sujeitos em função da falta de tempo e de locais nos cemitérios para enterrar os mortos. Quando não aceitavam, as urnas foram colocadas em um outro tipo de barraca para que os parentes realizassem o sepultamento assim que as condições atmosféricas fossem favoráveis.

Quando os trabalhos foram concluídos, todos receberam roupas, alimentos e itens de higiene e limpeza para os sete dias seguintes, dentro dos mesmos critérios utilizados nos núcleos de sobrevivência iniciais. Como não havia previsão de naves estacionadas em cada um desses locais, os espaciais e os voluntários procuraram deixar os sobreviventes seguros quanto ao apoio que continuariam recebendo nas horas e dias seguintes. Além de visitas diárias, cada iglu também contava com um intercomunicador de áudio e vídeo que permitia o contato entre eles e com os especiais responsáveis pelo núcleo de sobrevivência mais próximo, a qualquer hora do dia ou da noite. Esses cuidados deixaram todos completamente seguros quanto à possibilidade e rapidez para qualquer atendimento.

Quanto aos pequenos agrupamentos rurais, a proposta dos espaciais previa a transferência das famílias para o núcleo de sobrevivência mais próximo, podendo ser um daqueles inicialmente instalado ou qualquer outro montado durante aquela operação, pois todos tinham iglus adicionais para essa finalidade. Porém, respeitavam a decisão dos sobreviventes, mesmo que o local não apresentasse as condições ideais. A grande maioria aceitou a proposta e quando isso não aconteceu, foi montada toda a infra-estrutura necessária, como nos demais núcleos.  

Em menos de seis horas, toda uma população constituída por mais de 1,3 bilhões de pessoas estava abrigada e protegida do frio e da poluição atmosférica. Todos os novos núcleos foram visitados nos sete dias seguintes e alguns o foram mais de uma vez no dia. As visitas adicionais ocorreram em função de chamados, ou quando algum ferido recebia alta. O retorno dessas pessoas constituía um motivo de grande alegria para seus parentes e amigos, além de surpreendê-los com a rapidez e a excelente recuperação que apresentavam. Os feridos elogiavam o tratamento carinhoso que receberam no interior das grandes naves, além de descrever vários detalhes que maravilhavam seus ouvintes e estreitava os laços de simpatia com os espaciais e voluntários.

A grande operação de resgate nos escombros

O objetivo dessa grande operação foi resgatar todos os sobreviventes que estavam presos aos escombros em profundidades variáveis. Em paralelo, recolheram todos os cadáveres que estavam na superfície do solo ou parcialmente soterrados. Essa grande operação contou com avançados recursos tecnológicos, milhões de naves e uma grande equipe composta por espaciais e voluntários arretianos. Ela foi iniciada logo após a conclusão dos resgates realizados durante a grande transição e foi executada durante cinco dias e noites, com revezamento de equipes. A Hierarquia Espiritual Arretiana e o comando da frota de apoio a Arret estimavam um número próximo de 600 milhões de pessoas a serem resgatadas com grandes dificuldades. O esquema de prioridades previa a retirada inicial dos sobreviventes presos na superfície e, gradativamente, daqueles que se encontravam soterrados em profundidades maiores e que apresentassem o menor nível de sinais vitais. Como parte dessa estratégia, previam o retorno das naves e das equipes ao mesmo local em vários momentos, conforme a maior ou menor concentração de sinais vitais em profundidades variáveis.

Diferentes dos demais, esses resgates dependiam do pouso de naves e do desembarque das equipes no solo, o que somente seria possível quando as condições mínimas de segurança fossem asseguradas. Os espaciais levavam em consideração o grau de estabilidade da área e a eventual ocorrência de novas ações dos elementos da natureza, a fim de não colocar em risco a integridade física dos voluntários selecionados durante os resgates anteriores. Os tipos e as quantidades de naves, de espaciais e de voluntários que atuaram em cada centro urbano foram definidos em função da quantidade, intensidade e profundidade dos sinais vitais detectados sob os escombros de cada um dos setores que dividiram essas cidades, além da concentração de entulhos resultantes do porte das edificações que neles existiam.

Os recursos humanos e materiais alocados em cada setor eram constituídos por uma nave cargueira de tamanho compatível com o volume de entulhos e operada por uma tripulação de 4 a 8 espaciais, além de uma nave de apoio de pequeno ou médio porte, com uma equipe de 8 a 16 espaciais e outro tanto de voluntários arretianos. Além delas, havia outras naves cargueiras que participavam de uma operação específica e voltada para o recolhimento de cadáveres em todos os locais do planeta, como será descrito mais adiante. Cabia à nave cargueira alocada em cada setor, a realização de dois tipos de trabalhos básicos.

O primeiro consistia em remover, transportar e destinar grandes metragens cúbicas de entulhos que prendiam ou cobriam parcial ou totalmente muitos sobreviventes e cadáveres que estavam na superfície ou logo abaixo dela. Essas remoções, apesar de volumosas, foram rapidamente realizadas, pois essas naves atuavam de uma maneira muito peculiar. Elas emitiam uma cortina de raios que desmaterializavam e transferiam os materiais para o seu interior completamente pulverizados e separados por tipo básico, deixando o sobrevivente ou o cadáver livre e pronto para resgate ou recolhimento, pois somente desmaterializavam materiais inanimados provenientes dos reinos mineral e vegetal, como ferro, cimento, plásticos ou madeiras, sem afetar ou ferir os corpos humanos, vivos ou mortos. O trabalho era altamente seletivo, pois esses raios podiam desmaterializar ou não, qualquer item específico ou conjunto previamente definido. Os materiais recicláveis foram agrupados em blocos de um metro cúbico e armazenados em compartimentos específicos das naves cargueiras.

O segundo trabalho foi realizado depois do recolhimento dos sobreviventes pelas naves de apoio e dos cadáveres pelas outras naves cargueiras. Ele consistia em preparar ou nivelar o local para que a nave de apoio pudesse desembarcar as equipes e iniciar a etapa seguinte daquela grande operação. Assim que as naves cargueiras concluíram os trabalhos em cada setor, descarregaram os blocos de materiais recicláveis nos continentes polares e se juntaram a outras naves que realizaram novas operações de regate e saneamento, conforme será descrito mais adiante.

As equipes de cada nave de apoio executaram diversos trabalhos. Alguns foram realizados sem contato com o solo e outros dependeram do pouso sobre os escombros. Assim que as naves cargueiras executaram o primeiro tipo de trabalho e os corpos dos sobreviventes ficaram livres, eles foram imediatamente teletransportados para o interior das grandes naves estacionadas sobre os centros urbanos, onde foram seguidos os mesmos procedimentos adotados com os sobreviventes resgatados durante a ocorrência da grande transição, exceto quanto à seleção de novos voluntários.

Enquanto as naves de apoio aguardavam o término dos trabalhos da nave cargueira e a obtenção das condições de segurança para o desembarque das equipes, utilizaram esse tempo para confirmar ou levantar novos dados e atualizar o banco de dados da nave com informações sobre localizações, profundidades e níveis de sinais vitais dos sobreviventes que havia em cada setor. A coleta e a análise desses dados foi realizada por um sofisticado equipamento instalado nas cabines de comando de cada nave. Ele também existia em versão portátil destinada aos trabalhos nos escombros, semelhante ao perfurador que será descrito mais abaixo. Esse equipamento, que chamaremos de analisador, desempenhava dois importantes grupos de funções.

A primeira fornecia um diagnóstico detalhado das condições físicas de cada pessoa com atividade cerebral, como se fosse o resultado de uma avaliação médica criteriosa e embasada em sofisticados exames clínicos. Ele analisava a aura, também conhecida como o corpo vital que envolve cada pessoa, e definia os níveis de atividades cerebrais, cardíacas e de outros órgãos importantes à manutenção da vida, mesmo que o sobrevivente estivesse em estado de coma. Também detectava a pressão sangüínea e todos os tipos e gravidades de ferimentos existentes no seu corpo físico, tanto externo como internamente, pois tudo se refletia no corpo vital. A segunda função utilizava as coordenadas do local onde havia sinais vitais e definia sua profundidade, tipos de entulhos existentes no caminho até o local onde um ou mais sobreviventes estavam confinados. A partir desses dados, levantava um perfil completo da área e definia o melhor caminho para acesso ao sobrevivente, permitindo avaliar as dificuldades de cada resgate. Antes de relatar os trabalhos no solo, vamos descrever outros equipamentos e recursos utilizados para facilitar os resgates e aumentar a segurança das equipes. 

Apesar do imenso volume de escombros removidos pelas naves cargueiras, eles representaram uma pequena parte daqueles que existiam em cada setor, pois elas removiam apenas os entulhos superficiais e suficientes para liberar os sobreviventes e cadáveres presos na superfície ou próximos dela. Todos os sobreviventes que estavam soterrados em profundidades maiores, de até algumas dezenas de metros, foram resgatados através de perfurações realizadas por um equipamento especial que chamaremos de perfurador, pois não havia tempo suficiente para remover todos os escombros sem aumentar o número de mortos. Os sobreviventes foram teletransportados do local onde se encontravam, diretamente para as grandes naves através de outro extraordinário equipamento denominado como teletransportador manual.

O perfurador era um equipamento flutuante de formato tubular, com uns 80 centímetros de diâmetro e quase dois metros de altura. Em sua base havia um orifício circular de uns trinta centímetros de diâmetro que emitia um feixe de raios que desmaterializava os materiais e corpos inanimados que estivessem em seu caminho e os rematerializava no local onde fosse instalado um outro equipamento de diâmetro e altura menor, igualmente flutuante. O perfurador se movimentava e atuava sob comando do analisador, o qual controlava a profundidade do furo com precisão milimétrica. Os raios não desmaterializavam partes de corpos humanos que apresentassem sinais vitais e, nesses casos, sua precisão era tamanha que desmaterializava até finas camadas de poeira e de outros materiais que estivessem sobre o corpo do sobrevivente, sem nele causar queimaduras ou qualquer sinal visível.

O teletransportador manual era constituído por uma esfera com uns vinte centímetros de diâmetro, presa a um longo cabo flexível que saía da base de um equipamento tubular semelhante ao perfurador. Esse equipamento mantinha uma comunicação sem fios com a nave de apoio e nele havia uma tela, microfones e fones de ouvido para comunicação com o sobrevivente ou grupo deles. A parte inferior da esfera projetava uma luz amarelada e tinha alto-falantes, microfones, dutos para injeção de oxigênio e, principalmente, um extraordinário dispositivo de teletransporte. A descida da esfera era monitorada através da tela do equipamento e, quando iluminava um sobrevivente que estava consciente, transmitia instruções simples sem citar o teletransporte ou outros dados que pudessem alarmá-lo. Quando ele estava inconsciente, iniciavam imediatamente o seu resgate. Mediante comando do operador, a parte inferior da esfera abria em forma de guarda-chuva e projetava uma energia que teletransportava cada sobrevivente para o interior das grandes naves estacionadas. Para que isso acontecesse, bastava que uma parte do seu corpo fosse atingida por aquela energia.

As atividades sobre os escombros foram iniciadas quando as condições mínimas de segurança foram asseguradas e permitiram o estacionamento da nave de apoio a alguns centímetros da superfície para desembarcar as equipes de trabalho e os equipamentos necessários. Uma nave de pequeno porte contava com oito equipes compostas por um espacial e um voluntário arretiano. Uma de médio porte tinha o dobro desses recursos e, nos dois casos, metade deles permaneciam descansando no interior da nave a fim de viabilizar o esquema de rodízio. Em seguida a nave subia alguns metros e modificava seu escudo protetor para um formato de guarda-chuva, dentro do qual os espaciais criavam uma atmosfera purificada e imune às ventanias ainda muito freqüentes naqueles momentos. O ambiente ficava bem iluminado e a nave podia se movimentar à vontade sem desfazer o guarda-chuva, o qual podia ser ampliado ou reduzido rapidamente, conforme as necessidades do trabalho.

Além da nave de apoio e dos equipamentos acima descritos, as equipes utilizavam roupas especiais altamente resistentes e confortáveis que não rasgavam e protegiam o corpo inteiro. Também dispunham de flutuadores individuais, lanternas, óculos para proteção dos olhos e visão noturna acoplados a aparelhos de respiração e purificação do ar, além de um equipamento semelhante a uma lanterna que anulava o peso de qualquer material. Bastava projetar seu foco sobre ele removê-lo como se fosse um isopor. Esses e outros recursos auxiliaram os trabalhos e permitiram cumprir os objetivos programados.

Os trabalhos no solo foram guiados pelos analisadores portáteis que se deslocavam automaticamente à procura de sinais vitais e paravam sobre o local onde havia um ou mais sobreviventes soterrados. Ali coletavam várias informações, atualizavam seus bancos de dados e transmitiam as alterações para o computador da nave e para o perfurador que, em seguida,   se posicionava no local e abria rapidamente o acesso até o sobrevivente, pois avançava mais de dois metros por minuto, independente dos materiais existentes em seu caminho. Assim que o acesso ficava pronto, a esfera do teletransportador manual era introduzida no local e rapidamente realizava o teletransporte do sobrevivente para a ala de recepção das grandes naves ou para a sua ala hospitalar, conforme a gravidade dos seus ferimentos. Quando as equipes que trabalhavam em cada setor concluíam os resgates referentes a um determinado nível de prioridades, reiniciavam o mesmo processo para resgatar os sobreviventes soterrados em profundidades maiores e assim sucessivamente, até resgatarem todos os sobreviventes.

Nas primeiras 24 horas foram resgatadas mais de 250 milhões de pessoas e as demais o foram nos dias seguintes, em números decrescentes a cada hora, pois as dificuldades eram cada vez maiores e as chances de encontrarem sobreviventes eram cada vez menores. Muitos daqueles que foram resgatados nos últimos dias e horas, estavam sob montes de escombros superiores a 50 metros. Cada um deles, ou os pequenos grupos que se encontravam próximos consumiram horas de trabalho, apesar do uso intensivo de equipamentos da mais alta tecnologia e da maior experiência, organização e eficiência das equipes, pois os trabalhos foram iniciados com um certo tumulto e baixa produtividade decorrentes da insegurança dos voluntários e do desconhecimento da tecnologia que tinham à disposição.

Mesmo assim, foram resgatadas todas as pessoas que apresentavam sinais vitais em todos os locais do planeta, incluindo muitas que estavam em estado terminal, pois todas foram consideradas como sobreviventes e igualmente teletransportadas para a ala hospitalar das grandes naves. A maioria dos resgatados durante os cinco dias e noites dessa longa operação foram teletransportados sem que os voluntários conhecessem sua real situação física e emocional. No final dos trabalhos, as naves fizeram uma varredura fina em todos os locais onde poderiam ser detectados sinais de vida humana e como não foram encontrados, deram por encerrada a operação.

A maioria das 600 milhões de pessoas resgatadas nos escombros apresentava ferimentos de todos os tipos e gravidades e, mesmo com os recursos da avançada medicina dos espaciais, muitos não resistiram e acabaram falecendo nas horas e dias seguintes. Vale ressaltar que os hospitais das naves tinham recursos para manter a vida e restaurar a integridade física de qualquer paciente, pois podiam até substituir partes ou um corpo completo que estivesse danificado por qualquer tipo de ferimento. Porém, esses recursos não podiam ser utilizados naquela ocasião sem interferir com a Lei e a Justiça Divina, a causa primária de todos os acontecimentos da grande transição. Dos quase 500 milhões que sobreviveram, a maioria apresentou recuperação total, apesar de que muitos sofreram perdas físicas, representadas por pernas, braços, pés ou mãos.

Antes do início da grande transição, Arret contava com 10,2 bilhões de habitantes e, durante as três horas em que os elementos da natureza mostraram todos os seus poderes destrutivos, ou saneadores, pereceram imediatamente, cerca de 4,5 bilhões de pessoas. Nas horas e dias seguintes, até o final do quinto dia, quando a operação de resgate nos escombros foi encerrada, entre os cadáveres que foram recolhidos pelas naves cargueiras, somados àqueles que não resistiram aos ferimentos e permaneceram soterrados sob os escombros, mais aqueles que morreram nos hospitais das grandes naves, pereceram outros 2,3 bilhões, totalizando cerca de 6,8 bilhões de habitantes. Mesmo com todos os esforços empreendidos por uma grande equipe de espaciais de várias procedências estelares e voluntários arretianos auxiliados por milhões de naves de todos os tipos e tamanhos, conseguiram resgatar e manter com vida cerca de 3,4 bilhões de pessoas, pois esse era o número definido pelos responsáveis pela Hierarquia Espiritual Arretiana e independia dos esforços e da vontade de trabalho dessa grande e maravilhosa equipe. Apesar do esquema inicial prever revezamentos a cada seis horas, todos os grupos se empenharam por mais de 12 horas seguidas, tomando apenas sucos e dispondo de poucas horas para higiene pessoal, alimentação e descanso.

Os resgates realizados nos escombros somente foram possíveis em função da boa vontade de todos os envolvidos e, principalmente, pelos avançados recursos tecnológicos que tinham à disposição. Esses recursos evitaram muitos acidentes graves durante os desmoronamentos que afetaram todas as equipes que trabalhavam nas áreas centrais dos grandes centros urbanos. Mesmo utilizando flutuadores de acionamento automático, roupas especiais e equipamentos de proteção individual, uns 200 mil voluntários e 50 mil espaciais sofreram ferimentos de maior gravidade. Muitos deles não morreram porque, nesses casos, os médicos espaciais podiam utilizar todos os recursos da avançada medicina que praticavam, incluindo a substituição parcial ou total do corpo original por clones perfeitos. A fase mais intensa e perigosa dos trabalhos ocorreu durante os três dias de escuridão total que se seguiu aos acontecimentos. A única claridade fora dos locais iluminados pelas naves ficou por conta dos incêndios que se alastraram pelas áreas florestais e periferias das grandes cidades, geralmente constituídas por casas de madeiras.

As atividades nos núcleos de sobrevivência

Assim que todos os sobreviventes foram acomodados nos 733.000 núcleos de sobrevivência iniciais e naqueles que foram posteriormente montados nos pequenos agrupamentos urbanos e rurais, foi estabelecida uma rotina de total recolhimento até a manhã do oitavo dia após a grande transição. Durante esses dias e noites, todos ficaram confinados nos iglus, pois as condições climáticas eram bastante adversas. Somente saíam durante o tempo necessário para abastecer os recipientes térmicos com água quente ou fria, tomar banho ou para fazer necessidades fisiológicas. Os poucos segundos que gastavam no trajeto representavam um grande desconforto, pois o frio era intenso e o ar irrespirável. Além dessas necessidades, a movimentação estava restrita ao recebimento de parentes e amigos que se encontravam em tratamento médico nas grandes naves e às visitas que os sobreviventes faziam entre si, incrementado bastante os relacionamentos, a união e a fraternidade entre eles. Também conversavam muito através do intercomunicador de voz e imagem que havia em todos os iglus.

Além da nave de apoio que permaneceu fixa em cada um dos 733.000 núcleos de sobrevivência, as três naves que chegaram posteriormente utilizaram boa parte do dia visitando os sobreviventes abrigados nos pequenos agrupamentos urbanos e rurais das proximidades, independente dos chamados ocasionais que recebiam. Durante esses deslocamentos, elas realizaram um completo levantamento das condições gerais da região sob sua responsabilidade, registrando com alto grau de precisão, uma grande quantidade de alimentos e materiais para recolhimento e aproveitamento posterior. Esses levantamentos foram realizados sem o pouso das naves, pois elas possuíam sofisticados equipamentos de rastreamento e análise da qualidade e quantidade de alimentos e materiais, semelhantes aos analisadores de sinais vitais humanos.

Como primeira prioridade, procuraram alimentos de todos os tipos nos escombros de silos, depósitos e supermercados. Também registraram plantações com alimentos não danificados ou contaminados pelas condições atmosféricas bastante adversas daqueles dias. Como segunda prioridade, procuraram utilidades domésticas, materiais de higiene, limpeza e diversos materiais de construção, além de uma infinidade de itens e coisas necessárias à nova realidade planetária, como mudas, sementes, fertilizantes, árvores secas ou mortas, fiações elétricas, metais e outras matérias primas recicláveis. À medida que levantavam esses dados eles eram transmitidos com as respectivas coordenadas de localização, para a nave do comando regional da operação de recolhimento de alimentos e outros materiais que seria desencadeada na madrugada do oitavo dia.

AS OUTRAS OPERAÇÕES DE RESGATE E SANEAMENTO

Características dos espaciais e dos trabalhos

Nos dias que antecederam a grande transição e nos dias posteriores à sua ocorrência, os espaciais desenvolveram diversas operações a nível planetário, não descritas nos itens anteriores. Elas foram realizadas sem a participação de voluntários locais, pois a maioria dos seres que participaram dessas operações tinha aparência um pouco ou muito diferente das características físicas predominantes no povo arretiano. Apesar de terem a aparência que sempre lembrava a de um ser humano, mesmo nos casos mais bizarros, havia diferenças físicas sensíveis entre eles e os arretianos. Para não causarem nenhum tipo de medo ou de desconfiança nos nativos do planeta, não interagiram com eles e deixaram os trabalhos que seriam realizados em conjunto com voluntários arretianos para aqueles que “tinham uma aparência melhor”. Esses espaciais foram tão extraordinários e prestativos quanto os demais e realizaram a maioria dos trabalhos “sujos ou nojentos” como o recolhimento e destinação de cadáveres humanos e de animais. Eles apresentavam diversos tipos de diferenças ou de aspecto físico, combinando uma ou mais das características a seguir descritas e válidas para a maioria deles.

  • Estatura maior ou menor e crânio mais ou menos desenvolvido e desproporcional com o tamanho do corpo.
  • Pernas e braço mais curtos ou mais longos, com maior o menor quantidade de dedos nas mãos e nos pés.
  • Olhos muito grandes, ou muito pequenos, ou um único, de todas as cores, desenhos e formatos.
  • Orelhas grandes ou ausentes, ou de formato exótico.
  • Coloração ou tipo de pele exótica, como a dos répteis.
  • Ausência total ou excesso de pelos no corpo.

Essas diferenças eram motivadas pelas mais diversas origens planetárias e estelares de cada grupo, pois alguns viviam em mundos localizados a poucos anos-luz de Arret e outros, a centenas ou milhares deles. Porém, independente da procedência ou forma física, todos formavam uma única e grande equipe de trabalho, harmônica, eficiente e dedicada. Todos tinham o único objetivo de auxiliar e servir o povo arretiano em um momento de grandes dificuldades e de total fragilidade, pois estavam completamente indefesos e sem saber onde ou a quem recorrer. Eles agiram como verdadeiros anjos e executaram trabalhos das mais diversas naturezas. Alguns foram agradáveis e delicados, como aqueles voltados para a preservação da flora e da fauna. Outros revirariam o estômago de qualquer terráqueo, como o recolhimento de cadáveres humanos e de outros seres mortos.

Independentes do tipo de trabalho, todos foram executados com amor e dedicação extrema, pois entendiam que eram necessários ao bem-estar dos sobreviventes e para o restabelecimento da normalidade da vida planetária. Esses seres que formavam a frota de apoio a Arret deram o grande exemplo que acelerou a mudança da mentalidade dos sobreviventes e transformou o caos e o desespero dos primeiros momentos em harmonia, felicidade, irmandade, igualdade e fraternidade. Além de tudo que foi acima registrado, vamos sintetizar algumas operações realizadas, começando pela preservação da flora e da fauna, desencadeada antes da ocorrência da grande transição. As demais foram realizadas nas horas, dias e meses seguintes, umas seqüencialmente e outras em paralelo.    

A preservação da flora e da fauna

Apesar do frio rigoroso e dos grandes incêndios florestais que ocorreram em várias regiões, não houve extinção de espécies e variedades da flora arretiana, pois aquelas que foram bastante castigadas em algumas regiões, sobreviveram em outras. Além disso, os espaciais recolheram uma grande quantidade de mudas e sementes durante os dias e noites que antecederam a grande transição, as quais foram suficientes para repovoar seus antigos ambientes. Eles deram especial atenção às flores, não só pela sua beleza, com pela sua delicadeza e baixa resistência aos poluentes, ao frio e ao calor. Idêntica atenção foi destinada às árvores frutíferas cultivadas ou silvestres. Delas recolheram mudas e sementes em maior quantidade e ainda adotaram um esquema especial para garantir a sobrevivência de uma infinidade de espécies adultas e produtivas. Em todas as áreas florestais e locais mais isolados, colocaram bilhares de proteções naquelas que pretendiam preservar, constituídas por uma capa de um material flexível e resistente ao frio e ao calor. Posteriormente, a retirada dessas proteções constituiu uma das primeiras atividades realizadas pelos sobreviventes.

Todos os pássaros seriam exterminados pelas adversidades climáticas se os espaciais não tivessem tomado duas providência básicas. A primeira foi realizada durante as noites e dias anteriores à grande transição e objetivou a captura de uma grande quantidade de aves representativas de quase todas as espécies e variedades que viviam no planeta. Para facilitar o trabalho, utilizaram meios de atração e raios transportadores, como aqueles empregados nos resgates de sobreviventes. Essas aves foram colocadas em viveiros no interior das naves e assim que as condições atmosféricas voltaram à normalidade, foram soltas nas regiões e florestas menos afetadas e apropriadas a cada uma delas, a fim de garantir a alimentação e a continuidade de cada espécie. A segunda foi realizada nas proximidades dos locais destinados à implantação dos núcleos de sobrevivência, quando capturaram uma grande quantidade de pássaros e os colocaram em viveiros dentro de barracas apropriadas, onde foram monitoradas, alimentadas e soltas posteriormente.

Os animais foram objeto de uma operação especial e bastante trabalhosa que envolveu um grande número de naves e de espaciais em função de dois aspectos básicos. Um deles dizia respeito ao porte mais ou menos avantajado dessas espécies e o outro à necessidade de celas ou viveiros individuais para muitas delas. Essa operação foi iniciada alguns dias antes do início dos acontecimentos, priorizando a coleta de animais que viviam mais isolados. Todos foram mantidos, cuidados e tratados em grandes naves adaptadas para essa finalidade, lembrando a Arca de Noé. Eles também foram soltos a partir do sétimo dia em seu ambiente natural. Os peixes e animais marinhos não corriam riscos de extinção e por isso permaneceram em seus habitats naturais. Porém, preservaram, em suas naves, várias espécies de peixes de água doce, de tanques ou represas. Quanto aos répteis, aranhas, escorpiões e insetos de todos os tipos, não tomaram nenhuma providência especial, pois estava prevista a extinção imediata de quase todos eles. Alguns ainda sobreviveram por vários anos e foram extintos gradativamente até o ano 70 depois da grande transição, quando a aura planetária foi totalmente saneada e purificada.

O recolhimento de cadáveres humanos

Essa grande operação foi realizada em diversas frentes durante as horas e dias seguintes à grande transição e envolveu uma grande quantidade de naves e de espaciais. Seu objetivo foi o recolhimento de cadáveres humanos que estavam boiando ou submersos nas águas dos rios ou dos mares, ou se encontravam sobre o solo, ou sob os escombros, ou soterrados próximos da sua superfície em todos os locais do planeta. Aqueles que estavam soterrados abaixo de dois metros não foram recolhidos, pois não apresentavam riscos para os sobreviventes. Em todas as médias e grandes cidades havia milhares e até milhões de cadáveres que começariam a entrar em decomposição logo que o frio intenso fosse amenizado, entre o quarto e o sétimo dia seguinte à grande transição. Apesar de não existirem núcleos de sobrevivência em suas proximidades, a putrefação desses corpos representava diversos problemas potenciais, além do aspecto tétrico de sua decomposição.

Conforme registramos anteriormente, durante os trabalhos das equipes de resgate nos escombros, havia naves cargueiras recolhendo os cadáveres através de raios transportadores. No interior dessas naves, aqueles que portavam documentos e podiam ser identificados, foram acondicionados em urnas funerárias especiais, iguais àquelas utilizadas durante o atendimento às pequenas cidades e agrupamentos rurais. Seus documentos foram cadastrados em um banco de dados para consulta futura, contendo o nome, idade, sexo, cidade e setor de procedência do corpo, além do local de destino do mesmo. Também emitiram uma etiqueta para identificação de um pacote lacrado e fixado na urna, contendo todos os documentos e outros pertences encontrados com o cadáver. Depois de identificadas, as urnas foram colocadas em um compartimento próprio da nave e separadas por local de destino. Quando não era possível a identificação, o cadáver era colocado em uma urna flexível que não utilizava a injeção de gás embalsamante e não adquiria rigidez. Essas urnas foram colocadas em um outro compartimento da nave, pois cada tipo teve uma destinação ou sepultamento diferente, conforme será detalhado mais abaixo.

Outra frente de trabalho recolheu as urnas que estavam abrigadas nas barracas montadas nas pequenas cidades e agrupamentos rurais. Todas elas tinham identificação e depois de cadastradas no banco de dados, se juntaram às demais do mesmo tipo e foram igualmente separadas por local de destino. Em meio a essas frentes, outras naves cargueiras recolheram os cadáveres que se encontravam nas áreas rurais ou nas águas e praias dos rios e dos mares. O recolhimento desses cadáveres em todo o planeta foi realizado em duas etapas por naves que tinham um determinado setor ou região sob sua responsabilidade. A primeira foi iniciada após as três horas principais de atuação dos elementos da natureza, quando essas naves começaram a recolher todos os cadáveres que estavam na superfície do solo ou dos escombros e podiam ser atingidos e “puxados” pelos raios transportadores. A segunda etapa teve início após a liberação das naves que participaram da operação de resgate nos escombros das pequenas médias e grandes cidades. Essas naves realizaram o mesmo tipo de trabalho e com a mesma tecnologia de desmaterialização voltada para a liberação de cadáveres que estavam presos ou soterrados próximos à superfície do solo, a fim de permitir o seu recolhimento pelas demais naves cargueiras.

Conforme elas recolhiam os cadáveres, procediam da mesma maneira anteriormente citada quanto àqueles que tinham documentos de identificação ou não. Assim que elas completavam sua lotação, ou os trabalhos eram encerrados em cada setor ou região, os espaciais iniciavam a fase de destinação ou de sepultamento dos corpos. Todas as urnas identificadas foram colocadas nas proximidades de um centro urbano de médio ou grande porte existente na região de origem dos corpos, em áreas correspondentes a cada cidade, setor ou local de procedência dos mesmos. Esse trabalho foi realizado no solo e as urnas foram abrigadas em barraca idênticas àquelas instaladas nas pequenas cidades e agrupamentos rurais. Com isso e com as informações contidas nos bancos de dados, os parentes e amigos puderam sepultar ou dar um destino mais adequado aos entes queridos quando o planeta voltou à normalidade.

As urnas sem identificação foram colocadas em fendas secas já existentes ou abertas pelos terremotos nas proximidades dos centros urbanos ou da região de procedência dos corpos. Esses trabalhos foram realizados sem pouso, pois as urnas foram depositadas através de raios transportadores, uma ao lado da outra, em uma superfície previamente nivelada pelas naves cargueiras que descarregaram os entulhos pulverizados recolhidos durante a operação de resgate nos escombros. Em seguida, as urnas foram cobertas com uma camada de entulhos pulverizados com dois metros de espessura, sob o qual depositaram um novo conjunto de urnas. Esse procedimento foi repetido até quando as urnas atingiram o nível de quatro a cinco metros abaixo da superfície do solo, quando a fenda foi preenchida com terra fértil recolhida nas proximidades. No final dessa operação, encheram muitas dessas fendas e, além de fornecer a melhor sepultura possível nas condições em que o planeta se encontrava, os espaciais evitaram a contaminação do ar, riscos de epidemias e uma visão futura bastante tétrica, representada por uma grande quantidade de esqueletos ao ar livre.

O recolhimento de outros seres mortos

Atingindo grandes proporções em relação aos cadáveres humanos, havia um número incalculável de carcaças de animais, pássaros, répteis e peixes mortos em todos os lugares do planeta. Assim que cada nave cargueira encerrou os trabalhos de recolhimento e destinação de cadáveres humanos nas regiões sob sua responsabilidade, os espaciais desencadearam outra grande operação de saneamento planetário. Ela foi iniciada a partir dos arredores dos núcleos de sobrevivência e, até o final do sétimo dia após a grande transição, se estendeu até os mais remotos locais do planeta, abrangendo todas as suas terras rios e mares.

Essa operação foi realizada sem necessidade de pouso das naves cargueiras, tanto daquelas que liberavam as carcaças que estavam presas ou soterradas próximas à superfície, como daquelas que efetuavam os recolhimentos através de sensores e raios transportadores especiais que cobriam uma área bem mais larga que aqueles utilizados durante os resgates de seres humanos. Eles funcionaram como uma espécie de esteira rolante que coletava uma grande quantidade de pequenas carcaças a cada passada. Quando esses raios de “banda larga” passavam por uma lagoa onde havia uma grande quantidade de peixes mortos, todas as carcaças atingidas por eles eram transportadas para o interior da nave, deixando uma larga faixa de água completamente limpa.

Quando as naves atingiam sua capacidade de carga, todas as carcaças eram depositadas em grandes ou pequenas fendas secas abertas por terremotos em camadas com até dois metros de altura, alternadas com outro tanto de entulhos pulverizados. Como no caso dos cadáveres de humanos, esses procedimentos foram repetidos até que a última camada de carcaças atingisse o nível de quatro a cinco metros abaixo da superfície do solo, os quais foram preenchidos com terras férteis recolhidas nas proximidades. Com isso, os espaciais fecharam mais uma grande quantidade de fendas e evitaram uma série de riscos para os sobreviventes.

O recolhimento de alimentos e outros materiais

Na madrugada do oitavo dia foi iniciada outra grande operação a nível planetário que envolveu um grande número de naves cargueiras e outras para apoio aos trabalhos no solo durante os sete dias seguintes. Ela não contou com a participação de voluntários arretianos e foi dividida em duas fases. Na primeira, deram prioridade para o recolhimento de alimentos, utilidades domésticas e materiais de higiene e limpeza. Na segunda recolheram diversos tipos de materiais de construção, mudas, sementes, ferramentas, compostos, fertilizantes agrícolas, veículos elétricos e triciclos, dentre outros itens semelhantes. As duas fases envolveram a realização de trabalhos no solo e foram planejadas com base nos levantamentos realizados pelas naves alocadas nos núcleos de sobrevivência. O planeta foi dividido em inúmeros setores dos mais variados tamanhos, definidos em função da concentração, volume e características dos produtos e materiais disponíveis em cada região.

Cada setor ficou sob a responsabilidade de uma equipe de que contava com várias dezenas de espaciais, uma nave cargueira de médio ou grande porte para armazenar e transportar os materiais, uma nave de apoio aos trabalhos no solo, diversos equipamentos utilizados durante a operação de resgate nos escombros e outros específicos para facilitar os trabalhos, como carrinhos e plataformas flutuantes para coleta dos materiais. As equipes foram auxiliadas por um “pool” de naves cargueiras responsáveis pela retirada de entulhos e desobstrução dos locais. Elas foram as primeiras a entrar em ação e a terminar seus trabalhos nas fábricas, supermercados, atacadistas e depósitos instalados em grandes galpões e outras edificações. Todos os entulhos foram removidos por desmaterialização e destinados conforme os critérios utilizados durante a operação de resgate nos escombros.

Assim que uma nave do “pool” terminava a desobstrução de um determinado local, a nave de apoio do respectivo setor pousava nas proximidades e desembarcava a equipe encarregada de recolher os materiais. Em paralelo, a nave cargueira estacionava sobre o local e liberava uma grande quantidade de “carrinhos flutuantes” com uma a três cestas ou plataformas sobrepostas, com uns oitenta centímetros de largura e um metro e meio de comprimento. Os carrinhos ficavam estacionados em pontos estratégicos, não tinham operadores e eram programados para transitar entre o local da coleta e a nave cargueira, além de atender a uma série de comandos dos espaciais, tanto remotos, como em seu teclado de controle. Conforme cada espacial requisitava um ou mais carrinhos com certa quantidade de plataformas, eles se dirigiam automaticamente até o local onde o requisitante se encontrava. Cada carrinho era carregado com produtos pertencentes a um mesmo grupo básico, como sabonetes, compotas de frutas, detergentes ou cremes dentais. 

Quando o espacial identificava o grupo básico no teclado de controle e liberava o carrinho com carga total ou parcial, ele se dirigia automaticamente à nave cargueira e estacionava no setor correspondente ao seu grupo de produtos. Lá, outros espaciais descarregavam e liberavam os carrinhos para retorno ao local de coleta. Em seguida classificavam os produtos por tipo específico e os acondicionavam em embalagens com quantidades padronizadas. Por último, registravam esses dados no computador da nave através de comando de voz e acondicionavam as embalagens em containeres específicos. Quando a carga da nave atingia seu limite, os containeres eram descarregados em grandes depósitos que os espaciais instalaram nos dias anteriores em ilhas e outros locais inabitados do planeta.

Conforme cada equipe concluía o recolhimento e o transporte dos alimentos, utilidades domésticas e materiais de higiene e limpeza que havia em cada setor, iniciava o recolhimento dos materiais de construção, como fios, ferros, tintas, tubulações e conexões, dentre outros, bem como, de mudas de árvores frutíferas e ornamentais, sementes de todos os tipos, ferramentas manuais, fertilizantes agrícolas, triciclos e veículos elétricos. Essa segunda fase obedeceu à mesma estratégia e procedimentos utilizados na primeira, com algumas diferenças. O recolhimento de materiais e itens de maior porte foi realizado através de plataformas flutuantes e outros equipamentos especiais, como os raios transportadores que transferiam os materiais mais pesados ou volumosos diretamente para o interior das naves cargueiras.  

As duas fases apresentaram expressivos resultados quantitativos e qualitativos, superando as expectativas iniciais. A maioria dos alimentos básicos estava em excelentes condições e suas quantidades foram suficientes para atender os sobreviventes durante mais de três meses. No caso dos demais alimentos, como doces, molhos e biscoitos, suas quantidades foram suficientes para suprir as necessidades durante um tempo maior. Quanto às utilidades domésticas representadas por panelas, pratos garfos e outros itens semelhantes, resgataram um conjunto significativo e suficiente para atender quase todos os sobreviventes. Os materiais de higiene e limpeza, incluindo toalhas e tecidos para cama, mesa e banho, permitiram atender todas as necessidades iniciais. Com relação aos diversos tipos de materiais de construção, muitos itens atenderam todas as necessidades de instalação dos novos núcleos de trabalho.

O recolhimento dos insumos agrícolas também surpreendeu, pois obtiveram uma grande quantidade de sementes de cereais, hortaliças, flores e espécies florestais com excelente grau de conservação, além de uma alta tonelagem de compostos e fertilizantes agrícolas. Como havia grandes viveiros de mudas abrigadas em estufas nas periferias de muitas cidades, quase todas estavam em boas condições para plantio. Aquelas que sofreram com o frio intenso foram recuperadas pelos espaciais e totalmente aproveitadas. Quanto aos triciclos, foram recolhidos cerca de 2 bilhões deles em boas condições e outros tantos parcialmente danificados. Também recolheram mais de 100 milhões de veículos elétricos movidos a energia solar que estavam operacionais ou apresentavam boas condições para recuperação, além de uma quantidade três vezes maior com diversos problemas causados pelos elementos da natureza.

A montagem do novo complexo industrial

Em um trabalho paralelo à operação de recolhimento de alimentos e outros materiais, os espaciais iniciaram a montagem de complexos industriais nos dois continentes polares, em grandes planícies das regiões mais altas onde o gelo já havia derretido. Escolheram esses locais para aproveitar essas novas áreas, evitar a cobiça de alguns sobreviventes e garantir total liberdade de trabalho para muitos espaciais que não tinham as mesmas características físicas dos arretianos. Nesses continentes não havia núcleos de sobrevivência e nem estava prevista a instalação inicial dos novos núcleos de trabalho comunitário. O acesso a eles só era possível através de naves, pois ficavam separados dos continentes equatoriais por algumas dezenas ou centenas de quilômetros.

Começaram montado uma série de grandes iglus com largura, altura e comprimento variável, os quais foram rapidamente montados com material inflável sobre pisos de pedras planas com encaixes milimétricos e revestimento sintético de alta resistência. As composições dos desenhos e cores desses pisos formavam verdadeiras obras de arte. Alguns iglus foram utilizados para classificação, separação e armazenamento de sucatas e materiais recicláveis. Outros foram destinados à montagem de “usinas siderúrgicas” para a reciclagem de materiais, além de outras indústrias voltadas para o aproveitamento dessas matérias-primas e sua transformação em uma série de utilidades para a nova vida planetária. Alguns galpões foram utilizados para armazenamento dessas utilidades e de outros materiais e equipamentos trazidos de seus planetas de origem. Conforme a sua destinação, cada iglu tinha cores e faixas específicas que se cruzavam no teto, como os iglus dos núcleos de sobrevivência.

As “usinas siderúrgicas” atuavam com uma tecnologia diferente das suas congêneres terrestres. Elas “fundiam” os diversos materiais através de um processo de “desmaterialização e reagrupamento molecular” que permitia separar e recompor as características originais dos materiais componentes de qualquer tipo de sucata. Quando um carro completo e totalmente amassado era colocado nesse processo, todos as matérias-primas básicas utilizadas na sua fabricação, como borrachas, plásticos, ferros, aços, alumínios, cobres, bronzes eram recuperados com todas as suas características originais. Toda a produção dessas “siderúrgicas” foi armazenada para uso futuro, incluindo uma grande quantidade de metais preciosos que deixaram de ser considerados como tal e passaram a representar apenas mais um tipo de matéria-prima. As primeiras “usinas” entraram em operação duas semanas após a grande transição e o restante do complexo industrial ficou pronto no mês seguinte.

O recolhimento de sucatas e sua industrialização

No décimo quinto dia foi iniciada outra operação a nível planetário que atuou prioritariamente nas áreas urbanas e envolveu uma boa parte das naves cargueiras que concluíram os resgates de materiais de construção. Ela teve o objetivo de recolher diversos tipos de materiais para reciclagem nas usinas montadas nos dois continentes polares, priorizando a coleta dos materiais que se encontravam na superfície do solo. Começaram recolhendo e transportando todos os materiais que tinham alta composição de plásticos ou borrachas em sua fabricação. Como segunda prioridade, recolheram todos os tipos de veículos terrestres, aéreos e marítimos, exceto os automóveis elétricos e triciclos que já haviam sido recolhidos durante a operação anterior. Em seguida, recolheram quase todas as fiações elétricas urbanas, esquadrias metálicas, ferragens e outras sucatas componentes das instalações residenciais e prediais, incluindo metais preciosos armazenados em grandes e pequenos cofres.

Quando os materiais estavam presos a estruturas de alvenaria ou de concreto que se encontravam na superfície ou próximas dela, estas eram pulverizadas com raios de alta freqüência que deixavam os materiais completamente soltos e prontos para desmaterialização e transferência para o interior das naves cargueiras, onde eram reagrupados em blocos de um metro cúbico. Assim foram procedendo com vários tipos de sucatas ao longo de duas semanas de intenso trabalho. Com isso, os especiais conseguiram resgatar, classificar e transportar para os continentes polares, um grande volume de materiais de todos os tipos, cuja tonelagem total era incalculável. Essa operação retirou apenas uma parte das sucatas urbanas, pois muitas estavam soterradas sob montanhas de concreto ou no subsolo das grandes edificações.

Em uma operação paralela nos continentes polares, uma grande equipe de espaciais, auxiliada por robôs e máquinas especiais, trabalhava em uma variada gama de atividades para aproveitar os materiais coletados. Eles foram transformados em reservatórios, tubos e conexões para água potável ou esgoto, placas para cobertura das novas residências, pisos, pratos, vasilhas e varias outras utilidades domésticas necessárias para a nova fase da vida planetária, suprindo ou complementando os estoques de produtos resgatados em operações anteriores. Após o término da operação de recolhimento e transporte de sucatas, concluída por volta do trigésimo dia, a maior parte das naves cargueiras e várias outras retornaram aos seus planetas de origem. Elas voltaram no início do segundo semestre para realizar uma outra grande operação que envolvia a remoção de todos os escombros urbanos, recolhimento de sucatas e ossadas humanas soterradas, fechamento das fendas abertas por terremotos e normalização dos acessos terrestres, como será descrito mais adiante.

O recolhimento e a preparação de madeiras

Em paralelo à operação anterior os espaciais realizaram outra de grandes proporções, dividida em duas frentes. A primeira objetivou localizar, cortar, recolher e transportar toras e partes aproveitáveis de árvores mortas ou que foram seriamente danificadas pelos elementos da natureza ou pelos incêndios florestais. Todas as árvores apropriadas e necessárias para construção das novas residências e fabricação do seu mobiliário foram retiradas das florestas, do leito dos rios, das praias, de áreas urbanas, de serrarias e depósitos de madeiras serradas. As árvores foram cortadas com raios do tipo laser e suas partes aproveitáveis foram separadas, recolhidas pelas naves cargueiras e descarregadas em clareiras próximas, onde foram classificadas por tipo, diâmetro, comprimento e grau de umidade. Também recolheram e transportaram as toras e madeiras serradas que estavam estocadas em serrarias e depósitos existentes em quase todas as cidades do planeta. No final de doze dias de intensos trabalhos, os espaciais conseguiram uma grande quantidade de toras e de madeiras serradas que foram suficientes para suprir todas as necessidades iniciais, com grandes sobras para uso futuro.

A segunda frente foi iniciada em seguida e se estendeu por vários meses. Seu objetivo envolvia a montagem de “serrarias” para cortar as toras e de marcenarias para transformar as madeiras serradas em peças apropriadas à construção de moradias para todos os sobreviventes, além de edificações coletivas e respectivos móveis. Em cada ponto estratégico de uma região onde seriam instalados cerca de 50 núcleos de trabalho comunitário agrícola, os espaciais montaram em poucos dias, uma “serraria” e três “marcenarias” com todas as máquinas necessárias, além de outros iglus do mesmo tipo utilizado nos continentes polares. Começaram Instalando os iglus para armazenar toras secas, úmidas e madeiras serradas recolhidas nos depósitos. Depois instalaram aqueles destinados às serrarias e às marcenarias e, por último, os iglus necessários para armazenar as peças de madeiras destinadas à construção das novas edificações e seus mobiliários.

Logo que concluíram os iglus para armazenamento das toras e madeiras serradas, os espaciais transportaram para eles todas as madeiras recolhidas e armazenadas em milhares de locais do planeta. Cada “serraria” e respectivas “marcenarias” receberam a mesma metragem cúbica de toras e de madeiras serradas, equivalentes em termos de aplicação, qualidade e durabilidade. Em seguida, as “serrarias” começaram a cortar as toras secas em pranchas ou tábuas de diversas espessuras, segundo um plano de aproveitamento de cada tipo e diâmetro das toras. O corte de uma tora de qualquer diâmetro era realizado em uma única e rápida operação, pois as máquinas utilizavam feixes de raios paralelos que não produziam pó e deixavam a madeira completamente lisa e brilhante, dispensando o uso de outras máquinas de acabamento, como a desengrossadeira, a plaina e a lixadeira. Essas pranchas e tábuas, incluindo aquelas recolhidas nos depósitos, passaram por outras operações semelhantes para produzir as madeiras básicas que, nas marcenarias, eram transformadas em diversos tipos de peças padronizadas destinadas à construção das edificações e montagem do seu mobiliário.

Em menos de quinze dias os espaciais e suas máquinas maravilhosas produziram peças suficientes para construir todos os depósitos de alimentos, restaurantes coletivos e boa parte dos almoxarifados de materiais de trabalho, incluindo o seu mobiliário básico, como prateleiras, mesas, cadeiras e outros tipos de móveis que obedeciam a um desenho simples, confortável e funcional. Em seguida, começaram a produzir peças para construção dos diversos tipos de habitações e respectivos mobiliários. Todas as serrarias e marcenarias concluíram seus trabalhos antes do final do quarto mês, quando a maiorias dos espaciais que as operaram retornaram aos seus planetas de origem.

O REINÍCIO DAS ATIVIDADES PLANETÁRIAS

A criação das juntas de governo

No oitavo dia após a grande transição, quando a vida nos núcleos de sobrevivência começou a voltar à normalidade, foram iniciadas as reuniões de trabalho nas naves que abrigavam as autoridades de cada país. Elas se prolongaram por sete dias e os dois primeiros foram utilizados para sistematizar as conversas realizadas nos dias anteriores, além de fornecer um vasto conjunto de novas informações aos participantes, objetivando nivelar o grau de entendimento a respeito dos acontecimentos e preparar seus espíritos para o novo modelo de sociedade planetária. Essas reuniões foram presididas pelo comandante de cada nave e delas participaram o principal mandatário e seus ministros, os governadores ou equivalentes e seus principais colaboradores, altos membros dos poderes legislativo, judiciário e das forças armadas, além de alguns espaciais especialistas em questões governamentais e voluntários do grupo inicial. Os governantes que não sobreviveram foram representados por vices ou outras pessoas escolhidas previamente.

Além daquilo que essas autoridades tiveram oportunidade de acompanhar nos dias anteriores, os espaciais começaram falando sobre as operações já realizadas, daquelas que estavam em andamento e das demais que seriam desencadeadas nos dias seguintes. Apresentaram as razões da “intervenção” que realizaram e continuavam realizando no planeta e, para justificar a intensidade e abrangência dos acontecimentos da grande transição, apresentaram, de maneira crescente, os diversos tipos de agressões que os arretianos fizeram contra a natureza e contra eles mesmos nos anos e séculos anteriores, bem como, as reações dos quatro elementos no mesmo período. Por último, falaram sobre o modo de vida dos povos de alguns planetas que participavam da frota de apoio a Arret e sobre a necessidade de busca de um novo modo de vida para o povo arretiano.

Ao longo desses dois dias, esclareceram diversas dúvidas e obtiveram o apoio total dos participantes para o plano de normalização da estrutura planetária, incluindo alguns que sempre manifestaram desconfiança quanto aos “reais motivos que levaram os espaciais a utilizar tantos recursos humanos e materiais para ajudar o povo arretiano”. Essas pessoas imaginavam que os espaciais esperavam obter grandes vantagens materiais e assim pensavam porque estavam acostumadas a assim proceder. Uma boa parte delas somente se sujeitou à situação em que se encontravam nos dias anteriores, por absoluta impossibilidade de reação e pelo receio da alta tecnologia e do imenso poder que os espaciais e suas naves maravilhosas demonstravam em cada uma das operações realizadas. No início do terceiro dia de reuniões, em meio a um ambiente harmônico e cooperativo, os espaciais falaram sobre o plano que definiram para acomodar os sobreviventes e promover a auto-suficiência alimentar nos próximos seis meses. Prometerem fornecer todo o suporte necessário para facilitar e agilizar os trabalhos dos governantes, incluindo a participação de um grande número de espaciais, de naves e de outros equipamentos.

Os espaciais expuseram que havia chegado o momento de iniciar a reorganização da nova sociedade arretiana e que cabia a eles apenas apoiar o desenvolvimento das atividades gerais e executar somente aquelas que os arretianos não podiam, ou ainda não tinham condições operacionais para realizá-las. Para isso, propuseram a formação de uma junta de governo federativo e juntas correspondentes a cada estado ou divisão federativa, em moldes parecidos com aquelas implantadas no país de Olintho. Essas juntas teriam o objetivo de coordenar a implantação dos núcleos de trabalho comunitário agrícola, os novos NTCA, e as demais atividades voltadas para a normalização da vida planetária.

Cada junta teria um coordenador e contaria com uma pequena estrutura composta por uma parte dos membros do primeiro escalão de cada nível de governo e alguns auxiliares diretos, pois as novas funções do macrosistema planetário seriam padronizadas e radicalmente simplificadas em relação ao modelo anterior, a fim de viabilizar a auto-suficiência dos sobreviventes quanto às suas necessidades básicas em um tempo bastante curto. Os espaciais ofereceram uma nave de porte apropriado e com as acomodações necessárias para abrigar os ambientes de trabalho e residenciais dos membros de cada junta e seus familiares. Cada uma dessas naves contaria com uma pequena tripulação para seu comando e operação, além de alguns especialistas em questões governamentais, entre espaciais e voluntários do grupo inicial. Conforme a extensão territorial, quantidade de sobreviventes de cada país e respectivas divisões territoriais, os espaciais também ofereceram algumas de naves de pequeno porte para facilitar e agilizar os deslocamentos dos membros de cada junta de governo dentro das respectivas áreas de atuação. Todas as naves, além da grande velocidade de deslocamento, possuíam cabines de teletransporte, equipamentos de comunicação, produção de textos e várias outras facilidades.

Em média, as juntas federativas seriam criadas com 49 membros e as estaduais com 35, pois havia diferenças para mais ou para menos, conforme a extensão territorial, condição em que se encontrava cada país ou estado e quantidade de sobreviventes de cada um deles. No total, seriam destinadas 450 naves principais para as juntas federativas, quase 7.000 para as estaduais e umas 35.000 para locomoção das equipes e igual número de especialista em questões governamentais. Eles funcionariam com assessores dos membros das juntas de governo e seriam os responsáveis pela obtenção de qualquer tipo de apoio adicional necessário. A proposta encontrou grande receptividade e todos entenderam que não havia necessidade de implantar uma estrutura maior para comportar todas as autoridades abrigadas nas naves e muito menos, algo parecido com aquela que tinham anteriormente. Entenderam que a situação do planeta não necessitava de atividades de gabinete e sim de intenso trabalho de campo para apoiar os sobreviventes e aparar as arestas que viessem a prejudicar os relacionamentos entre eles.

Em seguida os espaciais deram total liberdade para que os dirigentes federativos e estaduais definissem os coordenadores das novas juntas de governo e seus demais membros. A maioria dos antigos dirigentes continuou na coordenação, mas muitos preferiram renunciar e indicar substitutos. Quase todas as renúncias decorreram de profundas autocríticas, especialmente, dos dirigentes de países com regimes totalitários. Os membros de cada junta foram indicados com base em critérios de competência, dedicação e liderança, além de novos critérios que aprenderam naqueles dias de convivência com os especiais, com seus pares e com seus antigos colaboradores. No final do décimo quarto dia todas as novas juntas de governo estavam definidas e as demais autoridades que foram delas excluídas já haviam escolhido o local para onde queriam ser transferidas com seus familiares.  

Todas as reuniões realizadas naqueles dias aconteceram na parte da manhã. Uma parte do horário da tarde era dedicada ao acompanhamento das operações realizadas pelos espaciais e o final da tarde e a noite para atividades de lazer com os amigos e com suas respectivas famílias, as quais passaram a ter grande importância para essas autoridades, pois elas pouco se dedicavam anteriormente às suas esposas e filhos. As reuniões e as observações daqueles dias, somadas às imagens da grande transição, dos resgates e das operações efetuadas e em andamento, firmaram em suas mentes um conceito muito claro a respeito do que havia acontecido com o planeta e sobre a importância dos trabalhos realizados pelos espaciais e daqueles que tinham pela frente.

Com o decorrer dos dias era muito difícil encontrar alguém que não se sensibilizasse com o nível de dedicação dos amigos das estrelas aos sobreviventes, especialmente com relação ao carinho que dispensavam àqueles que se recuperavam de ferimentos de todos os tipos. Por essas e por outras razões, foram raros os problemas para aceitação das propostas para formação das juntas de governo, ou para acomodação daqueles que não foram aproveitados e que, juntamente com seus familiares, iriam ser transferidos para os novos núcleos de trabalho comunitário agrícola que escolheram, os NTCA. Logo após a refeição da manhã do décimo quinto dia, todos foram transferidos para os locais escolhidos e foram acomodados em iglus do mesmo padrão oferecido a todos os sobreviventes. Na parte da tarde os comandantes de cada nave fizeram reuniões com os membros das juntas de governo e reforçaram a linha de ação que todos deveriam seguir. Também detalharam o cronograma de visitas às bases por eles montadas nos dias anteriores e aos novos núcleos de trabalho. Durante a manhã do décimo sexto dia foi realizada a transferência das juntas de governo para as naves destinadas a cada uma delas. 

A transferência dos sobreviventes para os NTCA

Na manhã do oitavo dia a vida começou a voltar à normalidade nos núcleos de sobrevivência espalhados pelo planeta e todos puderam sair dos iglus para caminhar livremente pelo local onde estavam confinados durante sete dias. Porém, todos os sobreviventes tiveram um comportamento semelhante em todos os locais. Ao invés de passearem pelas cercanias dos núcleos, preferiram se reunir em grandes ou pequenos grupos para conversar e trocar idéias sobre os acontecimentos da grande transição, sobre a tragédia que os atingiu e sobre a ajuda que tiveram dos espaciais, pois todos perderam parentes, amigos e seus bens materiais. Também conversaram sobre as alternativas de sobrevivência e sobre a necessidade de definirem um novo modo de vida, totalmente diferente daquele anterior à grande transição.

Naquela manhã, uma parte significativa das pessoas retidas para tratamento nas naves retornou ao convívio familiar, juntamente com as mães e crianças que nasceram após o início dos resgates, pois os espaciais preferiram retê-las nas naves para que recebessem assistência médica e tivessem um conforto maior que aquele oferecido pelos iglus. O retorno dessas pessoas representou uma alegria adicional e propiciou diversos novos relatos a respeito de suas experiências e das atenções que receberam dos amigos das estrelas, a nova denominação que começavam a atribuir aos espaciais. Seus relatos foram emocionantes, tanto pela tragédia em si, como pelo tratamento especial que receberam no interior das naves. Com algumas exceções centradas em pessoas que perderam todos os seus familiares, o ambiente era de alívio, camaradagem e gratidão. Foi naquele dia que começou a florescer o princípio da fraternidade e da irmandade entre a grande maioria dos sobreviventes.

Após o jantar fizeram fogueiras e ao redor delas se juntaram grupos mais ou menos numerosos para confraternizar e continuar as conversas do dia. Um pouco mais tarde os espaciais se juntaram aos sobreviventes e informaram a respeito do destino que muitos teriam nos próximos dias em razão de uma boa parte dos núcleos de sobrevivência terem sido instalados em locais impróprios para agricultura e escolhidos unicamente em função do nível de segurança que apresentaram durante e após os acontecimentos da grande transição. Esses sobreviventes seriam transferidos para os novos núcleos de trabalho comunitário agrícola, os NTCA, em grupos de 1.000 pessoas, entre adultos e crianças, para facilitar a convivência, o entrosamento e o desenvolvimento dos trabalhos. Após fornecerem informações gerais sobre os NTCA, os espaciais marcaram uma reunião para a noite seguinte, onde forneceriam outros detalhes e também falariam sobre o que aconteceu com o planeta durante a grande transição, pois os sobreviventes tinham informações parciais e limitadas àquilo que cada um deles presenciou ou sentiu no local onde se encontrava na ocasião.

Como todos estavam curiosos a respeito da nova visão do firmamento arretiano, os espaciais forneceram várias informações a respeito das alterações ocorridas e sobre as mudanças climáticas que seriam sentidas nos próximos meses, incluindo o novo regime de chuvas que ocorreriam entre meia noite e seis horas da manhã, de maneira leve e contínua, sem ventos fortes, trovões ou raios e sob o controle de um grupo de naves, pois as novas chuvas teriam apenas o objetivo de manter o teor ideal de umidade da terra e do ar. Quando os espaciais se recolheram, os sobreviventes continuaram conversando até por volta da meia noite, quando começou a chover, conforme havia sido informado. Os sobreviventes abrigados em núcleos instalados em pequenas cidades e agrupamentos rurais foram contatados durante o dia seguinte e naqueles com menos de 300 pessoas, informaram que todas seriam transportadas para um núcleo maior das proximidades e depois da reunião retornariam ao local de origem.

O nono dia transcorreu de maneira semelhante ao anterior, com muitas conversas e confraternizações. Após o jantar, os sobreviventes instalados em núcleos com mais de 300 pessoas foram reunidos em um local central, juntamente com aqueles provenientes dos núcleos menores. Para nivelar o grau de conhecimento e de compreensão de todos os sobreviventes, os espaciais utilizaram uma grande tela tridimensional para apresentar imagens da atuação dos elementos da natureza, dos resgates efetuados e do estado a que foram reduzidos os grandes centros urbanos, cidades litorâneas e malhas viárias mais conhecidas de todos, além de aspectos gerais das demais operações realizadas. Exceto os voluntários que participaram dos resgates nos escombros e aqueles que pertenciam ao grupo inicial, ninguém tinha idéia exata do nível de destruição que ocorreu no planeta, especialmente, com relação ao estado a que foram reduzidos muitos dos grandes e mais conhecidos centros urbanos. Em seguida apresentaram imagens das demais operações realizadas e de outras que estavam em andamento.

Depois de um intervalo para meditação dos sobreviventes, os espaciais iniciaram a segunda parte da reunião, enfocando os NTCA. Eles forneceram informações gerais sobre as áreas e a infra-estrutura padronizada que seria implantada nos diversos locais para onde os sobreviventes seriam transferidos. Em cada um deles seria instalada uma agrovila para comportar um mínimo de 800 e um máximo de 1.200 pessoas, entre adultos e crianças. Essas agrovilas, batizadas como Núcleos de Trabalho Comunitário Agrícola – NTCA, seriam instaladas em locais com terras propícias para os diversos tipos de atividades agrícolas, cujo conjunto formaria uma área agrícola de uso comunitário. No centro da área haveria um local para instalação de moradias, edificações comunitárias e equipamentos de lazer. Um NTCA para abrigar 1.000 sobreviventes seria instalado em uma área de, aproximadamente, 3.000 hectares.

Como regra geral, os NTCA ficariam separados entre si por uma distancia média de 20 quilômetros e as pessoas teriam total liberdade para escolher o local para onde desejariam ser transferidas, respeitando o limite populacional estabelecido para cada um deles e as fronteiras dos países de origem, a fim de não descaracterizar a estrutura geográfica e política anterior. Os espaciais asseguraram que aqueles que não se adaptassem no local escolhido poderiam ser posteriormente transferidos para outro. Todos levariam e instalariam seus iglus, banheiros e sanitários no NTCA escolhido e continuariam utilizando esses equipamentos durante a fase de construção das acomodações comunitárias e das residências familiares, previstas para serem concluídas entre 4 e 6 meses. Para desenvolvimento de atividades agrícolas, os espaciais forneceriam orientações, sementes e máquinas necessárias.

No final, solicitaram que, durante o dia seguinte e toda a manhã do segundo dia, cada família escolhesse o local para onde queria ser transferida, incluindo os parentes que ainda estavam retidos nas naves para tratamento. Para isso, entregaram a cada uma delas uma pasta com o resumo de tudo que transmitiram e se colocaram à disposição para sanar qualquer tipo de dúvida. Em cada pasta havia orientações, descrições, mapa do país com a localização e limites populacionais de cada NTCA, além de um questionário para anotação dos dados familiares e indicação de três NTCA em ordem de preferência.

O décimo dia foi marcado por grande entusiasmo e conversações entre os membros de cada família, incluindo os parentes em tratamento nas naves, pois os espaciais disponibilizaram equipamentos de comunicação para essa finalidade. Também aconteceram muitas conversas entre famílias e pessoas que já se conheciam ou se conheceram nos dias anteriores. Os espaciais e os voluntários tiveram pouco trabalho para esclarecer dúvidas e quase todos os sobreviventes entregaram os questionários com bastante antecedência, pois não havia diferenças sensíveis entre os NTCA, a não ser quanto à região onde se localizavam e sua topografia. As exceções ocorreram nos pequenos agrupamentos rurais onde havia famílias ou pessoas que desejavam permanecer em suas terras. Entre a manhã e a tarde do décimo primeiro dia foram resolvidos todos os problemas e após o jantar foram divulgadas as listas de destino.

A quase totalidade dos sobreviventes tomou a decisão com grande confiança e otimismo. Mesmo aqueles que pertenciam a grupos mais reticentes, localizados em alguns países do planeta, acabaram concordando com as propostas apresentadas pelos espaciais, pois não havia alternativa que não fosse o isolamento, como ocorreu com algumas famílias ou pessoas que viviam em pequenos agrupamentos rurais e optaram por continuar em suas terras. Esses casos representaram menos de um por cento do total de sobreviventes e os espaciais respeitaram suas decisões. Além disso, prometeram fornecer todo o suporte possível para facilitar o trabalho e a adaptação ao novo ambiente sem estradas, comunicações e locais para ressuprimento. Mesmo assim, essas pessoas enfrentaram grandes dificuldades e todas acabaram se transferindo para algum NTCA nas semanas, meses ou anos seguintes.

Na manhã do décimo segundo dia foi iniciada a grande operação de transferência dos sobreviventes para os NTCA. Essa operação foi considerada como a mais importante de todas, pois ela deu início ao novo modo de vida que iria se desenvolver no planeta. Esse era o objetivo principal dos acontecimentos que desencadearam a grande transição. A operação de transferência dos sobreviventes envolveu milhões de naves de pequeno e médio porte, além de um número significativo de naves cargueiras e outras que, nos dias anteriores, realizaram trabalhos de demarcação e preparação das áreas para instalação dos iglus de seus moradores. Os trabalhos foram iniciados com o desligamento das tubulações de água que serviam os iglus e dos ganchos que os prendiam ao solo, pois foram transportados como se encontravam. À medida que eles foram soltos e identificado, foram agrupados por local de destino e transportados pelas naves cargueiras. Em seguida os buracos dos sanitários e banheiros foram fechados e os sobreviventes embarcados e transportados para o local escolhido.

Conforme os grupos chegavam a cada NTCA, iniciavam os mesmos procedimentos adotados para montagem dos núcleos de sobrevivência e no meio da tarde, todos os sobreviventes estavam abrigados nos locais que escolheram, nos mesmos iglus que utilizaram nos dias anteriores. Com isso, toda a população que restou em Arret estava distribuída pelo planeta em quase 3,5 milhões de NTCA, com uma média de mil pessoas de todas as idades em cada um deles. Cerca de 24 milhões de pessoas permaneceram em quase 2 milhões de pequenos núcleos rurais, pois não desejavam abandonar suas terras. Em cada NTCA havia uma nave de apoio e uma nave cargueira estacionadas, fazendo parte integrante da nova comunidade. A noite daquele dia foi destinada a orações ecumênicas, fogueiras e confraternizações em todos os NTCA.

O dia seguinte foi destinado para que todos descansassem e conhecessem os arredores da região e seus locais de lazer, representados por montanhas, rios, cachoeiras e lagoas, pois após o jantar haveria uma nova reunião com os espaciais. Naquele dia todos se transformaram em crianças felizes e se divertiram muitos nos locais de lazer assinalados nas plantas que todos receberam durante o processo de escolha. Após o almoço, os mais jovens voltaram a esses locais e os mais velhos se reuniram em grupos para conversar a respeito das próximas ações, a partir daquilo que cada um entendeu a respeito das informações transmitidas pelos espaciais. Apesar das diferenças de enfoque de cada grupo a respeito dos trabalhos necessários para construir as edificações e alcançar a auto-suficiência alimentar, pois a maioria não tinha a menor experiência nesses assuntos, todos concordavam que só conseguiriam atingir os objetivos com a união e a boa vontade de todos os membros do NTCA, incluindo os jovens e as crianças, cujo conjunto representava a metade da população sobrevivente.

Os novos NTCA e a preparação para o trabalho

Conforme havia sido programado, após o jantar os espaciais apresentaram um resumo das reuniões ocorridas nas naves que abrigavam as autoridades de cada país, voltadas para estruturação das juntas de governo. Forneceram informações a respeito dos objetivos dessas juntas, sua composição e coordenação, a fim de não interferir na organização federativa e no princípio de autoridade anteriormente vigente. Informaram que os membros e os coordenadores dessas juntas já estavam definidos e que os demais seriam transferidos para os NTCA que escolheram, onde se integrariam às frentes de trabalho, em igualdade de condições com os demais sobreviventes. Em seguida os espaciais projetaram mensagens dos coordenadores das juntas federativa e estadual correspondentes a cada NTCA, causando um misto de espanto, admiração e otimismo em todos os sobreviventes. Como a maioria dos coordenadores eram os antigos dirigentes, todos viram uma nova imagem e ouviram um discurso completamente diferente daqueles a que estavam acostumados, pois suas mensagens exaltavam a humildade, a cooperação, a irmandade e a fraternidade. Esses temas causaram um efeito positivo em todos os sobreviventes, inclusive naqueles mais reticentes que ainda não confiavam totalmente nos espaciais.

Logo depois os amigos da estrelas apresentaram um resumo do planejamento para instalação e desenvolvimento dos NTCA, envolvendo as edificações coletivas, as residências familiares e sua área agrícola. Em seguida, os espaciais começaram a detalhar o projeto do NTCA, o qual levava em conta a topografia, tipo de solo, recursos hídricos e outras características de cada local. Os trabalhos seriam iniciados com a construção das edificações comunitárias, como cozinhas e refeitórios, depósitos de alimentos, oficinas, almoxarifados de materiais de trabalho, posto de saúde, escolas, praças e áreas de lazer. Assim que essas edificações fossem concluídas, iniciariam a construção das residências familiares. Elas teriam quartos, banheiros, sanitários, lavanderia, sala de estar, varanda e uma cozinha sem fogão, enquanto não fossem desativados os refeitórios coletivos.

As edificações comunitárias e residenciais seriam padronizadas em todos os NTCA e construídas com madeiras cortadas e preparadas com maquinário fornecido pelos espaciais, obedecendo a um projeto de fácil execução por pessoas inexperientes. Sua execução envolvia 4 a 6 meses de trabalho e previa a construção de residências com 1 a 4 dormitórios para atender as diversas situações familiares. Elas seriam agrupadas em setores com casas do mesmo tamanho e quantidade de dormitórios. Em cada setor seria construído um restaurante comunitário com capacidade para servir refeições a todos os seus moradores. Cada setor também contaria com praças, espaços para implantação de áreas de lazer e para expansões futuras que permitissem construir novas residências para acomodar até o dobro da população inicial. Os depósitos de alimentos e de artigos de higiene e limpeza, oficinas, almoxarifados de materiais de trabalho, postos de saúde, escolas e outros equipamentos comunitários seriam agrupados e construídos em um ponto central do NTCA. As áreas de lazer seriam implantadas nas proximidades de rios, lagos, cachoeiras e outros atrativos naturais.

Após um rápido intervalo apresentaram o plano para desenvolvimento das atividades agrícolas, enfatizando os tipos de trabalhos previstos e o apoio que forneceriam para agilizar as atividades e otimizar a produção. Todos os núcleos teriam áreas próprias para fruticultura, criação de abelhas, horta e áreas de cultivo de cereais. De maneira geral, todos os NTCA teriam o mesmo perfil produtivo, pois o clima do planeta não mais apresentaria grandes variações. O projeto também demarcava todas as áreas onde seriam desenvolvidas as diferentes atividades agrícolas. Depois, abriram espaço para perguntas, esclareceram as dúvidas e informaram que, na manhã seguinte, suas naves e equipamentos especiais começariam os trabalhos de abertura de ruas e nivelamento das áreas destinadas à construção das edificações de uso comum e para implantação da horta comunitária.

Cada família recebeu uma pasta contendo o projeto completo do NTCA e questionários para definir as áreas de trabalho de cada um, dentro de uma ordem de habilidades e de interesses individuais que permitisse a cada um se envolver com a atividade que mais gostava de executar. Os questionários deveriam ser preenchidos e entregues no final da manhã seguinte para tabulação e separação inicial dos grupos de trabalho. Os espaciais também esclareceram que os grupos poderiam ser alterados e recompostos no decorrer dos dias para melhor atender e acomodar os interesses individuais. No final, informaram que na parte da tarde seriam realizadas reuniões com cada grupo para transmitir novas informações e acertar ao detalhes necessários para dar início aos trabalhos.

Na manhã do dia seguinte, o décimo quarto, os espaciais iniciaram os trabalhos programados enquanto as famílias conversavam e preenchiam os questionários que incluíam os  parentes em tratamento nas grandes naves. Os questionários foram entregues antes do horário combinado e foram rapidamente tabulados e ajustados juntamente com aqueles preenchidos pelas famílias que ainda se encontravam nas naves que abrigavam as autoridades e chegariam na manhã seguinte. No início da tarde os espaciais emitiram as listas com os componentes dos grupos de trabalho e com eles fizeram reuniões que continuaram durante todo o dia seguinte, quando foram acertados os detalhes e a estratégia básica de desenvolvimento das atividades.

Após o jantar do décimo quinto dia, os espaciais fizeram uma reunião com todos os moradores para apresentar outros detalhes do projeto de construção das edificações coletivas e da sua seqüência de execução. As diversas atividades seriam iniciadas no dia seguinte em frentes paralelas voltadas para as novas captações, reservatórios e redes de água potável, depósitos de alimentos, de artigos de higiene e limpeza, cozinhas, restaurantes, almoxarifados de materiais de trabalho e oficinas. Conforme as frentes de trabalho fossem adiantando ou concluindo suas atividades, seriam iniciadas as atividades agrícolas voltadas para implantação da horta comunitária e preparação de mudas de árvores frutíferas. Como as demais, essa reunião foi realizada simultaneamente em todos os NTCA espalhados pelo planeta e incluiu os moradores dos pequenos núcleos e agrupamentos rurais. Elas geraram uma onda de euforia e otimismo que criou um ambiente de extrema cooperação, camaradagem e irmandade entre os sobreviventes.

Eles eram pessoas originárias das mais variadas profissões, religiões e níveis sócio-econômicos no período anterior à grande transição. Entre elas havia detentores de grandes fortunas convivendo em igualdade de condições com outras que viviam do fruto de seus parcos salários. Havia pessoas famosas e muitas totalmente anônimas, assim como, grandes empresários e trabalhadores braçais. A partir do décimo sexto dia, com pequenas exceções, todos se esforçaram e procuraram se transformar em operários de diversas especializações que moravam em iglus com o mesmo tipo de conforto e um modo de vida muito simples, em estreito contato com a natureza e com os seus novos amigos arretianos e das estrelas.

As atividades das juntas de governo

Quando as juntas de governo federativos e estaduais foram alocadas nas respectivas naves, as duas semanas seguintes foram utilizadas para realizar sobrevôos, visitas e reuniões entre os membros de cada junta com o comandante da respectiva nave e os especialistas em assuntos governamentais. Nessas reuniões foram analisadas diversas informações referentes aos sobreviventes abrigados nos NTCA que seriam instalados em cada estado ou país. Elas faziam parte dos bancos de dados da nave do comando da frota de apoio a Arret desde os anos anteriores à grande transição e estavam atualizadas com os últimos questionários preenchidos pelos sobreviventes. Essas informações apresentavam vários níveis de detalhamento e havia tabulações cruzando diversos dados, como sexo, faixa etária, escolaridade, experiência profissional anterior e aptidões manuais, dentre outros, permitindo uma pormenorizada avaliação do perfil individual, familiar e da força de trabalho disponível em cada NTCA, no estado, no país e no planeta como um todo. Além delas, havia informações gerais e detalhadas a respeito de todos os materiais e produtos coletados e armazenados durante as operações já realizadas.

Outra parte do tempo foi utilizada para sobrevôos nos locais onde estavam sendo instalados os novos núcleos e a outros lugares onde os amigos da estrelas realizavam diversos trabalhos sem a participação de voluntários arretianos. Todos os membros de todas as juntas visitaram serrarias, marcenarias, bases de operações que foram construídas em ilhas isoladas e as instalações industriais localizadas nos dois continentes polares. Essas visitas foram de grande utilidade para os governantes e suas equipes, pois todos ficaram impressionados com a amplitude dos trabalhos e com a extrema dedicação dos espaciais para melhorar as condições e a qualidade de vida de seus irmãos arretianos, como constantemente se referiam aos nativos do planeta.

Apesar do espírito fraterno que animava a grande maioria dos dirigentes e membros de cada junta, alguns coordenadores quase criaram problemas para os espaciais durante as visitas às usinas de reciclagem instaladas nos continentes polares. Eles ficaram inconformados ao constatar que as reservas particulares e estatais de metais preciosos guardadas em bancos ou caixas-fortes de seus países foram somadas às de outros, transformadas em blocos e armazenadas como os demais tipos de metais comuns. Felizmente, essas pessoas não obtiveram o apoio dos membros de suas juntas e nem dos demais coordenadores por eles contatados. Também não possuíam nenhum instrumento de pressão contra os espaciais, cuja tecnologia tanto os fascinava como os amedrontava.

Nos três meses seguintes as equipes das juntas de governo federativo visitaram todos os NTCA e as estaduais o fizeram em várias ocasiões. Alguns com maior concentração de moradores problemáticos foram constantemente visitados e os problemas reais ou potenciais foram contornados de várias maneiras, incluindo a transferências e concentração desses sobreviventes em núcleos específicos, compostos por pessoas que pensavam e agiam da mesma forma. Durante esse período foram realizadas inúmeras reuniões entre as juntas federais e estaduais para avaliação dos trabalhos em andamento e definição de estratégias para minimizar os problemas que afetavam uma pequena parcela dos sobreviventes.

No início do quarto mês, quando a rotina de trabalho nos NTCA e nas juntas de governo se estabilizou, os coordenadores das juntas federativas de um mesmo continente começaram a se reunir com o objetivo de definir um esquema para troca de alimentos excedentes em alguns países e escassos em outros. Depois de algumas reuniões e debates sobre as maneiras de controlar esse novo tipo de “comércio exterior”, não chegaram a um consenso válido em todos os continentes. Apesar de participarem dessas reuniões, os espaciais se comportavam com total imparcialidade e deixavam os coordenadores tomarem as decisões que julgavam como adequadas ou justas.

Nos trinta dias seguintes ao início dessas reuniões, os países de dois continentes vizinhos, incluindo aquele onde se localizava o país de Olintho, decidiram doar suas sobras, colocando-as à disposição dos espaciais para que as destinassem conforme julgassem apropriado. Os países de dois outros continentes decidiram realizar trocas entre eles e os demais, controlando os saldo da “balança comercial” para acertos futuros.  No continente onde existia o maior percentual de descontentes, além de gastarem mais que o dobro do tempo para chegarem a um acordo, os coordenadores decidiram trocar os excedentes somente com países que também os tinham em valores equivalentes, conforme uma tabela que definiram para cada produto.

Durante os seis primeiros meses Olintho consolidou sua liderança a nível planetário, não só por aquilo que realizou no período anterior à grande transição, como pelas suas atitudes com relação ao esquema adotado em seu país para implantação dos NTCA, cujo modelo serviu de base para aquilo que será descrito a seguir. Seu país foi o primeiro a concluir os trabalhos básicos que serviram de exemplo para quase todos os demais países. Isso aconteceu em função da experiência do seu povo na implantação das agrovilas no período imediatamente anterior à grande transição, as quais foram as precursoras do ideal comunitário e do espírito cooperativo que começou a vigorar em todo o planeta. Suas idéias e seu modo justo, simples e prático de encarar e resolver qualquer desafio ampliou sua influência em todos os continentes, especialmente em 4 deles, onde se tornou uma espécie de conselheiro dos coordenadores federativos.

O início dos trabalhos nos NTCA

O décimo sexto dia após a grande transição ficou marcado na memória dos integrantes de todos os NTCA. Eles acordaram mais cedo, bem dispostos, com grande expectativa e otimismo quanto ao início dos trabalhos de construção das edificações comunitárias. Assim que os raios da estrela Alnilam começaram a iluminar os diversos locais, pousaram duas naves carregadas com materiais e equipamentos projetados para facilitar a execução dos trabalhos dos diversos grupos que foram orientados pelos espaciais e pelas pessoas mais experientes em cada uma das inúmeras atividades que foram desencadeadas simultaneamente. Apesar da boa vontade geral, os trabalhos se desenvolveram em ritmo lento durante a primeira semana e começaram a apresentar uma produtividade crescente nas seguintes, por algumas razões já previstas pelos espaciais e caracterizadas por como positivas, pois a lentidão inicial facilitou o aprendizado, a integração e a adaptação dos sobreviventes ao novo tipo de trabalho, produzindo excelentes resultados nas semanas e meses seguintes.

A maior dificuldade estava relacionada com a necessidade de adaptação aos novos procedimentos, pois a grande maioria não tinha experiência específica e não estava acostumada a executar serviços que dependiam de habilidades manuais, sem contar a falta de preparo físico que afetava a grande maioria. A natural curiosidade dos novos “operários” a respeito dos sofisticados equipamentos de apoio utilizados pelos espaciais nos diversos canteiros de obras também contribuiu para diminuir a produtividade, pois eles paralisavam constantemente suas atividades para observar e comentar com os companheiros a eficiência operacional de determinada máquina ou equipamento. Um outro fator de lentidão estava relacionado com as constantes paralisações para esclarecer dúvidas, ou para trocar idéias com companheiros mais experientes, ou para confirmar erros ou acertos na execução dos serviços.

Ao longo das duas primeiras semanas, todos os NTCA receberam uma grande quantidade de materiais de construção, como reservatórios de água, tubos e conexões para água potável e esgotos, madeiras para todas as construções comunitárias, placas de cobertura, pias, sanitários, tintas, além de ferramentas manuais para cultivo, sementes e mudas de árvores frutíferas e ornamentais. No final da terceira semana todas as frentes de trabalho começaram a apresentar um bom nível de produtividade, especialmente nos NTCA do país de Olintho, onde os cronogramas estavam bastante adiantados e sua estratégia de construção começou a ser seguida por vários outros países, de maneira crescente.

As atividades foram aceleradas a partir da quarta semana em função da divulgação da estratégia utilizada no país de Olintho e da conjugação de vários fatores positivos. Todos os membros dos NTCA começaram a ver o resultado dos trabalhos já realizado e isso aumentou o esforço e o entusiasmo geral. O nível de preparo físico melhorou bastante e as habilidades manuais começaram a florescer em muitos que nunca tiveram a oportunidade de exercitá-las. As opções de trabalho foram ampliadas e atingiram maior nível de especializado em relação às semanas anteriores e, à medida que o tempo passava, os novos operários ficavam cada vez mais irmanados e participativos. Todos procuravam seguir o exemplo dos colegas mais habilidosos e dedicados, além de terem os amigos das estrelas como o maior de todos os exemplo de trabalho e dedicação, tanto pelo que realizaram durante a grande transição, como pelo apoio irrestrito e desinteressado que prestavam a todos e em todos os momentos. Todos os dias chegavam naves com alimentos, materiais de construção e vários outros itens que eram colocados à disposição dos moradores sem controles, alardes, solenidades ou discursos.

No decorrer do primeiro mês foram concluídas as seguintes atividades principais nos NTCA do país de Olintho. Na maioria dos demais, os trabalhos ainda se estenderam por até três semanas.

  • Captação, armazenamento de água potável e sua canalização até os locais das edificações coletivas, da horta e do viveiro de mudas.
  • Preparação dos canteiros da horta coletiva e sua semeadura direta ou para replante.
  • Construção do viveiro de mudas e plantio de milhares de sementes de árvores frutíferas e ornamentais em embalagens para replante futuro
  • Preparação das áreas destinadas a pomares e plantio de muitas mudas de árvores frutíferas recolhidas em diversos viveiros e locais do planeta.
  • Preparação e plantio de todas as áreas destinadas ao cultivo de cereais.
  • Construção do depósito de alimentos e de artigos de higiene e limpeza, das cozinhas, restaurantes coletivos e de 2 dos 4 almoxarifados de materiais de trabalho, incluindo suas instalações elétricas, hidráulicas, pintura, equipamentos e mobiliário.

Os sistemas de iluminação eram alimentados por energia “solar” captada por painéis fotovoltaicos e armazenada em baterias de alta capacidade e durabilidade. Os fogões funcionavam com energia elétrica fornecida por geradores especiais e silenciosos, alimentados por qualquer tipo de matéria de origem vegetal ou mineral, como madeiras ou pedras. Nas cozinhas de cada restaurante foi instalado um conservador de alimentos e, no depósito de alimentos, uma grande câmara de conservação. O princípio de conservação desses equipamentos não era baseado no frio, e sim em um tipo de raio ou campo de força que mantinha os alimentos durante semanas ou meses nas mesmas condições em que foi armazenado, sem alterar seu aspecto inicial. Nos restaurantes instalaram sistemas de aquecimento de água utilizando o calor do “sol” arretiano e aquele  gerado pelos fogões. Esse sistema produzia água em ponto de fervura e alimentava torneiras e expositores de alimentos quentes de auto-serviço.

Quando os depósitos de alimentos foram concluídos, eles foram abastecidos com legumes, frutas e cereais originários de Arret e dos planetas de origem dos espaciais. Esses alimentos permitiram a inauguração dos restaurantes e que os moradores voltassem a ter uma alimentação variada e semelhante àquela a que estavam acostumados antes da grande transição. Até aquele momento os sobreviventes ingeriam uma dieta balanceada e pouco variada que, apesar de altamente nutritiva e saudável, vinha causando um nível crescente de desinteresse nas crianças e em muitos jovens e adultos. No país de Olintho os restaurantes entraram em operação no oitavo dia do segundo mês, exatamente um mês depois que os sobreviventes puderam sair livremente dos iglus instalados nos núcleos de sobrevivência. As mulheres definiram todas as tarefas necessárias e concluíram que um quarto delas seria suficiente para executar as tarefas que envolviam o preparo de três refeições diárias. Com isso organizaram um esquema de rodízio onde cada grupo trabalhava um dia nos restaurantes e três em outras atividades.

Assim como aconteceu no país de Olintho, à medida que os depósitos de alimentos e os restaurantes comunitários dos NTCA dos demais países foram concluídos, suas inaugurações ocorreram em um jantar seguido por diversas festividades, conforme os costumes de cada povo. Geralmente, após o jantar do dia seguinte, os espaciais sempre realizavam uma reunião com os moradores, a fim de definir os critérios para ocupação das moradias que seriam construídas em seguida. Na maioria dos núcleos o assunto foi discutido e definido em uma única reunião e nos demais em duas a três delas. No geral, chegaram a duas conclusões básicas e na quase totalidade dos NTCA seus moradores resolveram realizar um sorteio prévio, concluir todas as moradias, mobiliá-las, e ocupá-las conjuntamente. Uma minoria resolveu destiná-las através de sorteios, assim cada moradia fosse construída e mobiliada. Os NTCA que optaram pela segunda modalidade foram aqueles com maiores percentuais de descontentes e também os que mais demoraram para construir todas as residências.

Para iniciar essas edificações, as frentes de trabalho anteriores foram divididas em grupos especializados em um tipo específico de atividade, permitindo que cada um trabalhasse naquela onde melhor se adaptou durante a construção das edificações coletivas. Com isso a produtividade aumentou substancialmente em todos os NTCA, exceto em uma minoria que não seguiu a estratégia adotada no país de Olintho. A maioria desses núcleos foram aqueles que definiram o critério de entrega das moradias por sorteio e também aqueles onde havia grande concentração de pessoas problemáticas, em sua maioria, oriundas de seitas ou correntes religiosas fanáticas. De maneira geral, reclamavam da inexistência de templos nos NTCA, da inexistência de horários para manifestações religiosas, do desconforto dos iglus, da comida padronizada e dos trabalhos que precisavam executar, além de várias outras querelas.

O início do segundo mês da nova era arretiana também foi marcante em termos de mudança de hábitos religiosos, pois quase todos os sobreviventes começaram a realizar orações e agradecimentos coletivos nos novos restaurantes, em lugares abertos, sob a sombra das árvores, sob a luz das estrelas, ou sempre que se reuniam para comemorar o término de algum trabalho e os bons resultados alcançados pelo NTCA. Seus moradores não mais defendiam conceitos separatistas ou falavam em nome de suas antigas denominações religiosas. Eles começaram a demonstrar uma religiosidade sem dogmas e centrada na irmandade universal e na paternidade divina. Foram nessas reuniões que muitos moradores começaram a solicitar palestras dos espaciais sobre os conceitos religiosos vigentes em seus planetas de origem, pois já havia intimidade e um grande companheirismo entre eles. Apesar dos NTCA ainda estarem isolados e sem vias de comunicações entre eles, os espaciais falavam uma linguagem comum, pois a base da Lei Divina era a mesma em todos os seus planetas de origem.

Essas palestras geravam uma energia positiva que contagiava todos os sobreviventes e, na maioria delas ocorriam alguns fenômenos durante ou após as preleções dos espaciais, como uma suave luminosidade que os envolvia, um perfume que era sentido por todos, ou visões em alguns e sonhos em outros. Os amigos das estrelas evitavam tocar em temas polêmicos, mas às vezes suas resposta a perguntas contrariavam crenças de uma parcela menor ou maior dos moradores, pois os espaciais não desconversavam e não mentiam em hipótese alguma. Mesmo assim, suas palestras e respostas a perguntas não geravam discussões ou problemas, pois falavam com profundo conhecimento a respeito de qualquer tema e com a autoridade e força moral advinda do exemplo de irmandade e fraternidade que deram durante a grande transição e davam em todos os momentos. Essas palestras sempre provocavam profundas reflexões em muitos moradores e, gradativamente, a maioria deles começou a entender, aceitar e praticar com naturalidade os novos conceitos religiosos transmitidos pelos amigos das estrelas.

Durante o segundo mês os moradores de todos os NTCA deram prosseguimento a uma série de atividades iniciadas no mês anterior, começaram a construir as moradias individuais e concluíram alguns trabalhos, a exemplo dos abaixo descritos.

  • Praças em torno dos restaurantes, incluindo a instalação de equipamentos de lazer para crianças.
  • Os demais almoxarifados de materiais de trabalho e oficinas.
  • Abertura de ruas de acesso aos terrenos dos setores residenciais e das estradas e caminhos nas áreas agrícolas.
  • Abertura dos buracos para fixação dos pilares de sustentação das residências.
  • Canalização da água potável nos terrenos de todos os setores residenciais.
  • Canalização dos esgotos e instalação das fossas sépticas e sumidouros das moradias.
  • Cerca de 20 % das habitações individuais, com instalações elétricas, hidráulicas e pintura, incluindo o mobiliário padrão.
  • Replante das hortaliças semeadas com essa finalidade no mês anterior. 

No decorrer do segundo mês a vida dos moradores entrou em ritmo de normalidade, bem ao contrário do que aconteceu no mês anterior, onde tudo era uma grande novidade. Após a inauguração das praças, os moradores passaram a utilizá-las  freqüentemente para conversas e confraternizações após o jantar, as quais sempre contavam com a presença dos espaciais residentes nas naves alocadas em cada NTCA. Às vezes os amigos das estrelas eram solicitados a falar sobre seus planetas de origem e outras vezes se integravam como participantes comuns das conversas, confraternizações e brincadeiras que os sobreviventes realizavam, estreitando os laços de companheirismo e de amizade entre eles. Nesse período ocorreram muitas cenas hilariantes envolvendo os espaciais e as mulheres que trabalhavam nas cozinhas. Elas adoravam preparar guloseimas e presenteá-las aos amigos das estrelas como forma de agradecimento por tudo que eles tinham feito e continuavam fazendo. Algumas não eram apropriadas à dieta alimentar a que estavam acostumados e, como eram atenciosos e educados, não se negavam a experimentá-las. Com isso, muitos deles foram acometidos por problemas digestivos e intestinais, mesmo ingerindo guloseimas e quitutes preparados com ingredientes de origem vegetal, pois os arretianos não comiam carnes de animais desde os duzentos anos anteriores à grande transição.

No final do segundo mês havia poucos doentes retidos para tratamento nas naves e a quase todas as famílias estavam novamente recompostas com todos os membros que sobreviveram à grande transição. Nesse período eram comuns as brincadeiras e conversas entre os casais a respeito da continência sexual a que estavam submetidos, motivada pelas grandes dificuldades que uma gravidez representava naqueles momentos e pela inexistência de contraceptivos de qualquer tipo. Mesmo no caso das esposas que não corriam risco de gravidez, havia grandes dificuldades para o relacionamento sexual nos iglus ou em outros lugares, pois o movimento de pessoas no NTCA era intenso. Apesar de muitos casais aguardarem com certa ansiedade a mudança para as novas casas, os costumes sexuais passaram por uma mudança radical naquele curto período. Quase todos deixaram de priorizar o relacionamento físico, estreitaram os laços de amizade e começaram a dar mais atenção a um tipo de relacionamento amoroso baseado no carinho e na afinidade espiritual.

Durante o terceiro mês os trabalhos seguiram um padrão semelhante ao do mês anterior, com grande concentração de esforços na construção das residências, no desenvolvimento da horta e do pomar. No país de Olintho, todos os NTCA concluíram a construção das residências no final daquele mês e deixaram seus iglus para residir em uma habitação funcional e confortável. Como vinha acontecendo desde o mês anterior e de maneira crescente, quase todos os NTCA começaram a produzir uma razoável quantidade e variedade de verduras e legumes em suas hortas, fazendo com que os sobreviventes voltassem a consumir alimentos que não experimentavam desde o início da grande transição.

A estratégia utilizada para construção das residências no país de Olintho foi adotada por diversas outras juntas de governo e com isso, concluíram suas habitações no decorrer do quarto mês. Foram raros os núcleos que optaram pelo sorteio e ocupação das residências conforme eram concluídas, que terminaram todas elas durante o quarto mês. A maioria somente conseguiu atingir esse objetivo no decorrer do sexto mês. Todos os NTCA que concluíram suas residências começaram a utilizar uma parte da mão-de-obra liberada para ampliar e melhorar suas áreas de lazer. Os projetos para essas áreas eram particularizados em função das inúmeras variações de tipos e disposições de atrativos naturais existentes em cada núcleo. Naqueles em que havia maior variedade de atrativos, os projetos individuais eram mais simples e de execução mais rápida. Quando acontecia o contrário, os projetos eram mais sofisticados e de execução mais demorada, variando entre um e seis meses.

No decorrer do quinto mês, aumentou substancialmente a oferta de verduras e legumes produzidos pelas hortas e muitos NTCA também já eram auto-suficientes em termos de cereais. O sexto mês foi marcado por intensa atividade em diversas frentes e encerrou o primeiro ciclo do novo modo de vida arretiano, calcado no trabalho cooperativo e comunitário. Além da melhoria dos locais de lazer, foram iniciados os trabalhos de ajardinamento das residências e dos canteiros das ruas, onde foram plantadas muitas árvores ornamentais. As calçadas começaram a ser recobertas com placas de pedras planas de diversas cores e tamanhos, separadas por filetes de grama que formavam desenhos harmoniosos.

Esses trabalhos de decoração, juntamente com o colorido das edificações, começaram a transformar os NTCA em locais agradáveis, funcionais e muito bonitos, contrastando radicalmente com o cenário das cidades anteriores à grande transição. No final do sexto mês, a horta coletiva estava em franca produção e com ressuprimento contínuo. Em termos de verduras e legumes, todos os NTCA eram auto-suficientes e dispunham de quase todas as variedades existentes no planeta. Com relação aos cereais não ocorreu a mesma coisa, mas a safra global foi suficiente para atender todos as necessidades do planeta. Obedecendo aos critérios definidos pelas juntas de governo, os países realizaram trocas de excedentes ou receberam produtos doados por outros. Muitas áreas produtoras de frutas já estavam recuperadas dos danos causados pela grande transição e estavam começando a produzi-las novamente, aumentando gradativamente a participação desses produtos na dieta da população. Além dos pomares recuperados, a maioria das mudas de árvores frutíferas produzidas pelos NTCA estavam plantadas em lugares definitivos, juntamente com aquelas recebidas inicialmente.

A mudança de clima ocorrida no planeta criou uma única estação, uma mistura de outono e primavera. O novo regime de chuvas noturnas, leves e contínuas, facilitou o desenvolvimento da agricultura e eliminou as necessidades de irrigações. Também houve uma sensível diminuição de pragas e doenças nas hortas e nos pomares, tornando as perspectivas para os próximos meses e anos muito animadoras, não só pela melhoria das condições de cultivo, como também pela maior disponibilidade de mão-de-obra liberada a partir do término das residências. Para concluir essa primeira fase do novo modo de vida arretiano, é importante ressaltar dois aspectos que muito contribuíram para firmar as bases da irmandade planetária, os quais foram a pedra de toque e o embrião de todas as grandes transformações que ocorreram nos anos seguintes. Um deles envolveu a construção das habitações familiares e o outro, uma mudança de mentalidade que decorreu de uma nova visão de vida, tanto individual, como coletiva. Os dois tópicos, apesar de intimamente ligados, serão relatados a seguir, em itens distintos.

A construção e ocupação das habitações familiares

Esse foi o maior e o mais importante dos trabalhos realizados pelos sobreviventes entre o início do segundo e o final do quarto mês, quando a maioria dos NTCA concluiu essas construções, deixou os iglus e voltou a residir em uma casa bastante confortável e funcional. Essa operação envolveu todos os sobreviventes e foi a grande responsável pelo estreitamento e consolidação dos laços de amizade e companheirismo, iniciado com a construção das edificações coletivas. A construção das habitações familiares exigiu o máximo das habilidades manuais, da boa vontade e do empenho de cada um, constituindo-se em um trabalho marcado pela tolerância e pela cooperação irrestrita de todos os envolvidos, em um ambiente descontraído, alegre e feliz. 

Os mais hábeis, normalmente representados pelas pessoas mais simples e oriundas das classes operárias, ensinaram os menos hábeis, quase sempre representados por pessoas que pertenciam às classes patronais ou executivas. Era interessante observar um marceneiro ou carpinteiro de profissão, sendo o mestre e o líder natural de um grupo de antigos empresários, executivos ou funcionários de pequenas e grandes corporações. Da convivência harmoniosa dessas diferenças, nasceu, se desenvolveu e se solidificou a igualdade, a fraternidade e a irmandade entre os sobreviventes, transformando os valores individuais em valores coletivos que foram forjados a partir dos acontecimentos dolorosos da grande transição. Esses valores se desenvolveram com as pequenas e grandes alegrias que todos tiveram no decorrer dos dias e meses seguintes, quase sempre motivadas por detalhes e acontecimentos singelos que marcaram indelevelmente o coração e a mente da maioria dos sobreviventes.

A construção e a ocupação das habitações familiares, juntamente com outros trabalhos realizados com a colaboração dos amigos das estrelas, incluindo aqueles que foram realizados exclusivamente por eles para fornecer os materiais de construção, acabamento e mobiliário das casas, fizeram parte do plano divino que foi definido para modificar radicalmente e para melhor, o modo de vida do povo arretiano. Os espaciais foram o grande exemplo de dedicação incondicional e de amor aos seus irmãos arretianos, sem o menor interesse por recompensas ou reconhecimentos pessoais de qualquer espécie. Para dar uma idéia da complexidade e do grau de envolvimento das pessoas com esse trabalho, vamos descrever as características básicas do projeto e as principais atividades desenvolvidas durante a construção das habitações familiares, ressaltando ou complementando informações anteriores.

As residências foram agrupados em setores constituídos por casas com a mesma quantidade de dormitórios do tipo suíte, variando de 1 a 4. Todas foram construídas em terrenos com 1.000 metros quadrados, sendo 20 metros de frente e 50 de fundo. A madeira foi a matéria-prima utilizada nos alicerces, na estrutura e nas paredes. As plantas foram padronizadas em todos os NTCA e tinham, além de uma quantidade variável de dormitórios, uma sala de estar, uma cozinha incompleta, uma lavanderia e varanda na frente e em uma das laterais. A metragem quadrada de cada suíte era igual em todas as casas e a dos demais cômodos e da varanda eram proporcionais à quantidade de dormitórios. Essas habitações eram simples e funcionais, incluindo o mobiliário que também era padronizado para cada um dos 4 tipos de residências. Seus componentes foram confeccionados com madeiras de lei e apresentavam variações de tamanho, ou de quantidade, proporcionais a cada tipo de habitação. Apesar das cozinhas não disporem de fogão, conservador de alimentos e eletrodomésticos, elas foram projetadas para comportar essas utilidades no futuro, quando houvesse uma completa normalização da vida planetária.

Tomando por base a estratégia utilizada no país de Olintho para construção das habitações, vamos descrever seus procedimentos principais, os quais foram orientados, auxiliados e apoiados na parte técnica e logística pelos espaciais, suas máquinas e equipamentos de alta tecnologia e eficiência. O projeto previa sua execução por pessoas com pouca ou nenhuma experiência e, para minimizar a ocorrência de dúvidas ou erros durante a sua execução, os amigos das estrelas prepararam plantas detalhadas de cada fase e gabaritos de diversos tipos.

Os trabalhos foram iniciados com a demarcação dos setores e dos terrenos. Em seguida, abriram as ruas, avenidas e executaram os serviços de terraplanagem, nivelamento e compactação do piso destinado aos alicerces de cada tipo de edificação. Na etapa seguinte abriram os buracos para fixação dos pilares de madeira de sustentação dos alicerces. Esses serviços foram realizados pelos espaciais, suas naves e máquinas extremamente rápidas e eficientes. Assim que esses trabalhos foram concluídos, realizaram um sorteio para definir as famílias que morariam em cada setor e terreno específico, com a finalidade de motivar os sobreviventes, criar a afinidade energética e permitir a definição das cores de acabamento das residências e do respectivo mobiliário. Com essas informações, os espaciais prepararam as tintas necessárias a cada tipo de acabamento.

Assim que as cores de acabamento foram definidas, foi iniciada a grande operação de construção das residências que contou com a participação de todos os adultos, incluindo, em algumas fases, as crianças com mais de doze anos. Os trabalhos foram desenvolvidos em regime de mutirão e os homens trabalharam em expedientes diários de 12 a 14 horas. Os participantes foram divididos em grupos homogêneos, a partir da escolha individual quanto ao tipo de trabalho que cada um mais conhecia e gostava de executar. As construções foram iniciadas com a fixação dos pilares de madeira para colocação das vigas de apoio do assoalho e das colunas de sustentação das paredes e do telhado. Em seguida um outro grupo colocou o vigamento de suporte do assoalho, aprumou e fixou as colunas de madeira para sustentação das paredes e do telhado. Em paralelo, um novo grupo instalou a rede de água e esgoto, deixando as tubulações na altura apropriada para instalação de torneiras, tanques, lavatórios, chuveiros e vasos sanitários, com todas as terminações de água fria devidamente lacradas e testadas contra vazamentos.

Também em paralelo, outro grupo montou as paredes utilizando tábuas com encaixes do tipo macho e fêmea, com 20 centímetros de altura e 120 de comprimento. Essas tábuas foram encaixadas nas colunas de sustentação e, nos lugares destinados a portas ou janelas, encaixaram peças apropriadas para instalação desses itens por uma outra equipe após a colocação do assoalho. Quando as paredes atingiam a altura apropriada, colocaram as peças de acabamento e sustentação do madeiramento do telhado. Essas peças foram aparafusadas nas colunas de sustentação das paredes e, quando todo o conjunto foi fixado, a estrutura da casa ficou travada e ponta para receber o madeiramento do telhado.

Em seguida, outro grupo colocou e fixou o madeiramento do telhado, deixando a residência pronta para ser coberta por outra equipe. O telhado era formado por placas com doze milímetros de espessura, pouco mais de um metro de largura e comprimento variável, as quais formavam a cobertura e o forro interno. Elas foram confeccionas nas indústrias instaladas nos continentes polares e eram compostas por plásticos, borrachas e outros materiais que as tornavam altamente resistentes, impermeáveis, refratárias e leves. Elas tinham encaixes precisos que foram unidos com uma resina própria e, em pontos específicos, foram substituídas por outras placas especiais. Umas tinham células fotovoltaicas para geração de energia elétrica de baixa voltagem e outras tinham a finalidade de aquecer água até o ponto de fervura. Um terceiro tipo era um reservatório para 150 a 600 litros de água quente, conforme o tamanho de cada residência.

Assim que todas as placas foram instaladas, outra equipe colocou o assoalho de madeira e arremates laterais em todos os cômodos, exceto nos Box dos banheiros, onde instalaram um piso formado por uma única placa de material plástico. Em seguida, enquanto uma nova equipe colocou os acabamentos laterais do teto, uma outra instalou e fixou as portas e janelas. Assim que esses trabalhos foram concluídos, uma outra equipe instalou as canalizações de água quente com tubulações aparentes. Em seguida, outra equipe instalou o tanque da lavanderia, a pia da cozinha, os lavatórios, sanitários, chuveiros e suas ligações com a rede de esgoto. Em paralelo, outra equipe instalou as baterias para acumulação da energia gerada pelas células fotovoltaicas, executou as instalações elétricas e colocou as lâmpadas especiais de baixo consumo, alta luminosidade e longa duração.

Assim que os trabalhos acima foram concluídos, outra equipe se dedicou à pintura externa e interna, nas cores definidas pelos futuros usuários. Em seguida, uma nova equipe limpou o assoalho de madeira e outra o recobriu com uma resina plástica fosca e antiderrapante que o impermeabilizou completamente e destacou suas cores originais. Quando o piso secou e adquiriu sua resistência máxima, outro grupo instalou o mobiliário padrão nas cores definidas pelo futuro usuário, deixando a casa pronta para ser habitada. O mobiliário era constituído pelos itens abaixo e suas quantidades e dimensões foram padronizadas em função da quantidade de dormitórios e da área construída.

  • Armáriomodularemcadaquarto, comduasdivisõesbásicas.

  • Camas solteiro com duas gavetas e de casal com quatro, ambas com baú na cabeceira. Em cada quarto havia uma cama de casal no centro, ou duas de solteiro nas laterais.
  • Colchões de espuma de alta densidade que foram resgatados durante as operações específicas ou fabricados pelos espaciais nas indústrias instaladas nos continentes polares.
  • Sofás para duas e para quatro pessoas, com estrutura de madeira e almofadas de espuma.
  • Mesa de sala e cadeiras para 4 a 10 ocupantes.
  • Mesa de cozinha com 6 cadeiras, independente do tamanho da residência, além de armário na pia e armário vertical de tamanho compatível com cada tipo de residência.
  • Armários de banheiro, sendo um menor com espelho sobre o lavatório e outro maior para artigos diversos.
  • Bancos de madeira com encostos instalados na varanda, com 4 a 12 lugares.   

Apesar das residências serem padronizadas e cada setor ser formado por habitações de um mesmo tipo ou tamanho, seu conjunto e suas cores externas bastante variadas deixavam cada setor e o próprio NTCA com um aspecto harmonioso, alegre, bonito e organizado, especialmente depois que concluíram o ajardinamento das residências, as calçadas e o plantio de árvores nos canteiros das ruas. Com isso, os NTCA se tornaram muito diferentes das antigas cidades arretianas que apresentavam casas e prédios de todos os tipos e tamanhos, redes elétricas e várias outras coisas que as tornavam parecidas com o atual padrão terrestre.

A mudança de mentalidade

O conforto que os habitantes dos NTCA experimentaram nas novas habitações, a fartura e a qualidade dos alimentos por eles produzidos, as diversões coletivas nas ainda precárias estruturas de lazer e a satisfação por terem realizado tantas coisas que nunca fizeram antes e em tão pouco tempo, dentre outros fatores simples e importantes, redobrou a confiança no futuro e o apreço que a grande maioria nutria pelos amigos das estrelas desde os dias da grande transição. Além da constante e desinteressada dedicação, eles sempre cumpriam o que prometiam e nenhum arretiano jamais se sentiu enganado por eles em nenhum momento. Mesmo a decrescente minoria que ainda criticava o novo modo de vida e também não confiava plenamente nos espaciais, não encontrava motivos lógicos ou objetivos para justificar qualquer coisa contra eles junto à grande maioria.

Além disso, o relacionamento cordial e respeitoso que mantinham com os sobreviventes, sem a mínima demonstração do poder e da supremacia tecnológica e espiritual que todos os sobreviventes sabiam que eles detinham, creditava aos espaciais um respeito e uma autoridade moral que os capacitava como conselheiros nas mais diversas questões individuais, familiares ou coletivas. Por essas razões eles foram requisitados, de maneira crescente, para fazer preleções diversas, especialmente sobre os mais variados aspectos da Lei Divina. De maneira didática, gradativa, objetiva e sem margens para contestações lógicas, transmitiram os conceitos mais importantes e profundos sobre a realidade espiritual. Essas preleções contribuíram decisivamente para acelerar e consolidar as drásticas mudanças que ocorreram no comportamento social, afetivo e no pensamento religioso da população, além de acelerar a materialização do ideal de irmandade e fraternidade, pois a grande maioria começou a mudar radicalmente o seu modo de pensar anterior e de encarar o seu novo modo de vida.

O que aconteceu naquele período foi o resultado de um longo processo de maturação de idéias individuais e coletivas que finalizou com o advento da grande transição. Os sobreviventes começaram a entender que o seu novo modo de vida, apesar de simples, era muito melhor que aquele que vivenciaram anteriormente como pessoas ricas ou pobres, famosas ou desconhecidas. Começaram a entender o significado de uma coisa que buscaram sob as mais diversas faces e somente a encontraram por breves momentos. Essas pessoas começaram a sentir, vivenciar, praticar e entender a real natureza daquele sentimento que denominavam como felicidade e entendiam que somente podiam alcançá-la com riquezas e poderes materiais. Nessa nova fase de suas vidas, eles não precisavam de carros, riquezas, títulos universitários e outras coisas que diferenciavam as pessoas e pelas quais lutaram e se sacrificaram para atingir o ponto onde supunham encontrar a felicidade e viam que, uma vez alcançado, o ponto sempre se deslocava para um referencial mais alto que exigia novas lutas e sacrifícios ainda maiores.

Nos NTCA, trabalhando como operários da construção civil, como lavradores e outros ofícios, todos se sentiam iguais e felizes com as pequenas coisas do dia-a-dia, como nunca experimentaram anteriormente. Ficavam felizes ao contemplar a germinação das sementes na horta, em saborear os produtos colhidos, ou durante o banho em uma cachoeira. Com isso, começaram a questionar seus antigos valores e concluíram que a maioria das lutas que empreenderam no passado foram em vão e na direção errada, pois raramente experimentaram mais que algumas horas ou dias da tranqüilidade, segurança, alegria e felicidade que vivenciaram desde os primeiros dias da grande transição, especialmente durante a construção e após a ocupação das residências. Nos NTCA não circulava dinheiro, não havia assaltos, assassinatos, patrões, empregados, doutores, operários, pobres ou ricos. Todos eram sobreviventes de uma grande catástrofe que destruiu a antiga estrutura planetária e ceifou a vida de dois terços de sua população.

Todos estavam começando uma nova fase de suas vidas e uma nova era planetária em harmonia com seus semelhantes, com a natureza e felizes como as crianças, com as quais conviviam estreitamente e não mais em algumas horas da noite e dos fins-de-semana, como acontecia anteriormente. Muitas vezes as crianças trabalhavam em igualdade de condições com os adultos e até em superioridade, a exemplo do que acontecia durante o plantio e colheita de verduras e legumes na horta comunitária. Nessas atividades elas produziam mais que os adultos em função da flexibilidade de seus corpos mais adaptados para trabalhos ao nível do solo. Esses fatos e vários outros dominaram as conversas naqueles dias do sexto mês e levaram os moradores a falar cada vez menos a respeito da tragédia representada pela grande transição e a centrarem suas conversas nos benefícios que ela representou, pelos bons frutos que produziu em um tempo tão curto.

AS ATIVIDADES NA PRIMEIRA DÉCADA

A operação de remoção de escombros

No início do segundo semestre um grande número de espaciais e de naves exploratórias e cargueiras de diversos tamanhos e procedências estelares retornou a Arret para realizar uma grande operação de remoção de escombros, recolhimento de sucatas e ossadas humanas soterradas, normalização dos acessos terrestres e fechamento das fendas abertas por terremotos, além das erosões que já existiam antes da grande transição. Todas as naves estavam equipadas com vários equipamentos para auxiliar nos trabalhos de remoção de entulhos, separação de ossadas humanas, de sucatas e suas destinações finais. Elas estavam aparelhadas com os mesmos equipamentos utilizados nas diversas operações realizadas anteriormente, os quais podiam desmaterializar e teletransportar qualquer tipo de material para o interior das naves, onde eram rematerializados no estado em que se encontravam no solo, ou completamente pulverizados, ou transformados em blocos, como no caso das sucatas. Esses equipamentos atuavam de maneira seletiva e podiam ser regulados para coletar ou desmaterializar, teletransportar e rematerializar um único tipo de material ou um conjunto deles.

Essa operação abrangeu todos os recantos do planeta, o qual foi dividido em milhares de setores de tamanho inversamente proporcional à quantidade e concentração de escombros. Cada setor ficou sob a responsabilidade de um grupo de espaciais e de naves que iniciou os trabalhos a partir dos arredores dos NTCA. Gradativamente eles se expandiram para as demais áreas rurais, passando pelas pequenas, médias e grandes cidades, até atingir as megalópoles. Nas áreas urbanas os trabalhos partiram das zonas periféricas e caminharam em direção às zonas centrais com um grau crescente de dificuldades em função do volume e concentração de escombros. O objetivo principal da operação era retirar e destinar os escombros, deixando cada local em condições ideais para reflorestamento e desenvolvimento do novo modo de vida que iria se desenvolver no planeta.

Para que isso acontecesse, cada setor contava com uma quantidade maior de naves exploratórias e várias naves cargueiras de diversas capacidades. As naves exploratórias sobrevoavam os locais, avaliavam as quantidades ou volumes e desmaterializavam tipos ou grupos de materiais previamente selecionados, os quais foram teletransportados diretamente para o interior de uma nave cargueira voltada para o recebimento, tratamento e destinação de um tipo específico ou um grupo de materiais. Quando uma dessas naves atingia sua lotação e se retirava temporariamente do local para descarregar os materiais, era imediatamente substituída por outra nave semelhante. No interior das naves cargueiras voltadas para o recebimento, tratamento e destinação de ossadas humanas, os trabalhos seguiam um padrão diferente das demais. As ossadas foram rematerializadas e automaticamente separadas por esqueletos específicos, ou de um mesmo tipo de DNA. Em seguida, cada esqueleto foi colocado em uma urna plástica que teve o mesmo destino dado aos cadáveres que não puderam ser identificados nos dias seguintes à grande transição. Da mesma forma anterior, os espaciais fecharam milhares de fendas ainda existentes no planeta.

As naves voltadas para o recolhimento de sucatas recicláveis e de materiais inservíveis adotaram procedimentos e destinações distintas para esses materiais.  As sucatas foram automaticamente classificadas e agrupadas, por tipo específico, em blocos de um metro cúbico, os quais foram posteriormente transportados para os depósitos instalados nos continentes polares. Os entulhos e materiais inservíveis, incluindo aqueles provenientes de revestimentos das estradas, ruas e avenidas, foram recolhidos sem critérios de separação e utilizados para preencher subsolos de prédios, fendas abertas por terremotos e erosões anteriores à grande transição. Muitas fendas e erosões secas foram utilizadas como sepultura de ossadas humanas e as demais foram preenchidas com entulhos e terra fértil da região, como nas operações anteriores, deixando a superfície em condições de criar ou receber nova cobertura vegetal. As fendas com água parada ou corrente foram inicialmente preenchidas com grandes blocos de pedras até o nível da água e, em seguida, com algumas camadas de pedras cada vez menores. Depois, adotaram os mesmos procedimentos utilizados para fechamento das fendas secas.

Nas zonas rurais recolheram tudo o que restou de pontes e viadutos metálicos ou de concreto, além de todos os trechos de estradas danificadas. Todas as grandes e pequenas rodovias foram seriamente danificadas pelas ondulações provocadas pelos terremotos e seus revestimentos encontravam-se espalhados por grandes áreas, em conseqüência das ações dos furacões e ventanias ocorridas durante a grande transição. Como os demais, esses entulhos foram utilizados para preencher uma grande quantidade de fendas e erosões. Essa grande operação se prolongou por quase três meses e quando foi concluída não havia mais sinais visíveis da antiga estrutura planetária. Algum tempo depois a vegetação começou a cobrir os locais onde antes havia áreas urbanas ou industriais, fendas ou erosões. A vista aérea desses locais não mais denunciava o que lá existia anteriormente, pois sua paisagem se confundia com a de outros locais com vegetação rala ou rasteira. Ao solo foi devolvido tudo que dele foi retirado e que não era de utilidade para o novo modo de vida que começou a se desenvolver no planeta.

Quando esses trabalhos foram concluídos, a maioria das naves retornou aos seus planetas de origem e uma parte delas permaneceu para iniciar outra operação que consumiu mais dois meses de trabalho. Durante esse período os amigos das estrelas abriram ou recuperaram e normalizaram as vias de acesso entre os NTCA, incluindo a instalação de pontes de madeiras ou metálicas em todos os vãos iguais ou superiores a cinco metros. Essas estradas tinham uma largura padronizada, cobertura de cascalho, lombadas e saídas de águas pluviais em todos os trechos sujeitos a erosão. Com isso, o planeta ficou pronto e preparado para o novo tipo de humanidade que lá iria continuar sua evolução sob um novo céu e sobre uma nova terra. Nesse ponto, os espaciais concluíram a primeira fase do programa de apoio da grande frota interestelar, a qual ficou reduzida às naves e espaciais que viviam em estreito contato com a população, ou em bases localizadas em locais inabitados, principalmente em grandes ilhas e nos dois continentes polares.

O trabalho nos núcleos comunitários

No decorrer do segundo semestre as atividades entraram em um regime de normalidade em todos os NTCA. Seus moradores, apesar do estilo de vida simples e de uma imobilidade quase total, estavam confiantes e felizes com o novo estilo e qualidade de vida, apesar das doze horas de trabalho diário e do descanso semanal limitado aos domingos. Os sobreviventes não consideravam suas longas jornadas de trabalho como cansativas, como pareceria à primeira vista, em função do ambiente em que viviam e do crescente grau de companheirismo, cooperação e irmandade que havia entre eles. Além disso, os moradores da maioria do NTCA passaram a encarar qualquer trabalho como um tipo de atividade de lazer. Porém, nos locais onde as pessoas resolveram continuar em suas terras e em alguns núcleos com maior percentual de descontentes, surgiram diversas dificuldades e o espírito de união dos moradores não era aquele que existia nos demais NTCA. A maioria dessas pessoas reclamavam muito e encontravam dificuldades para realizar qualquer coisa, pois elas ainda estavam apegadas a conceitos antigos, não aceitavam conselhos e até dificultavam a ajuda dos espaciais.

Essa situação começou a mudar entre as famílias que continuaram em suas terras, quando os amigos das estrelas começaram levá-las aos domingos para visitar os NTCA próximos, logo que as habitações familiares foram concluídas. À medida que constataram o nível de integração, de felicidade e de qualidade de vida dos seus moradores, muitas abandonaram suas terras, se transferiram para esses locais e se integraram totalmente no estilo de vida e espírito comunitário que neles existia. Essas transferências se aceleraram nos meses seguintes e poucas famílias continuaram em seus locais de origem. No segundo semestre, toda a força de trabalho foi voltada para ampliar a variedade de cereais, verduras e legumes, formação e plantio de novas mudas de arvores frutíferas, ornamentais e silvestres, além da decoração dos NTCA e melhoria ou ampliação dos locais de lazer.

O início do segundo ano foi uma continuação do semestre anterior, com grande incremento da produção de cereais, verduras e legumes, além da colheita de algumas frutas de produção rápida plantadas no ano anterior. Ao longo desse ano foram concluídos os trabalhos voltados para o embelezamento e decoração dos NTCA, como o plantio de flores e folhagens em todas as residências, praças e jardins comunitários. Também aprimoraram as estruturas de lazer e construíram muitas pontes em vãos inferiores a cinco metros, pois as maiores foram instaladas pelos especiais durante os trabalhos de normalização dos acessos terrestres. As pontes e estradas ampliaram as opções de lazer aos domingos e permitiram iniciar os contatos entre os núcleos próximos através de triciclos e de pequenos veículos elétricos recuperados pelos espaciais. Eles destinaram um veículo para cada grupo de 15 moradores, o qual foi utilizado em regime de rodízio. Esses veículos tinham um raio de ação de 100 quilômetros e suas baterias podiam ser recarregadas pela luz “solar” ou por geradores especiais que os amigos das estrelas instalaram em todos os NTCA. Cada morador recebeu um triciclo com um a quatro assentos, de maneira que quase todas as famílias contavam com um de cada tipo.

No decorrer do segundo ano foram construídas escolas em todos os núcleos para ensinar um variado conjunto de matérias teóricas e práticas, além da língua já utilizado pelo antigo mercado comum e que não era o idioma oficial em nenhum país, a exemplo do nosso Esperanto, atendendo recomendações de um organismo planetário criado no ano anterior e que será detalhado no item seguinte. No final do segundo ano, aquele organismo concluiu o planejamento para construção de novos Núcleos de Trabalho Comunitário Industrial, batizados como NTCI, os quais foram construídos e habitados por uma parte dos moradores dos NTCA de alta produtividade, com foi o caso da maioria daqueles localizados no país de Olintho. Em muitos NTCA a população foi reduzida em até trinta por cento, sem prejudicar o desenvolvimento das atividades agrícolas, ou aumentar o trabalho diário, ou diminuir o descanso semanal.

Entre o terceiro e o quinto ano, as atividades desenvolvidas nos NTCA e NTCI sofreram alterações significativas e seus moradores se dedicaram a complementar, aprimorar, expandir e racionalizar suas atividades. O novo modo de vida voltou a se estabilizar e uma parte significativa da produção industrial já era realizada pelos arretianos. Nesse período foram intensificados os contatos entre os núcleos próximos, especialmente por jovens e adolescentes. Em decorrência do aumento significativo dessas visitas, todos os núcleos sofreram expansões em suas áreas residenciais, principalmente a partir do quinto ano, quando muitos jovens, ou pessoas solteiras, ou viúvas se casaram. No sexto ano foram construídos hospitais em todos os núcleos, priorizando a maternidade que passou a ser incentivada em todo o planeta. Até o final da primeira década, a vida transcorreu dentro de um regime de normalidade e houve um aumento crescente de NTCI para desenvolver novas atividades industriais que tornaram os arretianos completamente auto-suficientes. Apesar de menos intenso, o regime de trabalho diário continuou sendo de 10 a 12 horas, com descanso aos domingos.

A nova ONU e o início da unificação dos países

O segundo ano marcou um estreitamento das relações entre os dirigentes de todos os países e esse importante passo foi facilitado em razão dos espaciais terem inaugurado, no final do ano anterior, um grande centro de convenções na grande ilha de Agartha, onde funcionava a sua principal base de operações desde os primeiros dias da grande transição. O local tinha inúmeras salas, pequenos auditórios e um maior com capacidade para 21 mil pessoas sentadas. A ilha sempre esteve localizada em águas internacionais e era um santuário ecológico mantido e freqüentado por cientistas de inúmeros países. Por essa razão, o centro de convenções era um local neutro e indicado para reuniões de caráter geral, pois a integridade e imparcialidade dos amigos das estrelas eram inquestionáveis.

Sua inauguração ocorreu em uma manhã de domingo e nela estavam presentes todos os coordenadores das juntas federativas e estaduais. A cerimônia foi acompanhada pela população do planeta através de telões instalados pelos espaciais em todos os núcleos e contou com palestras do comandante da frota de apoio a Arret e de representantes de cada um dos cinco continentes habitados, previamente escolhidos pelos coordenadores das juntas federativas correspondentes. O comandante fez uma palestra sobre os objetivo daquele centro e propôs uma agenda com diversos temas a serem discutidos nos dias seguintes. Quando os representantes continentais falaram, o embrião da unificação planetária estava em suas mentes, pois todos o colocaram como um objetivo a ser atingido em um futuro próximo.

Na parte da tarde as delegações conheceram os detalhes do centro de convenções e após o jantar os coordenadores das juntas estaduais retornaram ao aos seus locais de origem. Os três dias seguintes foram reservados para reuniões e discussões de temas de alto interesse para o futuro do planeta, cabendo aos espaciais a mediação das reuniões e o fornecimento do apoio logístico, inclusive, de tradução simultânea. Durante esses dias, os dirigentes das juntas federativas foram divididos em grupos temáticos e reunidos em auditórios menores. Suas conclusões foram apresentadas e discutidas em reuniões plenárias no grande auditório e, no final, chegaram a muitas conclusões e resolveram uma infinidade de pequenos e grandes problemas que afetavam diversos países. Além disso, definiram um calendário para realização de reuniões semelhantes a cada três meses. 

Como principal conclusão, decidiram recriar, em novas bases, um organismo multilateral semelhante à nossa ONU, em substituição àquele que lá existia antes da grande transição. O novo organismo foi definido com o objetivo de levantar, discutir e propor soluções para todas as questões de interesse comum e preparar o caminho para o governo planetário, começando pela unificação de países vizinhos e de um mesmo continente. Seu plenário seria composto por representantes de todos os países, em torno de 450, e suas decisões teriam poder normativo a nível setorial e planetário. A nova ONU teria atuação permanente e os representantes de cada país residiriam na ilha de Agartha com suas famílias e outras cinco de seus respectivos auxiliares, onde formariam um núcleo residencial com formato circular, a ser construído no entorno do centro de convenções. O núcleo seria dividido em setores representativos de cada continente e estes em quadras específicas para comportar as famílias de cada país. Apesar dessa divisão lógica, formariam um único núcleo com restaurantes e serviços de uso comum, a exemplo daquilo que ocorria nos NTCA.

Além da utilização da estrutura já existente, seriam construídos escritórios de trabalho para comportar as delegações de cada país, localizados entre o núcleo residencial e o centro de convenções. Também contariam com o assessoramento de espaciais especialistas em questões governamentais, cabines de teletransporte com acesso às naves dos dirigentes de seus respectivos países, além de um “pool” de naves de vários portes para deslocamentos a qualquer região do planeta. A infra-estrutura para abrigar as famílias e permitir o início das atividades do novo organismo foi construída em menos de quatro meses e obedeceu aos mesmos padrões adotados nos NTCA. O núcleo residencial foi ocupado nos dias seguintes por cerca de 8.000 pessoas, representando as famílias dos membros titulares e de seus auxiliares. Os assessores espaciais continuaram morando nas naves de apoio e a nova ONU arretiana iniciou suas atividades após uma rápida solenidade coordenada pelo comandante da frota de apoio a Arret e contou com a presença de todos os coordenadores das juntas federativas e estaduais.

Os familiares dos membros do novo organismo logo sentiram dificuldades para incrementar seus relacionamentos em função das barreiras representadas pelas diversos idiomas natais. Esse fato causou um isolamento das famílias e um grande choque em todos os membros do novo organismo. Para solucionar esse problema, resolveram definir como língua oficial da Ilha de Agartha, a mesma que utilizavam no antigo mercado comum. No decorrer das discussões, extrapolaram o objetivo a nível planetário e decidiram recomendar o ensino da linguagem em todos os núcleos agrícolas e industriais do planeta, pois o caminho para a unificação planetária estava aberto e esse era o principal objetivo da criação daquele organismo. Essa foi a primeira proposta aprovada pelo novo organismo e imediatamente posta em pratica pelos dirigentes de todos os países, pois em cada NTCA havia uma ou mais pessoas que conheciam a nova língua.

Como havia muitas na ilha de Agartha, em pouco mais de seis meses todos se comunicavam através dela, o que fomentou a integração entre os moradores e significou um grande passo em direção à unificação planetária, pois em pouco tempo desapareceu a sensação de que pertenciam a países distintos. Os habitantes do país de Olintho comemoraram a entrada do terceiro ano utilizando a nova língua como idioma oficial que, no decorrer daquele ano, foi adotado pelos demais países daquele continente. Apesar do entusiasmo inicial, o engajamento e o uso diário da nova língua ainda demorou alguns anos para ser falada e escrita por todos os habitantes do planeta, mais por força do hábito, do que por outras razões.

Como outro grande fruto das atividades iniciais da nova ONU, foram reestruturadas as juntas de governo federativas e extintas as estaduais de todos os países. Juntamente com essa iniciativa, criaram uma pequena estrutura semelhante às juntas federativas em todos os NTCA, para facilitar as comunicações e agilizar o andamento dos trabalhos, denominada como  Coordenação Administrativa. Também estabeleceram um sistema de eleições para todos esses cargos, com mandatos de quatro anos e reeleições sucessivas. A primeira eleição geral ocorreu no final do segundo ano e quase todos os dirigentes federativos que se candidataram foram confirmados em seus cargos, como foi o caso de Olintho. Com isso, as juntas estaduais foram extintas e seus membros e suas respectivas famílias foram residir e trabalhar nos NTCA que escolheram.

Além da força normativa que a nova ONU representava, a extinção das juntas estaduais e a criação de coordenações administrativas em cada NTCA, vinha sendo discutida pela maioria dos coordenadores estaduais e demais membros desde meados do ano anterior, em função de três fatores principais.

  • A normalização das atividades em todos os NTCA e o decrescente uso de naves para locomoções, as quais continuavam, juntamente com seus comandantes e tripulantes, à disposição das juntas estaduais.
  • A necessidade de uma coordenação local em cada NTCA para aliviar o trabalho dos espaciais que atuavam em cada um deles e de muitos moradores que, além de desempenharem atribuições afetas a todos os moradores, eram constantemente acionados para resolver diversos tipos de problemas, ou para tomar decisões ou administrar situações que afetavam a comunidade.
  • O crescente desejo dos membros das juntas estaduais de residir no solo e ter a mesma qualidade de vida dos moradores dos NTCA, especialmente quando tinham filhos pequenos ou adolescentes.

As juntas federativas foram reduzidas para um máximo de 33 membros e foram mantidas as 450 naves principais como gabinete de trabalho e residência familiar. Os especialistas em questões governamentais foram limitados aos tripulantes das naves e todos os voluntários arretianos foram com suas famílias morar nos NTCA que escolheram. Com isso, a quantidade de naves de pequeno porte para locomoção caiu drasticamente e ficou restrita às novas necessidades dos membros das juntas federativas. Essas mudanças abriram caminho para outras maiores e no decorrer do segundo ano foi concluído e aprovado um planejamento global para construção de Núcleos de Trabalho Comunitário Industrial, os NTCI.

Esse projeto foi incentivado pelos espaciais que se comprometeram a doar todos os equipamentos necessários e a ministrar o treinamento para capacitar os arretianos a assumir a produção de uma série de produtos industrializados e de outros bens que integrariam as linhas de produção nos anos seguintes. Essa disposição dos amigos das estrelas foi motivada pela nova maneira de pensar do povo arretiano que, em sua maioria, assimilou completamente as lições impostas pelos acontecimentos da grande transição e já pensavam e agiam de uma maneira impessoal e completamente diferente daquela que praticavam anteriormente.

Os critérios para construir e instalar os novos núcleos foram simples e objetivos. À medida que as safras agrícolas de cada país apresentassem excedentes, eles seriam eletivos para implantação de NTCI e, dentro deles, as regiões mais produtivas, de cujos NTCA seriam recrutadas e selecionadas as famílias para construir, residir e produzir nos novos núcleos, pois a saída dessas famílias não representaria trabalho adicional para aqueles que permaneceriam nos locais de origem. Cada NTCI foi projetado para produzir uma linha específica de produtos e previa expansões futuras das áreas residenciais, industriais, de lazer e de serviços públicos. Os candidatos e suas famílias foram selecionados em função da formação anterior, habilidades e desejos individuais e familiares. Todas as famílias selecionadas foram abrigadas em naves apropriadas durante a fase de construção dos NTCI para abrigar até 2.000 pessoas, entre adultos e crianças, em um período compreendido entre quatro e seis meses. Exceto a área industrial, as demais seguiram os mesmos padrões existentes nos NTCA, inclusive quanto aos restaurantes comunitários.

Durante os meses que duraram as construções, todos os novos industriários receberam treinamento teórico e prático no interior das naves e em instalações congêneres que os espaciais mantinham em diversos locais do planeta. Os primeiros NTCI foram concluídos no início do terceiro ano e tiveram sua produção direcionada para a industrialização de alimentos, artigos de vestuário, cama, mesa e banho, peças de madeiras e outros equipamentos para construção e mobiliário, além de uma infinidade de ferramentas de trabalho e utilidades domésticas. Assim que cada NTCI foi concluído e as residências ocupadas, os espaciais iniciaram a instalação e os testes operacionais dos equipamentos industriais, sempre auxiliados pelos novos operários. As fábricas entraram em operação com total acompanhamento dos espaciais e, após algumas semanas, quando os arretianos se sentiram seguros e dominaram a técnica de operação e de manutenção dos equipamentos, a maioria dos amigos das estrelas se retiraram para instalar novos NTCI, deixando um grupo de apoio em uma nave estacionada, como ocorria em todos os NTCA. Em alguns locais, eles permaneceram por um tempo maior e somente partiram quando a produção atingiu o nível máximo,

O processo de industrialização se estendeu até o final do décimo ano, quando os excedentes de mão-de-obra agrícola permitiram a implantação de toda a infra-estrutura necessária à auto-suficiência do planeta. Permaneceram ativas e ainda operadas pelos espaciais, apenas as industrias básicas instaladas nos continente polares e em algumas ilhas isoladas. Durante o segundo ano também foram iniciados alguns movimentos para unificação de países, começando pelo continente onde se localizava o país de Olintho. No final do terceiro ano, a metade dos países daquele continente foram unificados e Olintho foi indicado como seu governante. Em outros três continentes ocorreram unificações mais acanhadas, mas o movimento continuou ativo e de maneira crescente. No início do quinto ano todos os países do continente de Olintho foram unificados e ele foi eleito o primeiro governante continental.

Uma das suas primeiras medidas foi construir um núcleo para abrigar a estrutura habitacional e administrativa do novo governo. Ele foi rapidamente construído e logo os membros do primeiro governo continental voltaram a viver no solo com suas famílias. Essa iniciativa motivou outros coordenadores de juntas federativas e daquelas formadas por grupos de países a tomarem iniciativa semelhante. A competente administração de Olintho gerou um grande aumento na produção agrícola e industrial do seu continente, a qual implicou em uma redução na jornada de trabalho no decorrer do sexto ano, para não gerar excedentes não aproveitáveis no restante do planeta. A jornada foi diminuída para dez horas diárias e incluiu o dia de sábado no descanso semanal. Esses resultados influenciaram os demais países de outros três continentes parcialmente unificados e os processos se intensificaram com a criação do segundo governo continental no final do oitavo ano, elevando para mais de 200 o número de países unificados em todo o planeta. Não fosse a sua morte ocorrida no final do décimo ano, esse processo teria sido concluído em um tempo bem menor que aquele que foi gasto.

A morte de Olintho

Ele faleceu em decorrência de um ataque cardíaco fulminante, às vésperas de completar sessenta e quatro anos, durante uma visita de rotina a um núcleo industrial. Olintho vinha sendo alertado pelos seus médicos para diminuir o seu ritmo e horário de trabalho desde quando assumiu a presidência de seu país, três anos antes da grande transição. Depois, os espaciais continuaram com a mesma recomendação, pois não podiam interferir no seu livre arbítrio. Durante quase quatorze anos ele trabalhou intensamente para melhorar a qualidade de vida das populações que governou como um missionário. Ele nunca tirou férias e poucos foram os fins de semana que aproveitou para descansar. Quando faleceu, era a pessoa mais admirada e respeitada no planeta, incluindo os dirigentes e habitantes dos países mais problemáticos. Por isso, ele era uma espécie de embaixador dos amigos das estrelas e dos demais dirigentes juntos a esses povos. Ele também era visto como uma espécie de pai, amigo ou irmão de todas as pessoas que viviam em seu país de origem e no continente que governou durante mais de cinco anos.

Desde quando Olintho assumiu a presidência do seu país, no período anterior à grande transição, ele sempre foi o exemplo de tudo que deu certo e produziu os melhores resultados com o menor esforço e no menor tempo possível. A notícia da sua morte paralisou o planeta, pois o comando a frota de apoio a Arret divulgou o fato a todas as naves sediadas nos núcleos, como sempre acontecia com notícias de interesse geral, a exemplo das deliberações da nova ONU, unificações de países e uma série de outras novidades que sempre eram divulgadas nos restaurantes coletivos e nas demais áreas sociais. Fazia quase uma década que a grande maioria dos habitantes não tinha razões para tristezas, pois a nova vida planetária apresentava um número crescente de fatos positivos que só geravam alegrias e confiança em um futuro ainda melhor. A morte de Olintho entristeceu todos os habitantes do planeta a população, pois foi sentida como a perda um parente querido ou de um grande amigo. Como todos queriam prestar a ele a sua última homenagem e não havia condições para tal, os espaciais sortearam um morador de cada núcleo e o levaram à ilha de Agartha para, em nome dos demais, prestar suas homenagens àquele grande homem.

Seu corpo foi preparado para suportar a longa homenagem que recebeu no centro de convenções durante doze dias e noites, quando foi visitado por quase 4 milhões de pessoas. Os espaciais montaram telões nas praças que circundavam os restaurantes coletivos, para que a população acompanhasse as homenagens após o jantar. Também transmitiram a cerimônia que ocorreu no dia do seu sepultamento quando todas as atividades planetárias foram paralisadas. Ele foi enterrado em um local da ilha de Agartha onde atualmente é o centro de um jardim localizado no lado direito da entrada principal do Palácio da Harmonia, a atual sede do governo planetário. No jardim do lado esquerdo está enterrado o corpo de Hórhium, o segundo governante do planeta, tido pelo povo arretiano como uma nova manifestação de Olintho.

A cerimônia simples foi precedida por um emocionado discurso do comandante da frota de apoio a Arret e foi presenciada por todos os coordenadores das atuais e das primeiras juntas de governo criadas após a grande transição. Olintho foi substituído por Nunzain um dos membros da sua junta de governo continental e também um de seus maiores amigos e grande colaborador desde os primeiros dias da grande transição, quando coordenou os esforços que levaram à construção dos NTCA de seu país em tempo recorde. Ele também era um trabalhador incansável, muito competente, querido e respeitado pelos povos do seu continente. Nunzain era uma pessoa dotada de grande sabedoria e senso de justiça, possuindo, de maneira geral, as qualidades básicas do seu grande amigo e mestre Olintho.

OS ACONTECIMENTOS ENTRE OS ANOS 11 E 40

Durante os 10 primeiros anos do governo de Nunzain, ele seguiu os passos de seu antecessor e também se tornou um líder planetário. Seus exemplos de trabalho, de justiça e de objetividade influenciaram muitos governantes e, até o ano 20, havia 4 governos continentais na zona equatorial, além dois outros criados nos continentes polares, onde havia um predomínio de núcleos industriais, incluindo alguns que passaram a operar todas as indústrias básicas até então instaladas e mantidas pelos espaciais. Com isso, os arretianos também atingiram a auto-suficiência plena na área industrial. No decorrer da segunda década, a ONU arretiana sofreu várias reestruturações para refletir a nova organização política do planeta e seus membros titulares e auxiliares foram sendo reduzidos e ajustados às novas realidades.

Nesse mesmo período, mais da metade dos habitantes do planeta adotou a nova língua como idioma oficial e os demais a tinham como segunda opção, não havendo mais barreira de comunicação entre os diversos povos. Em todos os continentes unificados e em muitos dos países do único continente ainda dividido, todos os excedentes de produção eram distribuídos aos países que deles necessitavam, sem nenhum tipo de controle ou de pagamento. As cozinhas continuaram sendo comunitárias e em todos os núcleos havia uma central de abastecimento semelhante a um supermercado. Nelas a população encontrava uma grande variedade de itens, como frutas, verduras, cereais, biscoitos, doces, compotas, artigos de higiene, limpeza, cama, mesa e banho, roupas e calçados que eram livremente retirados sem necessidade de controlar o consumo individual ou familiar. Naquela década as populações continuavam limitadas a um território relativamente pequeno, pois ainda contavam com os mesmos recursos utilizados desde os primeiros anos, representados pelos veículos elétricos e triciclos.

Os meios de locomoção de longa distância continuavam representados pelas naves operadas pelos espaciais, as quais eram voltadas para o transporte de cargas. Porém, como vinha ocorrendo desde o início da primeira década e de maneira crescente, os espaciais propiciavam vôos panorâmicos e passeios turísticos nos dias de descanso, dentro de um esquema de rodízio que atendia toda a população. Com isso os habitantes tinham uma oportunidade periódica de conhecer a situação do planeta, outros núcleos e novos locais de lazer, no seu continente de origem ou em outros. No decorrer da segunda década os hospitais, que eram mais voltados para a maternidade, foram equipados para atender quase todas as especialidades até então tratadas exclusivamente nas naves, tornando os arretianos também auto-suficientes na área da saúde. Somente alguns casos continuaram sendo tratados pelos espaciais, a exemplo de transplantes ou reconstituições de órgãos lesados por acidentes.

No final da segunda década havia escolas de primeiro e de segundo graus para todas as crianças e jovens. Elas utilizavam um sistema de ensino participativo que valorizava a convivência social e a vocação dos alunos, semelhante ao projeto implantado parcialmente por Olintho no período anterior à grande transição. Os alunos que concluíam o segundo grau podiam residir e continuar seus estudos em cidades universitárias que foram construídas em pontos estratégicos do planeta, as quais ofereciam cursos de formação e de especializações nos áreas da medicina, agronomia e engenharia. Esses alunos visitavam seus familiares nos fins-de-semanas e nos períodos de férias, através cabines de teletransporte que havia nessas universidades e nas naves de suporte que havia em todos os núcleos.

O período compreendido entre os anos 21 e 40 encerrou o ciclo básico de apoio aos sobreviventes e deu início à fase preparatória para implantação do governo planetário. Esse período abrangeu a morte de Nunzain, no ano 38, três anos após a unificação do último e mais problemático dos continentes. Ele foi substituído por Thauro, um administrador e estrategista brilhante que foi o principal articulador e coordenador dos trabalhos de preparação do governo planetário. Uma série de acontecimentos marcou o transcorrer desses anos decisivos na nova história arretiana.

Alguns meses após a unificação do último continente, no início do ano 35, a ONU arretiana foi novamente reestruturada e cada continente foi representado por 21 equipes, cada uma delas especializada em uma área específica, como educação, saúde, habitação, planejamento, produção agrícola, distribuição e lazer. Com isso, a nível planetário, cada área era composta por dezenas de especialistas e um grupo decisório formado por 7 coordenadores que representavam cada continente. Cada grupo decisório formava um conselho deliberativo setorial que atuava sob a coordenação de um de seus membros. Esses 21 conselhos formavam a ONU arretiana, a qual era dirigida por um coordenador geral, escolhido dentre os integrantes dos diversos conselhos setoriais.

No ano 36 os governos continentais foram reestruturados e divididos em regiões com extensão territorial definida em função da quantidade de habitantes por quilômetro quadrado. Cada continente, região e núcleo agrícola ou industrial tinha uma coordenação geral e coordenações específicas ligadas a cada uma das 21 divisões setoriais da nova ONU. A coordenação geral do governo continental era exercida por um presidente e as setoriais, por 21 ministros, cada um deles respondendo por uma área específica, formando uma estrutura padronizada e harmônica em todo o planeta.

Juntamente com a reestruturação dos governos continentais, a nova ONU estabeleceu um conjunto de normas definidas a partir dos princípios da Lei Universal, tendo o amor, a igualdade, a irmandade entre os povos e a paternidade Divina como a base fundamental. Essa nova constituição planetária revogou todas as legislações específicas de cada continente e se transformou em um código de conduta que englobou os aspectos religiosos, sociais, morais, políticos, civis e criminais, apesar de ainda comportar algumas exceções para acomodar tradições e costumes vigentes em cada continente. Ela formava um pequeno volume, denominado como “A Lei de Deus”, cujo conteúdo permaneceu inalterado até o final do primeiro século.

A idéia dessa iniciativa nasceu do crescente anseio popular sentido nos anos anteriores e teve como base as mudanças ocorridas no comportamento e no pensamento religioso, pois ninguém mais se dizia membro ou defendia quaisquer das antigas correntes religiosas. A grande maioria dos arretianos já formava um único rebanho e seguia a um único pastor, representado por Ahelohim, o Messias planetário. Ahelohim não mais era visto como aquele que motivou o surgimento de uma das grandes correntes religiosas do passado, mas como aquele que sintetizou todos os seus precursores e demonstrou a redentora face da paternidade divina e da irmandade universal. Todos passaram a dar importância a uma religiosidade vivenciada e demonstrada pelos atos práticos e pelas pequenas atitudes do dia-a-dia, conforme os amigos das estrelas sempre falavam e exemplificavam em todas as suas ações, desde o advento da grande transição.

A nova constituição planetária entrou em vigor no início do ano 37 e todos os códigos legais, livros sagrados e outros que tratavam de assuntos semelhantes, bem como, aqueles que não contribuíam para o progresso espiritual, foram reciclados e transformados em cadernos e livros didáticos. Como decorrência da nova constituição, muitas profissões exercidas antes da grande transição foram oficialmente extintas, inclusive pelo fato de terem caído em desuso desde aquele acontecimento. A nova estrutura e modo de vida não mais necessitavam de juízes, promotores, advogados, corretores, comerciantes, cartorários, despachantes, policiais, investigadores, soldados, bancários, administradores de investimentos, lobistas, membros do legislativo e uma infinidade de outras profissões e ocupações.

Ao longo desses 40 anos, os sobreviventes e aqueles que nasceram durante esses anos tinham outros valores individuais e coletivos. Todos respeitavam seus semelhantes e procuravam não fazer a eles aquilo que não queriam deles receber. Muitos, além de agir dessa nova maneira, estavam um passo adiante e procuravam fazer qualquer coisa que pudesse deixar uma pessoa mais alegre ou feliz. No decorrer dos 20 anos anteriores houve um completo amadurecimento da irmandade planetária e os antigos costumes e valores, mesmo ainda presentes em uma parcela insignificante da população, tinham sido esquecidos pela esmagadora maioria que vivia uma nova realidade, sob um novo céu e uma nova terra.

No final do ano 40, todo o planeta já falava e escrevia em uma única língua, as fronteiras eram livres e os arretianos podiam residir em qualquer continente que escolhessem. Os controles de trocas que alguns países do último continente unificado mantinham entre si tinham desaparecido e todos colocavam seus excedentes à disposição dos espaciais para distribuição aos povos que deles necessitavam. Agiam assim pelo simples prazer de ajudar seus irmãos que moravam em locais de menor produtividade, ou que ainda não se esforçavam o suficiente, por não terem assimilado o novo modo de vida planetário. Entendiam que, assim como os espaciais deram idênticas condições a todos que sobreviveram à grande transição, deveriam proceder da mesma maneira com seus irmãos menos conscientes, deixando para o Pai Celestial a decisão quanto ao destino que teriam quando deixassem a matéria. Aqueles que nasceram nos anos anteriores à grande transição, ou após a sua ocorrência, tinham uma mentalidade fraterna e estavam preparados para a grande mudança que era a unificação total do governo planetário. Essas pessoas eram mais espiritualizadas e trabalhavam para o desaparecimento das poucas barreiras ainda existentes.

Assim como aconteceu desde os dias seguintes à grande transição, os governos continentais continuaram sendo apoiados pelos espaciais, especialmente na  área de transportes, pois suas naves e uma pequena quantidade de cabines de teletransporte, representavam a única opção de carga ou para deslocamentos de pessoas em distâncias superiores a 200 quilômetros. Desde o início do processo de industrialização e com o crescente aumento das transferências de pessoas dos núcleos agrícolas para os industriais, a população passou a deixar sua residência e respectivos móveis para outros moradores e receber outra do mesmo padrão no novo local. As atividades de lazer, apesar de intensas, continuavam sendo praticadas somente nos finais de semana, o qual já incluía o sábado em todo o planeta. O ritmo de trabalho ainda era intenso, em torno de 10 horas diárias, pois os arretianos assumiram uma série de atividades ligadas à educação, saúde e produção industrial. Desde a grande transição as férias anuais foram abolidas e todos encaravam qualquer tipo de trabalho como mais uma atividade de lazer.

A população cresceu consideravelmente e, no final do ano 40, o planeta já contava com quase 6 bilhões de habitantes, constituídos por muitas crianças e jovens, o que motivou a construção ou ampliação de escolas dos três graus de ensino. Em conseqüência, houve uma grande expansão nos núcleos então existentes e muitos atingiram o seu plano de lotação inicial. Com isso, construíram muitos outros, especialmente nos dois continentes polares, cujas terras eram especialmente férteis. Nessa época os NTCA e NTCI deixaram de ser denominados como tal e passaram a serem referenciados como cidades agrícolas ou industriais. No final do ano 40, alguns estudantes que se destacavam nos diversos cursos de graduação eram levados a outros planetas para complementar seus conhecimentos e aprender novas tecnologias. 

A UNIFICAÇÃO DO GOVERNO PLANETÁRIO

O período preparatório

Esse período de 9 anos foi de grande importância na história arretiana e culminou com a instalação do governo planetário. Mais importante que esse acontecimento foram as suas conseqüências, pois desencadeou outras coisas altamente positivas que, em sua maioria, não faziam parte dos sonhos da população e nem daqueles que trabalharam incansavelmente para implantar o governo planetário. No início do ano 41, os dirigentes continentais e a quase totalidade da população almejava a criação do governo planetário. O entendimento de todos era que ele representaria muito mais que uma administração centralizada. Entendiam que ele representaria, principalmente, a consolidação da irmandade, da fraternidade e da igualdade entre todos os povos, pois na prática, já havia uma certa centralização administrativa, em função do suporte que os espaciais forneciam indistintamente aos povos de todos os continentes, dos procedimentos padronizados definidas pela ONU, das fronteiras livres e do idioma único, dentre várias outras coisas.

No início do ano 42, em continuidade ao processo de transferência de tecnologia, os espaciais começaram a equipar a ONU e os governos continentais com sofisticados computadores, sistemas integrados e banco de dados que antes só existiam em suas naves. O banco de dados mantido e atualizado pelos espaciais foi substancialmente ampliado a partir de um detalhado levantamento das necessidades básicas da população, relacionadas com habitação, alimentação, vestuário, saúde, educação e lazer, dentre outras consideradas como fundamentais para o bem-estar, conforto e qualidade de vida, além de particularidades e expectativas dos habitantes de cada continente. A finalidade desse banco de dados era facilitar o planejamento das necessidades da população e tornar os governos continentais independentes desse tipo de apoio dos amigos das estrelas. A administração do sistema e do banco de dados ficou sob a responsabilidade da ONU arretiana, sediada na ilha de Agartha, onde foram instalados os computadores ou servidores principais. O acesso para consultas e atualização seletiva do banco de dados foi descentralizado em diversos níveis, desde a administração continental até os núcleos administrativos, operacionais e de serviços existentes em cada cidade agrícola ou industrial. Esse grande e ramificado sistema foi o embrião da nova Internet arretiana.

A ONU era um organismo muito respeitado em todo planeta desde a sua criação e, com o passar do tempo adquiriu maior agilidade, poder e amplitude de atuação, principalmente após sua última reestruturação ocorrida no ano 35. Ela atuava como um organismo que definia critérios de conduta e padrões a nível geral e, nesse aspecto, antecedeu o governo planetário. Sua estrutura colegiada e flexível permitia avaliar assuntos específicos de cada continente sem perder a visão da coletividade planetária e por essa razão suas deliberações eram sempre acatadas e colocadas em prática, pois todos os seus membros agiam com o mais o mais alto espírito público. Entre os anos 42 e 48, ela definiu regras e procedimentos que motivaram os governos continentais a implantar os mais variados projetos voltados para viabilizar o governo planetário. Com isso, todos os pequenos e grandes problemas foram equacionados e resolvidos, incluindo soluções particularizadas para atender reivindicações específicas de uma pequena parcela da população concentrada no último e mais problemático dos continentes unificados.

Nos seis meses finais do ano 48, os governantes continentais e suas equipes intensificaram as reuniões com grupos de trabalho da ONU e, com a assessoria dos amigos das estrelas, definiram o projeto básico para estruturação do governo planetário, envolvendo sua forma de atuação e critérios para escolha do presidente, ministros e demais membros. Os seis meses seguintes foram gastos em reuniões informativas no centro de convenções da ilha de Agartha, envolvendo os dirigentes continentais, regionais e municipais, todas, com milhares de participantes. O objetivo dessas reuniões era levar o mesmo nível de informações a todos e, ao mesmo tempo, detectar e resolver qualquer tipo de problema que ainda não tivesse sido levantado e equacionado. No final, o projeto foi considerado como aprovado, com as seguintes características principais.

  • A estrutura organizacional seguiria o padrão vigente na ONU e nos governos continentais.
  • O governo planetário ficaria sediado em Agartha e utilizaria, além da estrutura do centro de convenções, aquela utilizada pela ONU arretiana, a qual seria desativada. 
  • Os recursos humanos e materiais alocados nos governos continentais seriam parcialmente aproveitados, pois a nova estrutura necessitava de menor quantidade desses recursos.
  • Nos dias seguintes à eleição e posse do presidente e seus ministros, seriam extintos todos os cargos incompatíveis com a nova estrutura e empossados todos aqueles que dela fariam parte. Os demais iriam viver e trabalhar em cidades agrícolas ou industriais de sua livre escolha.
  • Os sete dirigentes continentais, incluindo o coordenador geral da ONU seriam candidatos natos à presidência do governo planetário. Os demais membros seriam candidatos a ministro, de acordo com a área de atuação de cada um deles.
  • O presidente e seus 21 ministros seriam escolhidos por votação secreta dos dirigentes continentais e seus ministros. Também votariam, o coordenador geral da ONU e os coordenadores dos seus 21 conselhos setoriais.
  • Como todos se conheciam muito bem, não haveria campanha e a escolha seria realizada com base nos méritos individuais, no trabalho que realizaram e na forma como aceitavam e cumpriam a Lei Divina.
  • O período de mandato seria até o final da vida de cada um, a menos que renunciassem por vontade própria.
  • A eleição seria realizada no centro de convenções de Agartha e seria transmitida para todo o planeta através de telões que os espaciais instalariam em cada cidade.
  • O centro de convenções seria ocupado pelos eleitores, demais membros da ONU e coordenadores regionais de cada continente. Os demais lugares seriam ocupados por pessoas oriundas de todas as regiões do planeta, sorteadas em quantidades proporcionais aos seus habitantes.
  • Finalmente, marcaram o dia da eleição para meados do ano 49, em um dia equivalente a um sábado, às 8 horas da manhã. 

Com isso foram satisfeitos os anseios da quase totalidade da população. Porém, ainda restaram alguns problemas que envolviam uma pequena parcela da população que rejeitava a idéia da irmandade planetária, se esquivava do trabalho comunitário sempre que podia e exagerava na utilização dos bens distribuídos ou retirados gratuitamente nos mercados públicos, sem nenhum tipo de controle. Como essas pessoas pertenciam à geração anterior à transição e, nos últimos anos, seu número foi drasticamente reduzido, os idealizadores do projeto chegaram a um consenso que deveriam defini-lo sem critérios de exceção, dando a todos os mesmos direitos e deveres, mesmo àqueles que não cumpriam com suas obrigações sociais. Assim procederam, pois entendiam que a Lei Divina se encarregaria de fazer o devido ajuste no tempo apropriado.

A eleição do primeiro governante do planeta

No dia e horário combinado, foi realizada a mais importante de todas as reuniões já ocorridas na ilha de Agartha e seu centro de convenções, com capacidade para 21.000 pessoas, estava completamente lotado. Nas praças e outros locais de todas as cidades, em diversos horários do dia ou da noite, o restante da população estava posicionada em frente aos telões montados pelos amigos das estrelas, pois os sistemas de rádio e de televisão ainda não tinham sido reativados. Para oferecer maior conforto àqueles que assistiram a cerimônia no horário noturno, os espaciais suspenderam as chuvas que normalmente ocorriam entre a meia noite e o início da manhã.

A reunião foi iniciada pelo comandante da frota estelar de apoio a Arret, com um resumo de todos os trabalhos até então realizados para viabilizar o grande acontecimento daquele dia. Em seguida, os governantes continentais fizeram emocionados discursos embasados nos grandes postulados da Lei Divina e sua relação com a criação do governo planetário. Todos enfatizaram o apoio e a colaboração dos amigos das estrelas e, sob diversas óticas, citaram o exemplo de trabalho impessoal, dedicação desinteressada e a contribuição decisiva que deram para viabilizar a criação do governo planetário. Depois, o coordenador geral da ONU, como responsável pelos trabalhos que levaram à elaboração e aprovação do projeto de criação do governo planetário, fez um resumo dos critérios definidos, pois toda a população conhecia seus detalhes. Em seguida, o comandante da frota de apoio convocou os eleitores para dar início à votação.

Para esse grande momento, os espaciais montaram um telão no alto do palco e algumas cabines com urnas eletrônicas. Inicialmente, o telão apresentava as denominações dos cargos a serem votados e, no final da votação, os nomes dos eleitos. Como havia poucos eleitores, o processo foi concluído rapidamente e, assim que os nomes dos eleitos apareceram no telão, todos os presentes no grande auditório começaram a bater palmas, a se abraçar e a comemorar com grande emoção. Ninguém estava comemorando a vitória do “seu candidato”, pois todos apresentavam um perfil inquestionável de competência, altruísmo, justiça, impessoalidade e outras qualidades raras nos homens públicos do nosso planeta. Todos estavam comemorando a vitória da irmandade planetária e o início de uma nova fase da história arretiana. Por isso, a emoção foi muito grande e tomou conta de todos.

Essa mesma reação ocorreu em todos os locais do planeta e ocasionou um grande fenômeno que marcou indelevelmente aquele dia na mente da população. No auge daqueles momentos de confraternização e de emoção, um círculo de luz dourada começou a se formar na frente do palco e das pessoas que nele estavam. O círculo se expandiu lentamente e no seu centro começou a aparecer a figura de Ahelohim, com uns dois metros de altura, cada vez mais nítida. Quando o auditório percebeu o que estava acontecendo, todos interromperam as confraternizações e ficaram extasiados observando aquela impressionante visão. À medida que aquele ser começou a se materializar, tornando-se sólido e palpável, o círculo de luz foi diminuindo, sem desaparecer por completo.

Ahelohim, cuja figura típica era tão conhecida em Arret, como Jesus o é na Terra, se dirigiu ao grande auditório sem utilizar o equipamento de som e foi ouvido claramente nos mais diversos pontos daquele ambiente. Ele fez um discurso que emocionou os habitantes do planeta e criou uma grande expectativa e confiança no futuro. Começou dizendo que aquele dia marcava o final de um longo ciclo evolutivo e de vidas permeadas por grandes lutas e sofrimentos que levaram cada um a compreender e a praticar o mais simples, singelo e importante mandamento do Pai Celestial, o qual esperou por longos milênios até que cada um de seus filhos respeitasse e amasse seu irmão como a si mesmo e fizesse a ele o mesmo que gostaria de receber.

Ahelohim enfatizou que o grau de compreensão, de aceitação, de vivência e de exemplificação desse mandamento tinha o grande poder de impulsionar o espírito humano na escala da evolução e de levá-lo mais rapidamente e com menos sofrimento, ou mais demoradamente e com mais sofrimento, ao primeiro degrau do reino divino, o reino angélico, o qual estava sendo conquistado pela quase totalidade dos habitantes do planeta e por aqueles que permaneceram na Hierarquia Espiritual Arretiana. Ele informou que o tempo necessário para alcançar esse degrau após a individualização no reino humano, contava-se em milhares de anos permeados por pequenas e grandes batalhas, geralmente, contra si mesmo, até transmutar as características peculiares do ser humano, nas virtudes que teciam, gradativamente, a veste branca e imaculada do ser angélico. Ahelohim disse que essas batalhas e sofrimentos tinham o poder de lapidar a pedra bruta que representa o espírito humano e transformá-la em uma jóia de rara beleza, tal qual foi concebida pelo Pai Celestial.

Depois de uma longa pausa para observar a platéia, Ahelohim disse que aquele dia marcava o início de um novo ciclo evolutivo, onde reinaria a irmandade, a fraternidade e a felicidade baseada no amor de uns com os outros, pleno de dádivas que o Pai Celestial guardava há longas eras para oferecer àqueles que já se reconheciam como irmãos e, como conseqüência, O reconheciam com o Criador e Pai de todos os seres. Ahelohim levantou suas mãos para o alto e depois as estendeu na direção do auditório, emitindo uma luz amarelada que iluminou todo o ambiente. Em seguida, voltou a falar sobre as dádivas do Pai Celestial e disse que elas seriam distribuídas com grande abundância a partir daquele momento a todos os Seus filhos e filhas que já se reconheciam como irmãos e a Deus, como o Pai, o Criador, o Mantenedor e o Transformador de todos e de todas as formas animadas e inanimadas, visíveis ou invisíveis.

Depois de repetir o gesto anterior, Ahelohim voltou-se para os eleitores e eleitos e os observou longamente sem nada dizer. Todos estavam emocionados e muitos choravam copiosamente. Ele voltou a repetir o gesto anterior e depois abençoou os eleitos fazendo o sinal da cruz em suas testas. Em seguida, voltou-se para a platéia e continuou seu discurso. Disse que as pessoas eleitas naquele dia eram, como todos que ali estavam e representavam os demais habitantes do planeta, os homens e mulheres de boa vontade que tinham uma missão de grandes sacrifícios pela frente. Enfatizou que, se eles exercessem aquele sagrado mandato por amor ao Pai Celestial e a seus irmãos arretianos e não se preocupassem com honras, reconhecimentos e recompensas pessoais, seus pesados fardos não passariam de uma leve pluma e nenhum reconhecimento que recebessem em vida seria comparado àquele que receberiam quando retornassem ao mundo espiritual.

Após uma nova pausa, aquele ser maravilhoso prosseguiu dizendo que os próximos governantes seriam indicados pelo Pai Celestial e que o futuro presidente e seus ministros já estavam vivendo no planeta. Informou que todos iriam poder identificá-los nos anos seguintes, pois, a partir daquele dia, começaria a ser aberto o canal de ligação do mundo físico com o espiritual e todos que conquistaram o primeiro degrau do reino divino teriam acesso gradativo a esse mundo e a um grande conjunto de novas informações que permitiriam, além de reconhecer os futuros governantes, acessar os registros das vidas e experiências passadas, tanto a nível individual, como familiar ou coletivo. Todos começariam a nascer com essas lembranças, uma vez que estavam livres dos efeitos das ações negativas que acumularam ao longo das idades.

Novamente Ahelohim ficou em silêncio e, enquanto elevava seu rosto e braços para o alto, seu corpo começou a emanar o mesmo brilho anterior. Em seguida, abençoou os presentes com o sinal da cruz, voltou a elevar seu rosto e braços para o alto e ficou imóvel. O brilho dourado foi aumentando de intensidade até que tomou todo o grande auditório, enquanto seu corpo se transformava na mesma luz que foi se apagando aos poucos até desaparecer e deixar um indescritível perfume no ar. Logo que Ahelohim abençoou os presentes, aqueles que estavam no grande auditório e a maioria daqueles que assistiam o acontecimento pelos telões atingiram o estado de êxtase e tiveram maravilhosas visões do mundo celestial e do futuro do planeta nas próximas décadas e séculos. Quando essas pessoas voltaram a si, estavam maravilhadas com aquele inesperado acontecimento e confraternizaram por horas seguidas em todos os locais do planeta. A aparição e as palavras de Ahelohim provocou tamanho entusiasmo na população que tudo foi superado e facilitado dali para frente. Alguns dos problemas anteriormente detectados foram facilmente resolvidos e a maioria deles nem chegou a se manifestar.

O primeiro presidente do governo planetário foi Thauro, o mesmo que havia substituído Nunzain no governo do continente onde se localizava o país de Olintho. Como seus antecessores, ele era muito querido e respeitado pelos governantes continentais e pelo povo arretiano. Ele e seus ministros começaram a trabalhar no dia seguinte nas instalações da ONU e durante a primeira semana montaram toda a estrutura do governo planetário, quando todos os cargos foram preenchidos e seus ocupantes empossados e instalados com suas famílias nos novos locais de trabalho. Durante essa semana, todos aqueles que deixaram de fazer parte da nova estrutura foram transferidos com suas famílias para as cidades que escolheram, conforme o planejamento anteriormente realizado. 

Na semana seguinte, a nova estrutura entrou em operação com o apoio irrestrito dos seres espaciais, quando foram desencadeadas várias ações voltadas para atingir um objetivo prioritário do novo governo. Ele estava voltado para a otimização da estrutura produtiva e para o aumento da ofertas de vários itens e serviços componentes do bloco de necessidades básicas, como habitação, alimentação, vestuário, saúde, educação e lazer, para fazer frente ao aumento populacional, já beirando os 7 bilhões, sem aumentar a carga de trabalho diária, ainda de dez horas, com descanso semanal aos sábados e domingos, sem feriados ou férias anuais. O primeiro feriado foi estabelecido para o ano seguinte, no aniversário de instalação do governo planetário, o qual foi considerado como o dia da confraternização de todos os povos, equivalente ao nosso primeiro de janeiro.

O PERÍODO DE CONSOLIDAÇÃO E DE MUDANÇAS

No início do ano 50 a população começou a sentir os primeiros resultados dessas ações e de várias outras que se prolongaram pelos 20 anos seguintes. Durante aquele período foram realizados vários ajustes na estrutura do governo planetário e desenvolvidos diversos projetos de racionalização, automação e expansão dos meios de produção de bens e serviços. Quase todas as cidades agrícolas e industriais experimentaram um crescimento substancial e em todas elas foram instalados novas escolas, supermercados, hospitais e equipamentos de lazer, especialmente para crianças e jovens. Em pontos estratégicos de cada região construíram grandes depósitos para armazenar e redistribuir alimentos naturais e produtos industrializados, os quais foram os precursores dos terminais e centrais de distribuição de bens existentes na atualidade arretiana.

Toda a produção planetária passou a ser um bem comum e começou a ser transportada para esses depósitos e redistribuída para os supermercados da sua região. Apesar do crescente aumento da população e da longevidade, as ações do governo planetário ao longo desses 20 anos, aliadas ao entusiasmo e colaboração da população, geraram um significativo aumento no volume e na variedade de produtos agrícolas e industriais. Com isso, no ano 70 o trabalho diário havia sido reduzido para 9 horas, com descanso semanal aos sábados e domingos, além do direito a férias anuais de quatro semanas, a fim de não gerar excedentes não aproveitáveis.

Assim como vinha ocorrendo nas décadas e anos anteriores, por volta do ano 70, todos os sobreviventes com mais de 25 anos no período anterior à grande transição retornaram ao plano espiritual e aqueles que não conseguiram vivenciar os novos conceitos da irmandade planetária foram transferidos para mundos inferiores, mais afinados com suas idéias e ideais. Esses mundos representavam escolas de nível primário, ou inferiores, e eram bem diferentes de Arret, já transformado em escola de nível ginasial e franqueada somente a espíritos com certo grau de conhecimento e vivência prática dos postulados básicos da Lei Divina. Alguns desses mundos abrigavam uma humanidade bárbara cujo objetivo era a luta pelo poder e pela conquista de outros povos e sua riquezas. Outros mundos ainda inferiores abrigavam uma humanidade animalizada que morava em cavernas e tinha como objetivo a busca diária por comida e a luta árdua pela sobrevivência em condições adversas, pois dividiam o planeta com animais, répteis e pássaros carnívoros de grande porte e extremamente predadores.  

Esse processo de separação “do joio do trigo” foi iniciado nas décadas e anos anteriores à grande transição, atingindo seu ponto máximo naquela ocasião, quando todos os espíritos desencarnados que não passaram no exame de seleção foram imediatamente transferidos para esses mundos. Os aprovados permaneceram na Hierarquia Espiritual Arretiana se aperfeiçoando e aguardando o momento do retorno à vida física. Antes de continuar a narrativa daquilo que aconteceu após o ano 70, vamos resumir alguns aspectos da justiça e da misericórdia divina, a qual sempre dá a última chance aos seus filhos antes de enquadrá-los em um novo processo educativo.

Quando ocorreu a grande transição, não desencarnaram somente os repetentes. Morreu uma grande maioria deles e também um número significativo daqueles que já nasceram graduados, ou que obtiveram as melhores notas no exame de seleção. Da mesma forma, sobreviveram muitos daqueles que foram aprovados e alguns que ficaram em “recuperação”, enquadrados em um artigo especial da Lei Divina que concederia a eles o “certificado de aprovação”, caso se esforçassem e modificassem sua maneira de pensar e de agir até o final de suas vidas físicas. A esses espíritos foi dada a última oportunidade para assimilar os conceitos básicos da matéria referida no início deste livro, além de contar com a ajuda e o exemplo da maioria dos aprovados que passou a demonstrá-la e a exemplificá-la nos atos práticos do dia-a-dia. Os alunos que ficaram em “recuperação” tiveram anos ou décadas para assimilar essa matéria e praticá-la em igualdade de condições com os sobreviventes. Muitos aproveitaram a oportunidade e se livraram de repetir o curso primário em uma escola muito exigente e desconfortável. Porém, uma parte não conseguiu, apesar de todos os exemplos e ajudas que tiveram por quase sete décadas. Quando o processo de separação do “joio do trigo” foi concluído, teve início um outro processo a nível espiritual, com grandes reflexos no nível físico, o qual desencadeou uma nova era de mudanças positivas e de grandes dádivas para todos.

No início da sétima década, com a conclusão dos desencarnes dos alunos em “recuperação” e com o completo amadurecimento da geração nascida após a grande transição, totalmente afinada com o padrão da nova humanidade arretiana, foi completada a limpeza da aura planetária, tanto a nível físico, como espiritual. Como conseqüência desse grande fato, muitas coisas novas e maravilhosas começaram a acontecer nos dois planos. A nível físico foram totalmente extintos os últimos insetos e répteis nocivos que ainda viviam em algumas regiões isoladas do planeta. Com isso, as “pragas” agrícolas desapareceram completamente, melhorando a saúde e a produtividade das hortas e lavouras. A visão espiritual plena, que era um privilégio de poucos, passou a ser um atributo de todos, incluindo as crianças com mais de 7 anos, completando um processo anunciado no ano 49 por Ahelohim. Todos passaram a ter acesso total à sua memória de vidas passadas e foi nesse período que a população identificou a equipe do segundo governo planetário, conforme Ahelohim também havia previsto.

Essas habilidades, ou dons espirituais, tiveram um papel muito importante na consolidação do comportamento do povo arretiano e motivou várias mudanças, inclusive, no aspecto sexual, conforme será detalhado mais adiante. Outra grande mudança ocorreu com relação à tecnologia. Os amigos das estrelas, desde a época da grande transição, sempre forneceram todo o suporte necessário à população, incluindo os únicos meios de transporte de longa distância e, apesar de toda a dedicação que sempre demonstraram, suas naves continuaram a ser fabricadas em seus planetas de origem e sempre foram operadas e mantidas por eles. A partir do ano 70, eles começaram a transferir uma parte de sua avançada tecnologia ao povo arretiano e começaram a construir as primeiras fábricas de naves e de muitos outros bens de alta tecnologia, até então restrita a alguns itens indispensáveis ao conforto básico da população. Naquele mesmo ano, os amigos das estrelas começaram a construir as primeiras fábricas de componentes e as montadoras de naves. Em paralelo, implantaram cursos de treinamento e começaram a capacitar o pessoal nativo para assumir o processo produtivo, a operação e a manutenção dessas naves.

O formato básico das naves da atualidade arretiana, suas medidas e proporções, foi estabelecido naquela época e não sofreu alterações ao longo dos séculos, a não ser quanto às divisões internas apropriadas a cada tipo de utilização, ou com relação a aperfeiçoamentos, princípios de sustentação, de deslocamento e de navegação interplanetária, pois as primeiras naves foram construídas para operar dentro da atmosfera arretiana. Logo que a estrutura básica e o treinamento do pessoal de produção foram concluídos, os arretianos começaram a construir quatro tipos de naves e, como das vezes anteriores, os amigos das estrelas supervisionaram e acompanharam todo o processo até o ponto onde os arretianos se sentiram seguros e independentes. As quatro naves produzidas na época correspondiam, respectivamente, aos tipos 4, 5, 6 e 7 da atualidade arretiana, conforme está descrito no Diário da Viagem e abaixo resumido.

  • A maior delas media 24 metros de largura, 18 de altura, 72 de comprimento e era voltada exclusivamente para o transporte de cargas.
  • O segundo tipo atendia tanto o transporte de carga como de passageiros e media 12 metros de largura, 9 de altura e 36 de comprimento.
  • O terceiro media 8 metros de largura, 6 de altura, 24 de comprimento e era voltado para o transporte de passageiros.
  • O último tipo media 2 metros de largura, 1,50 metros de altura e 6 metros de comprimento. Essa pequena nave podia transportar até doze pessoas confortavelmente sentadas, ou até 3 toneladas de carga. Pela sua versatilidade, foi largamente utilizada como ambulância, transporte de passageiros e como veículo de deslocamento dos membros do governo planetário, dentre várias outra aplicações. 

Até o final do ano 75 os arretianos construíram as naves necessárias e já operavam toda a rede de transportes de cargas do planeta e, nos dois anos seguintes, assumiram todo o transporte de passageiros, incluindo novas linhas regulares para inúmeros novos locais de lazer que construíram. Com isso, os arretianos começaram a realizar viagens turísticas aos mais diversos recantos do planeta durante suas férias anuais. A partir do ano 70 foi dada alta prioridade para a construção de novas cidades agrícolas e industriais nos continentes polares, os quais ainda apresentavam uma densidade demográfica inferior à dos demais continentes. Apesar de ainda distantes dos padrões da atualidade, essas cidades foram construídas obedecendo a novos conceitos urbanos, em termos de espaços públicos e privados, arruamento, ajardinamento e áreas de lazer. Até então, as cidades ainda obedeciam ao mesmo projeto dos primeiros núcleos de trabalho comunitário, especialmente, com relação à cozinha sem fogão e ao restaurante coletivo.

Nas novas cidades, as residências passaram a contar com cozinhas completas e funcionais, além de vários outros itens que aumentaram o conforto e a qualidade de vida dos seus habitantes. Essas modificações partiram dos anseios da população e foram, gradativamente, se estendendo a todos ao longo do tempo. A população entendia que a melhoria no nível de conforto oferecido inicialmente a alguns, seria um direito de todos no futuro. Também entendia que, se um novo processo não fosse iniciado, todos continuariam na mesma situação. Além disso, não era mais necessária a manutenção dos restaurantes coletivos, por duas razões básicas.

  • Não havia mais necessidade de economizar alimentos ou mão-de-obra, pois a produção aumentava constantemente, enquanto a carga de trabalho diminuía.
  • Também não havia mais necessidade da refeição coletiva como forma de incentivar a convivência harmoniosa, pois o ideal de fraternidade já era uma conquista de todos.

Essas novas cidades contavam com um centro de lazer e um grande parque, como os parques do encontro existentes em todas as atuais cidades arretianas. Os balneários e outros locais de lazer não urbanos, para uso nos fins de semana e nas férias anuais, começaram a ser estruturados e construídos durante esse período, como uma das conseqüências da nova estrutura de transportes de passageiros. Durante os 20 anos seguintes, a estrutura do planeta passou por grandes transformações positivas e todos os arretianos experimentaram uma nova fase de grandes progressos em todas as áreas. A transição planetária tornou-se um acontecimento histórico que passou a ser lembrado como uma benção divina que motivou a transformação do planeta e o novo modo de vida do povo arretiano.   

Thauro faleceu na metade do ano 96, depois de realizar um grandioso trabalho desde os primeiros meses do seu governo. Ele, seus ministros e demais colaboradores, seguiram à risca as palavras de Ahelohim e fizeram tudo o que foi possível para incrementar a irmandade planetária e melhorar a qualidade de vida da população. Não mediram esforços, fizeram enormes sacrifícios individuais e exerceram seus mandatos por amor ao Pai Celestial e a seus irmãos de todos os recantos do planeta, iniciando um processo que foi seguido e aprimorado pelos demais governantes ao longo dos séculos. No início do ano 90, Thauro convidou Hórhium e sua equipe principal para trabalhar com ele e seus ministros, dando início a outro costume que foi seguido por todos os demais governantes. Desde os 20 anos anteriores, todos os arretianos sabiam que Hórhium seria o novo governante e que ele era uma nova manifestação de Olintho, cuja figura singular nunca foi esquecida pela população.

Thauro, que o tinha como mestre e como o exemplo que sempre seguiu, foi obrigado a inverter os papéis durante os anos que o teve como colaborador e dedicado discípulo, como Hórhium sempre fazia questão de frisar e de se colocar. Thauro morreu tranqüilo e feliz, tanto pela consciência do dever cumprido, como por saber quem era o seu substituto. Foi assim que a nova equipe de governo, anunciada por Ahelohim, em meados do ano 49, deu continuidade aos trabalhos em andamento e realizaram muitos outros. Hórhium era o mais velho de sua equipe de ministros, pois estava com 61 anos, com a aparência de 40. Ele viveu 142 anos e governou Arret durante quase 81, pois seu governo foi iniciado na metade do ano 96 e se estendeu até o final do ano 176. Naquela época, a idade média da população já  passava dos 120 e muitas pessoas viviam 130 anos ou mais, com perfeita saúde e disposição. Essa longevidade decorria de uma alimentação equilibrada e de excelente qualidade, do tipo de vida que levavam, bastante ativa e feliz, além da avançada medicina transmitida pelos espaciais, que já atuava no corpo vital e tinha um caráter eminentemente preventivo.

Além de dar continuidade aos trabalhos de Thauro, Hórhium utilizou os três anos e meio que fechavam o primeiro século, para efetuar um novo e grande levantamento de dados e planejar as atividades do seu governo. Como parte das comemorações do primeiro centenário da grande transição ele e sua equipe ofereceram ao povo uma nova versão da constituição planetária, editada no final do ano 36. Como seu conteúdo permaneceu inalterado durante mais de 60 anos, estava necessitando de uma revisão, pois a sociedade planetária passou por profundas alterações durante esse período e muitos dos temas que tratava foram definidos para acomodar situações particulares de alguns povos da época. A nova versão foi substancialmente reduzida e escrita em linguagem simples e direta, tornando ainda mais claros os principais postulados da Lei Divina. Ele continuou titulado como “A Lei de Deus” e manteve o seu poder de resolver todos os problemas e situações que envolviam a comunidade planetária. Esse extraordinário livro, que também era a Bíblia que todos seguiam, sofreu pequenas alterações ao longo dos séculos e permaneceu como livro de cabeceira do povo arretiano, lido entendido e praticado por todos os habitantes com mais de 7 anos.

OS ACONTECIMENTOS NOS SÉCULOS SEGUINTES

Os primeiros 30 anos do novo século foram marcados por grandes transformações na estrutura planetária. O novo governo construiu inúmeras cidades agrícolas e industriais de acordo com os novos padrões urbanos estabelecidos após o ano 70 e, concluiu o trabalho iniciado por Thauro, pois toda a população passou a residir em novas cidades. No decorrer daquele período, o sistema industrial foi racionalizado e passou por uma grande modernização tecnológica para aumentar o número de bens fornecidos gratuitamente ou através de horas extras. Além do substancial aumento na oferta dos bens e serviços essenciais à sobrevivência, conforto e qualidade de vida da população, começaram a fabricar telefones móveis, aparelhos de televisão e outros bens adquiridos através de horas extras, com os mesmos critérios da atualidade arretiana.

Assim como vinha acontecendo gradativamente desde o ano 70, os espaciais aceleraram o processo de transferência da sua avançada tecnologia e, por volta do ano 115, os arretianos montaram uma central de informações suportada por uma rede de satélites, com cobertura planetária nas áreas de telefonia móvel, rádio e televisão, A central oferecia programas educativos, culturais, científicos e notícias de interesse geral, pois os arretianos não davam mais importância para programas de variedades e outros que não contribuíam para o progresso espiritual ou científico. Em paralelo, montaram fábricas de aparelhos telefônicos, de rádio e de televisão, os quais foram disponibilizados para aquisição através de horas extras. Nos dois anos seguintes à entrada em operação da central de informações, os arretianos já se comunicavam por telefone e dispunham de rádio e televisão em suas casas.

Naquele período foram iniciadas as transmissões de informações sobre as atividades governamentais, quando Hórhium inaugurou um costume que se tornou uma constante nos séculos seguintes. Ele começou a prestar contas mensais das realizações de seu governo, além de informar a população sobre os planos futuros. Hórhium utilizava a parte final dos seus pronunciamentos para falar sobre diversos aspectos da Lei Divina, sempre enfatizando a paternidade de Deus e a irmandade do povo arretiano. Com esse procedimento, ele também assumiu o papel de líder religioso, unificando a função política com a espiritual. Por volta do ano 120, os arretianos passaram a trabalhar 8 horas diárias e a ter direito a dois meses de férias anuais, um a cada seis meses, o que demandou a construção de novos centros de lazer em todo o planeta. Os veículos de transporte individual continuaram com uso restrito às pessoas que deles efetivamente necessitavam e o sistema de transportes coletivos era abrangente, eficiente e atendia todas as necessidades de trabalho e de lazer da população.

Após o ano 130, a vida planetária normalizou-se em um patamar mais elevado e houve um grande incremento da estrutura e das atividades de lazer. Esse panorama permaneceu inalterado até o final do governo de Hórhium, também marcado por uma grande expansão da lista de bens e serviços oferecidos gratuitamente, ou através de horas extras, além da contínua construção de novas cidades agrícolas e industriais para atender às novas demandas e incremento da população. Os outros grandes fatos ocorridos em seu governo, além da grande melhoria na qualidade de vida, foram marcantes em termos de desenvolvimento da telepatia, abertura total e seletiva da visão espiritual, memória de vidas passadas e mudança de hábitos sexuais, sobre os quais vale a pena relatar seus aspectos principais.

Desde a época da grande transição, o povo arretiano passou a dar importância decrescente ao relacionamento sexual, mais em função de uma série de fatores ligados àquele acontecimento do que por vontade ou desinteresse dos casais. Nos primeiros dias daquele período, todos foram obrigados a manter uma severa continência sexual em razão das dificuldades impostas pelas condições habitacionais e de sobrevivência. Além disso, o relacionamento sexual também foi inibido em razão de traumas e lembranças daquele grande acontecimento que atingiu todos os sobreviventes. Nas semanas seguintes, além de estarem abrigados em iglus com seus familiares, parentes ou amigos, em um ambiente sem um mínimo de privacidade, a ausência de anticoncepcionais e de preservativos também foi um grande inibidor das atividades sexuais em função das dificuldades que uma gravidez representava naquele período que envolveu os seis primeiros meses. A energia e a atenção de todos estavam voltadas para a sobrevivência e a normalização da estrutura planetária, com jornadas diárias e ininterruptas de até 14 horas de trabalho, o que contribuiu para arrefecer os desejos sexuais.

Quando todos começaram morar nas novas residências, apesar da privacidade que passaram a ter, já havia um novo tipo de relacionamento entre os casais e uma crescente conscientização quanto à irmandade universal, firmada a partir dos acontecimentos da grande transição e das inúmeras palestras que todos os arretianos sempre solicitavam aos espaciais. Com isso o relacionamento sexual começou a ser encarado de uma forma diferente e os casais passaram a praticar, de maneira crescente, um relacionamento mais afetivo e amoroso, sem o complemento do sexo físico. Nos anos seguintes, após a conclusão do primeiro processo de industrialização, quando os espaciais montaram uma estrutura hospitalar voltada para a maternidade e expansão populacional, a maioria dos casais passou a utilizar o relacionamento sexual como função reprodutora e, nas décadas seguintes, com o crescente aumento do amor de uns para com os outros e com a abertura gradativa da visão espiritual, o comportamento sexual sofreu profundas modificações.

A abertura da visão espiritual que atingiu toda a população após o ano 70, permitiu o acesso gradativo à memória de vidas passadas e o conhecimento de todas as relações anteriores entre os casais, seus filhos, demais familiares e amigos. Esse fato criou um novo conceito de relacionamento amoroso na mente de todos, pois passaram a compreender que o companheiro ou companheira atual havia sido seu pai, ou mãe, ou irmão, ou irmã, ou filho, ou filha, ou amigo, ou amiga em vidas passadas. Com isso, até o final do primeiro século, todos já tinham relegado o relacionamento sexual a uma função meramente reprodutora e todos que nasceram nos anos seguintes, já sabiam, por volta dos sete a oito anos de idade, com quem iriam se casar, quantos filhos iriam ter e que tipo de relacionamento passado tiveram entre si. Em decorrência desses fatos, os novos casais foram consolidando um novo tipo de relacionamento amoroso que, ao longo dos dois séculos seguintes, foi adquirindo uma conotação de natureza totalmente espiritual e culminou, por volta do ano 300, no entrelaçamento energético, nos mesmos moldes da atualidade arretiana.

Com a morte de Hórhium, no final do ano 176, foi concluído o grande período de apoio aos sobreviventes e a seus descendentes. Nos três anos seguintes, a parte remanescente da frota interplanetária de apoio a Arret foi desativada e os espaciais deixaram o planeta depois de montar embaixadas correspondentes aos seus planetas de origem, os quais somavam 96 e abrangiam todos aqueles que participaram das diversas operações desde os dias anteriores à grande transição. A desativação da frota não seguiu o plano estabelecido antes do início daqueles acontecimentos, o qual previa um período de acompanhamento de 80 e 120 anos, dependendo da maneira como as coisas evoluíssem no planeta. O primeiro entrave ocorreu com o processo de criação do governo planetário, o qual sofreu uns 25 anos de atraso, em função das dificuldades para unificação do último continente, ocorrida somente no ano 35. A decisão de permanecer até o final do governo de Hórhium, foi tomada em função da disposição de Olintho de retornar à vida física e assumir o segundo governo planetário para realizar, em conjunto com os espaciais com quem sempre trabalhou em perfeita harmonia, os sonhos que acalentava quando faleceu no final do ano 10. Por volta do ano 150, alguns dos ministros de Hórhium retornaram ao plano espiritual e foram substituídos por outros, inaugurando um costume que permaneceu inalterado durante os séculos seguintes para facilitar e garantir a continuidade operacional do governo planetário. A partir daquele período, as equipes de governo passaram a contar com ministros e outros membros de diversas faixas etárias.

Durante as primeiras décadas do século correspondente aos anos 201 e 300, a população do planeta já superava a casa dos 10 bilhões de habitantes, o mesmo número que havia antes da grande transição. As estruturas agrícola e industrial atingiram um excelente nível de desenvolvimento, de padronização e de produtividade, satisfazendo plenamente todas as necessidades da população, o mesmo acontecendo com os demais sistemas, como o de educação, de saúde e de lazer. Por volta do ano 250, o crescimento populacional foi desacelerado e os casais começaram a ter de dois a três filhos, atendendo a uma recomendação da Hierarquia Espiritual Arretiana que estabeleceu um limite máximo de 14 bilhões de habitantes para o planeta e um número ideal entre 12 e 13 bilhões.

Em decorrência desse fato, o governo realizou um novo projeto de planejamento urbano e estabeleceu novos padrões quanto ao tamanho e estrutura física das cidades agrícolas e industriais, incluindo os formatos e plantas das residências e das edificações e equipamentos púbicos, como supermercados, teatros, hospitais, parques e áreas de lazer urbanas. Também padronizou os tipos de materiais básicos e de acabamento a serem utilizados, os quais permaneceram estáveis ao longo dos séculos e são os mesmos que vigoram na atualidade do planeta. De maneira semelhante ao que aconteceu no ano 70, a estratégia utilizada para agilizar a transferência da população para as novas cidades, foi a de construí-las em outros locais e transferir a população de 2 ou mais cidades antigas, pois muitas das novas tinham capacidade para abrigar entre 12 e 18 mil habitantes, representando o dobro ou o triplo da média daquelas estão existentes. Algumas cidades voltadas para atividades industriais foram planejadas para abrigar uma população maior, enquanto outras, dedicadas à agricultura extrativista, abrigavam um número menor.

Até o ano 300, toda a população já morava nessas novas cidades, em residências iguais ao padrão da atualidade, incluindo a piscina comunitária para as quatro famílias que formavam uma quadra residencial. As cozinhas já contavam com conservadores de alimentos e não tinham fogões, pois todos os produtos não consumidos ao natural eram pré-cozidos e facilitavam o trabalho de preparação das refeições. Os itens do mobiliário básico também foram modificados, mas ainda estavam longe do padrão tecnológico da atualidade. Eram semelhantes aos bons e confortáveis modelos terrestres vigentes no final do século 20. O sistema público de transporte de passageiros e de cargas era muito eficiente, atendia todas as necessidades da população e continuava operando com os mesmos tipos e modelos de naves construídas após o ano 70.

Além disso, os habitantes passaram a contar com cabines de teletransporte instaladas no ambiente da piscina comunitária, nos locais de trabalho, nas escolas, hospitais e áreas de lazer, dentre outros locais públicos. Essas cabines provocaram uma revolução nos meios de transporte e possibilitou uma grande mobilidade e rapidez nos deslocamentos da população, pois qualquer habitante podia ser teletransportado para qualquer local do planeta em menos de 30 segundos. O vestuário sofreu uma nova padronização e assemelhou-se ao padrão vigente na atualidade do planeta, diferindo apenas quanto à tecnologia, conforto térmico e resistência das fibras e tecidos que foram desenvolvidos nos séculos seguintes. O terceiro século foi marcado pelo estabelecimento de novos padrões que abarcaram todos os itens, materiais e equipamentos. 

Para suportar a implantação do grande conjunto de mudanças ocorridas naquele período, o horário de trabalho continuou sendo de 8 horas diárias, com dois dias de descanso semanal e dois meses de férias anuais. Foi somente nos anos finais daquele século que as férias anuais passaram para 3 meses, com quatro de trabalho e um de descanso. A expectativa de vida média da população já chegava aos 150 anos e todos eram conscientes do momento do retorno ao plano espiritual e, como na atualidade arretiana, comandavam esse processo com bastante naturalidade. Os compromisso familiares eram estabelecidos antes do nascimento e as crianças eram consideradas como filhos de todos. O relacionamento amoroso incluía o entrelaçamento energético, nos mesmos moldes da atualidade arretiana, conforme está descrito no Diário da Viagem.

O século compreendido entre os anos 301 e 400 transcorreu sem grandes novidades e a população se estabilizou perto de 11 bilhões de habitantes. Aquele período foi caracterizado por uma grande estabilidade em todas as áreas e por um grande incremento das atividades de lazer, cujo sistema passou a ser o mais importante de todos. O lazer não era mais visto como uma forma de diversão pura e simples, mas como meio de expansão dos relacionamentos e da irmandade planetária, a nova tônica evolutiva da humanidade arretiana. Durante aquele século houve um grande incremento nos relacionamentos entre os diversos povos, tanto em função da expansão dos centros de lazer, como pelas facilidades de locomoção geradas pelo sistema de transportes públicos e pelas cabines de teletransporte instaladas em todas as residências nas duas primeiras décadas iniciais daquele século e adquiridas através de horas extras. Elas ainda não faziam diagnósticos e não estavam integradas ao sistema de saúde.

Em função da crescente disponibilidade de mão-de-obra ocorrida nos anos seguintes, o governo planetário resolveu agilizar um trabalho que vinha sendo lentamente realizado ao longo dos dois séculos anteriores, com o objetivo de recuperar e reflorestar com espécies nativas originais, as áreas onde se localizavam as grandes cidades e megalópoles existentes antes da grande transição. De maneira geral, essas áreas estavam cobertas por uma vegetação constituída por capins, árvores e arbustos de pequeno ou médio porte, formando um bioma semelhante ao do Cerrado brasileiro. Também adotaram idênticas providências em todas as áreas desérticas ou desmatadas no passado e com os leitos de antigas estradas e acessos implantados antes e após a grande transição. Juntamente com a recuperação dessas áreas, começaram a reestruturar os antigos centros de lazer e a implantar outros dentro dos mesmos padrões da atualidade.

O sistema educacional foi reestruturado por volta do ano 350, quando foram criados os grandes centros de ensino e pesquisa avançada existentes na atualidade. Com isso a população atingiu um alto nível de escolaridade e um grande número de arretianos começou a complementar seus estudos de terceiro grau com cursos de especialização em planetas mais avançados. Nas duas décadas finais daquele século, os arretianos já projetavam, construíam e operavam seis dos sete tipos de naves existentes na atualidade. Elas ainda não construíam naves para deslocamentos a outras estrelas, mas já visitavam todos os planetas do seu sistema estelar e a mantinham colônias de estudos e pesquisas na maior de suas três luas. No final daquele século as férias anuais chegavam a 4 meses, com um mês de descanso a cada dois de trabalho e uma jornada de 8 horas diárias.

Entre os anos 401 e 500 houve um novo surto de desenvolvimento tecnológico e industrial que beneficiou toda a comunidade planetária. Desenvolveram uma infinidade de bens e produtos que substituíram seus similares anteriores, além de várias novidades que passaram a integrar a lista de produtos distribuídos gratuitamente, e outros para aquisição com trabalhos extras. Até a metade daquele século, todas as naves passaram a contar com novos sistemas de sustentação, deslocamento, navegação e proteção por campos de forças, semelhantes ao da atualidade. A partir do ano 450, começaram a construir as grandes naves do tipo 1 da atualidade arretiana, com 1.368 metros de comprimento, 456 de largura e 342 de altura, destinadas a viagens pela Via Láctea, iniciando a fase de contatos e apoio a outros povos. Com isso, passaram a integrar o comando galáctico, em igualdade de condições com os espaciais que os socorreram no passado. No mesmo período, começaram a construir duas outras naves menores para viagens exploratórias e turísticas a planetas da nossa região galáctica. A do tipo 2 tinha 456 metros de comprimento, 152 de largura e 114 de altura. A do tipo 3 apresentava um comprimento de 144 metros, 48 de largura e 36 de altura. Com isso passaram a contar com os mesmos sete tipos de naves existentes na atualidade do planeta.

No final daquele século, Arret apresentava um  desenvolvimento tecnológico semelhante ao da atualidade, diferindo apenas com relação a detalhes e aperfeiçoamentos introduzidos posteriormente. Já havia veículos individuais para todos os pretendentes, assim como, telões, computadores de alta capacidade e telefones móveis integrados a uma nova rede de satélites administrados pela CIA, a Central de Informações de Arret, que já atuava nos moldes da atualidade. As cabines de teletransporte já faziam diagnósticos médicos e todas estavam integradas a um eficiente e preventivo sistema de saúde. Com isso, as pessoas viviam e trabalhavam com vigor juvenil até os 180 anos, pois desde a grande transição a prática da aposentadoria foi abolida em todo o planeta. Todos passaram a considerar o trabalho como uma atividade de lazer e queriam contribuir com suas obrigações sociais enquanto vivessem e fossem úteis à sociedade planetária.

Com o aumento da expectativa de vida, a população teve um pequeno incremento e chegou a ultrapassar a casa dos 11,5 bilhões de habitantes. As opções de lazer nos fins de semana e nos períodos de férias foram ampliadas com a construção de novos balneários marítimos e fluviais, além de núcleos turísticos em áreas montanhosas e florestais. Também continuaram recuperando as áreas degradadas e em muitas delas foram implantadas novas áreas de lazer. O horário de trabalho diário e as férias anuais continuaram no mesmo padrão do século anterior.

O período compreendido entre os anos 501 e 600 foi marcado por um certo grau de estabilidade dos diversos sistemas planetários e pelo grande incremento das viagens diplomáticas, de turismo e de intercâmbio com os povos dos planetas que os socorreram no passado e a outros membros da confederação galáctica. As embaixadas desses povos em Agartha e as contrapartidas em seus planetas de origem já chegavam a 112, sendo 96 delas referentes aos povos que participaram das operações anteriores e posteriores à grande transição. Por volta do ano 510, os arretianos e suas naves começaram a participar de operações em planetas que estavam prestes a passar ou que passaram pela sua grande transição, quando tiveram a oportunidade de prestar o mesmo tipo de apoio que receberam no passado.

Durante aquele século os arretianos embelezaram os centros de lazer já existentes e construíram outros, cujos tipos até então não existiam, como as colônias submarinas e as estações orbitais, dentro dos mesmos padrões da atualidade. Como exemplo de embelezamento de balneários marítimos e fluviais, introduziram equipamentos de iluminação aquática para permitir mergulhos e observações noturnas. Por volta do ano 550, o mobiliário doméstico chegou ao padrão da atualidade, incluindo as camas especiais que proporcionaram um grande conforto durante o período de descanso do corpo. A maiorias das pequenas e médias áreas degradadas já estavam recuperadas e os vestígios das grandes cidades do passado tinham desaparecido completamente. O horário de trabalho continuava sendo de oito horas diárias e o período de férias já era de 6 meses por ano, sendo um de trabalho e um de descanso.

O século seguinte, iniciado no ano 601, foi marcado por um novo processo de racionalização da produção, simplificação e aperfeiçoamento de um grande conjunto de itens, com o objetivo de simplificar o seu conjunto e também melhorar o nível de qualidade de vida de uma população que havia retomado seu nível de crescimento e já ultrapassava a casa do 12 bilhões de habitantes. Em meio ao planejamento do novo processo, um novo governante assumiu a gestão do planeta no ano 642 e realizou um grandioso trabalho nas décadas seguintes. Esse governante chamava-se Arcthuro e ainda era o presidente do governo planetário no ano 722, correspondente a 1.999 do tempo da Terra e ao ano em que foi realizado o levantamento de dados sobre o modo de vida do povo arretiano.

Para atingir o nível de produtividade, de modernidade e o elevado padrão de vida da atualidade arretiana, Arcthuro e sua equipe realizaram uma completa reformulação do sistema industrial, introduzindo novas máquinas e equipamentos de alta tecnologia e elevado grau de robotização. Em maior ou menor grau, todos os demais sistemas passaram por algum tipo de reformulação e todos eles foram otimizados e aperfeiçoados, de maneira a manter o equilíbrio e a harmonia do macrosistema planetário. Durante os 80 anos que já estava à frente do governo planetário, Arcthuro transformou a vida arretiana no padrão descrito resumidamente no Diário da Viagem e reduziu a carga de trabalho para 6 horas diárias sem alterar o direito a 6 meses de férias anuais. Os resultados desse grandioso trabalho constituem o terceiro volume que apresenta a atualidade arretiana a partir de uma visão sistêmica bastante detalhada. Ele apresenta uma visão geral do macrosistema planetário e descrições pormenorizadas de cada uma dos seus doze sistemas institucionais, como o educacional, o de saúde e o de lazer, além de descrever alguns sistemas não institucionais, como o familiar e o religioso.

Obrigado por ler este livro. Se gostou, esperamos que se junte aos sonhadores e sonhadoras que propagam um ideal de vida semelhante ao arretiano. Com isso ajudaremos a materializar o sonho representado pela vida, pela obra, pelas palavras e pelo exemplo de Jesus.

Apesar dos direitos autorais deste livro estar devidamente protegido e registrado na Fundação Biblioteca Nacional, conforme dados na página dois deste livro, você pode ceder cópias a seus amigos e amigas, pois nosso maior desejo é divulgar a mensagem nele contida.

BIOGRAFIA DO AUTOR

J. A. Dal Col, batizado como José Aparecido Dal Col, nasceu em 23 de Dezembro de 1948, às 15:13 hs em uma fazenda na cidade de Guarantã – SP. Começou a trabalhar ainda jovem em várias atividades e empresas e, em 1967, já morando na cidade de São Paulo, ingressou na antiga Companhia Telefônica Brasileira, onde atuou como escriturário, encarregado, chefe de seção e analista de sistemas. Casou-se em 1973 com Solange, com quem teve três filhos e adotou outros dois.

Em 1978, graduou-se em administração com especialização em análise de sistemas. De 1974 até 1988, desempenhou diversas funções de direção nas áreas de sistemas da Manah, Votorantim, Prodam e bancos estrangeiros, como o First Chicago e BNL. Em fins de 1988 montou sua empresa de consultoria na área de sistemas e, em setembro de 1992 mudou-se para Alto Paraíso de Goiás, onde montou um supermercado e adquiriu uma propriedade rural, o Santuário Vale Dourado, uma área de 658 hectares, com muitas cachoeiras, rios e outras belezas naturais. 

Em 1999, depois de registrar a grande aventura arretiana, mudou-se com sua esposa Solange para o Santuário Vale Dourado onde passaram a viver em estreito contato com a natureza, obtendo a sustentabilidade através do Ecoturismo. Em 2008, tendo como inspiração o modo de vida do povo arretiano, descrito neste livro e em ARRET – O Diário da Viagem, definiram um projeto de Ecovila e começaram a compartilhar o local com outras pessoas interessadas em praticar um novo modo de vida em harmonia com a natureza e um novo estilo de convívio social baseado na cooperação e no respeito à individualidade.

Novas pessoas estão se interessando, ajudando, ou se integrando ao projeto da Ecovila como Sócio(a) Cotista e ela está se desenvolvendo conforme o planejado.

Para outras informações acesse o site www.ecovilavaledourado.com que detalha o projeto de ecoturismo e apresenta outras informações sobre a Ecovila,  incluindo o download de um folder eletrônicoc om detalhes da filosofia, do projeto geral da Ecovila e como dela participar como Sócio(a) Cotista.

No site acima, caso você ainda não o tenha lido, poderá fazer o download gratuito de ARRET  –  O Diário da Viagem e de duas propostas referentes à Reforma Política e à Reforma Agrária. Se quiser, também pode entrar em contato conosco pelo email ecovilavaledourado@gmail.com.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s